18 de novembro de 2012

Love on Delivery (Amor Expresso/1994)

lodHo Kam-An aka Ultraman (Stephen Chow) encara seu desafeto (Lam Kwok-Bun)

Stephen Chow estreia na direção como codiretor. O resultado não poderia ser menos que formidável. Love on Delivery é um filme de comédia puro sendo facilmente um dos mais hilários de toda sua filmografia. É um daqueles raros filmes capazes de arrancar lágrimas de tanto gargalhar.

Ho Kam-An é um inocente entregador de dim-sum que se apaixona pela musa do clube do judô. Ho se mete em confusão atrás de confusão, sempre levando a pior. Até que um dia ele conhece Tat, Devil Killer, que se apresenta como um fodástico mestre de kung fu, porém na realidade é só um charlatão que passa a perna facilmente no herói do filme. Porém, por incrível que pareça ele se torna um invencível mestre de artes marciais, a ponto de vestir uma mascara de Garfield e proteger sua amada Lily.

A química entre Ng Man-Tat e Stephen Chow é absurdamente estupenda. Ng Man-Tat em seu papel de mentor de Ho esbanja perspicácia e malícia. Personalidade completamente oposta do seu ingênuo e dócil pupilo. Sempre que ambos dividem uma cena em qualquer filme é de se esperar algo extremamente engraçado independentemente do tipo de personagen estejam interpretando, e neste filme não é diferente. Completando a dupla, Christy Chung mostra carisma suficiente para encantar o nosso ingênuo herói e o expectador. Lily possui uma forte personalidade para se proteger das investidas do seu instrutor de judô.

Love on Delivery é uma metralhadora de gags, incluindo piadas envolvendo fantasias de Ultramen a Garfield. As cenas são uma mais engraçada que a outra. Stephen Chow adiciona mais um personagem memorável em seu vasto repertório. O seu personagem ingênuo e a sequência de gags lembra bastante os primeiros filmes de Jim Carrey, com a diferença que Chow é um ator muito mais completo.

A luta final consegue a façanha de ser a cena mais engraçada do filme, ao mesmo tempo sendo muito empolgante. O trabalho de Stephen Chow tanto como ator quanto como diretor é magnífica. O filme não se torna cansativo em nenhum momento apesar de sua quantidade infinita de gags além de ter um ritmo fluído, mesmo com sua longa duração. Para os fãs do “Deus da Comédia”, Love on Delivery é imperdível.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original: 破壞之王 (Poh Waai Ji Wong)

Diretor: Stephen Chow Sing-Chi, Lee Lik-Chee

Elenco: Stephen Chow Sing-Chi, Ng Man-Tat, Christy Chung Lai-Tai, Lam Kwok-Bun, Wong Yat-Fei, Vincent Kok Tak-Chiu, Leo Koo Ka-Kui, Joe Cheng Bo, Lee Lik-Chee, Paul Chun Pui, Gabriel “Turtle” Wong Yat-San, Leung Wing-Chung.

12 de novembro de 2012

Prison on Fire (Prisoneiro do Inferno/1987)

prisononfireChung (Chow Yun-Fat) a esquerda e Hung (Roy Cheung) a direita.

No mesmo ano que o aclamado City on Fire estreou, a colaboração entre Ringo Lam e Chow Yun-Fat rendeu outro fruto. Prison on Fire conta a história de Lo Ka Yiu (Tony Leung Ka Fai), um moço de família prestes a noivar e que ajuda o pai no negócio de mercearia. Porém, um dia Lo acidentalmente mata um delinquente ao tentar proteger o seu pai. Injustamente ele é sentenciado a cumprir pena na cadeia.

A ingenuidade de Lo logo lhe trará problemas com os perigosos chefes de gangues Micky (Ho Ka-Kui) e Bill (Tommy Wong). Para sorte de Lo, ele acaba conhecendo Chung (Chow Yun-Fat) que o ajudará a sobreviver nesse ambiente tão hostil.

Só com a atuação carismática de Chow Yun-Fat (o que é chover no molhado) já transforma Prison on Fire num grande filme. Mas a presença de Tony Leung Ka Fai, apesar de não se destacar nas principais cenas por falta de oportunidade dadas pelo roteiro, é uma das peças fundamentais do filme. A interação entre o ingênuo e tímido Lo e Chung, brincalhão mas hábil político, é o que torna a história do filme tão envolvente. A construção dos laços de amizade entre Chung e Lo é um dos pilares que move o filme.

Outro pilar do filme, mesmo sendo secundário, é Hung. Roy Cheung é um ator bastante subestimado pelo público e pelos críticos, mas neste filme sua atuação, em diversos momentos, é capaz de rivalizar com a atuação de Chow Yun-Fat e de Tony Leung Ka Fai. O seu diretor do presídio não é retratado como alguém que faz da vida dos detentos um inferno por ser um cara perverso, mas ele faz da vida deles um inferno pois sabe que a qualquer momento pode ser esfaqueado pelas costas. Apesar de apelar para o uso da violência quando julga necessário, Hung prefere um canal mais diplomático ao instigar as rivalidades entre as diversas facções dentro da cadeia. O antagonismo entre Roy Cheung com os detentos, principalmente com Chung, é formidável.

Ringo Lam retrata muito bem a politicagem que existe dentro da prisão. Mesmo os criminosos e agentes do Estado serem duas entidades opostas é necessário certos arranjos para que ambos possam coexistir em um mesmo espaço. Enquanto Lo é incapaz de compreender aquele universo por ser uma pessoa do bem, Chung compreende como poucos as regras não escritas e aproveita-se desse conhecimento para manter uma boa relação com os outros detentos e com os carcereiros.

No entanto, o filme jamais se propõe a fazer um estudo minucioso sobre as relações de poder que se manifestam ali dentro da prisão. O diretor prefere, a partir desta contextualização, focar nos personagens e suas interações diante de determinadas situações.  Prison on Fire pode não ter uma trama brilhante, mas Ringo Lam transforma o argumento em um ótimo drama com personagens memoráveis e intensas emoções.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título Original: 監獄風雲 (Gam Yuk Fung Wang)

Diretor: Ringo Lam Ling-Tung

Elenco: Chow Yun-Fat, Tony Leung Ka-Fai, Tommy Wong Kwong-Leung, Roy Cheung, Yiu-Yueng, Victor Hon Kwan, Ho Ka-Kui, Shing Fui-On, Ng Chi-Hung.

30 de outubro de 2012

Motorway (Motorway - Dirigindo sem limites/2012)

motorway‘Need for Speed’ feelings

Motorway é o mais novo filme da Milkyway, produtora do lendário diretor Johnny To. O filme se passa em Hong Kong cuja polícia possui um grupo chamado de “Esquadrão Invisível”, policiais que andam em carros comuns para pegar em flagrante os motoristas que se acham pilotos de corrida.

A trama é a mais genérica possível. Cheung (Shawn Yue) é um dos membros desse esquadrão, e que nas horas vagas é um piloto de racha que tenta fazer justiça com as próprias mãos quando não consegue prender como um agente da lei. Tal vida dupla não traz problemas para ele, inclusive é aceita pelo seu parceiro. O parceiro e mentor do impulsivo Cheung é o veterano policial Lo (Anthony Wong).

Porém tudo muda quando Jiang (Guo Xiaodong) aparece em parceria com o criminoso Wong (Li Hai-To). Jiang é um lendário piloto que nunca foi preso pela polícia. Cheung casualmente tentará prendê-lo, mas no primeiro encontro descobre que sua técnica de pilotagem é muito inferior. Além de preparar com cuidado suas rotas de fuga, Jiang usa técnicas pouco ortodoxas para se livrar de seus perseguidores, como por exemplo criar uma cortina de fumaça queimando os pneus. Apesar de Jiang ser o personagem mais interessante, o papel somente exige de Guo Xiadong uma cara calma de quem tem sempre controle da situação.

No elenco temos nomes familiares em produções da Milkyway. Gordon Lam interpreta o chefe de Cheung e Lo, respectivamente Shawn Yue e Anthony Wong. Assistir o veterano ator é sempre divertido, mesmo sendo clichê dos clichês o seu policial estar contando os dias da aposentadoria. Shawn Yue oferece uma atuação sem falhas, mas nada brilhante por conta de um personagem com desenvolvimento incompleto. O roteiro poderia muito bem explorar a relação ambígua de Cheung com a lei e sua paixão pela velocidade. A relação entre pupilo e mestre funciona graças a boa química que existe entre ambos os atores.

Essa relação entre pupilo e mestre também pode ser estendida a direção. A cada filme que dirige, Soi Cheang mostra nítida evolução nos aspectos técnicos. O diretor parece ter herdado do produtor Johnnie To o talento para filmar cenas visualmente apuradas e impecáveis. Ainda está longe de chegar perto do nível do mestre, precisando evoluir outros aspectos. Mas isso só acontecerá quando aparecer as oportunidades de dirigir projetos mais pessoais.

Do ponto de vista técnico, Motorway é impecável com cenas de perseguição muito bem filmadas, sendo algumas bastante criativas. Porém sendo um filme produzido pela Milkyway, talvez o aspecto decepcionante seja a falta de personagens memoráveis. O personagem mais interessante acaba sendo Jiang, pois sempre ficamos na expectativa do que ele fará para se livrar dos policiais em seu encalço. Ainda que filme recicle várias ideias de filmes, inclusive, da própria produtora, este diverte bastante ao que se propõem.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 車手 (Che Sau)

Diretor: Soi Cheang Pou-Soi

Elenco: Shawn Yue, Anthony Wong Chau-Sang, Guo Xiao-Dong, Barbie Hsu, Michelle Ye, Gordon Lam Ka-Tung, Josie Ho Chiu-Yi, Li Hai-Tao, Li Guagjie, Wilfred Lau Ho-Lung, Anson Leung Chun-Yat.

28 de outubro de 2012

The Untold Story (A história macabra de um restaurante/1993)

untold story Wong afiando o cutelo no esmeril.

Em uma praia de Macau, crianças descobrem uma sacola de feira com diversos membros humanos. Um grupo de policiais liderados pelo Detetive Lee são encarregados por investigar o caso. Uma das mãos pertencia  mãe do ex-dono do restaurante ‘Os Oito Imortais’; ele e a família toda estava desaparecida, assim como vários funcionários do restaurante. The Untold Story é baseado em fatos reais.

As suspeitas caem em cima de Wong, atual dono e um ex-funcionário do próprio restaurante. Apesar dos indícios, os policiais tem um grande problema, pois, não existe provas que incriminem Wong, além dele afirmar veementemente desconhecer o paradeiro do ex-patrão. O que parecia ser um caso simples, se torna complicado pois agora os policiais precisariam ir atrás das provas. Provas que haviam sido transformadas em deliciosos pães recheados e que foram devorados pelos clientes do restaurante. E pelos próprios policiais!

Se alguns filmes de terror acabam sem querer se transformando em filmes de comédia, com The Untold Story não existe tal problema pois o filme abraça com louvor criando uma estranha combinação que por incrível que pareça funciona. O grupo de policiais são retratados como um bando de zero à esquerda. Danny Lee interpreta o detetive playboy que fará de tudo para arrancar uma confissão do Wong.

O serial-killer é interpretado por Anthony Wong. Wong começou sua carreira de ator na televisão, posteriormente entrou para a academia de artes cênicas de Hong Kong. O ator estreou no cinema em 1985, mas o papel em Untold Story foi que catapultou sua carreira. Sua atuação é simplesmente visceral, poucos atores conseguem interpretar o seu nível de psicopatia. Tanto que recebeu o prêmio de melhor ator no Hong Kong Film Awards daquele ano. Um feito e tanto para um filme de baixo orçamento em um gênero pouco conhecido por atuações premiadas.

O filme é perturbador não somente pela atuação de Wong, mas pelo incrível trabalho do diretor Herman Yau. Ao contrário de filmes, como por exemplo ‘O Albergue’, que apelam para uma violência pornográfica, o diretor em nenhum momento mostra de forma explicita as cenas de desmembramento. A câmera, posicionada sempre no limite da ação, é mais do que suficiente para sentirmos repugnância com a situação. Por conta do seu conteúdo extremamente violento, o filme foi classificado na Cat III (Categoria III), indicação que proíbe a exibição para pessoas menores de 18 anos. Essa categoria enquadra a maioria dos filmes B e C produzidos em Hong Kong, além de alguns filmes que o governo julgue conter apologia às tríades.

The Untold Story é filme terror que consegue engajar o expectador com um personagem sensacional interpretado por um doentio Anthony Wong. Ao mesmo tempo que diverte, é necessário ter estômago para conseguir assistir certas cenas.  Uma pena que apesar de algumas tentativas em repetir a fórmula, o cinema de Hong Kong nunca tenha conseguido produzir um filme B com uma qualidade tão boa quanto esta.

Hong Kong feelings: 4/5

Título original: 八仙飯店之人肉叉燒包 (Bat sin fan dim ji yan yuk cha siu bau)

Diretor: Herman Yau Lai-To

Elenco: Anthony Wong Chau-Sang, Danny Lee Sau-Yin, Emily Kwan Bo-Wai, Lau Siu-Ming, Shing Fui-On, Parkman Wong Pak-Man, Yee Fa-Kat, Lam King-Kong, Lee Wah-Yuet, Wong Tin-Fai, Tony Leung Hung-Wah, Cheng Choh-Fai, Lee Yi-Chong, Long Chi, Si Man.

22 de outubro de 2012

PTU (PTU:Unidade de Força Tática/2003)

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Depois de quatro anos fazendo filmes comerciais, principalmente comédia romântica, Johnnie To retorna ao gênero que o consagrou. Para elevar ainda mais a ansiedade dos fãs, entre várias pausas das filmagens o filme levou quase um ano para ser produzido.

O filme começa quando Sargento Lo Sa (Lam Suet) perde sua arma depois de apanhar para um grupo de delinquentes. Um grupo de policiais da PTU se prontificam em ajudar o companheiro à encontrar sua arma. O veterano policial Mike (Simon Yam) lidera o grupo pelas vielas e prédios abandonados de Hong Kong. Já a Inspetora Cheng lidera um grupo de políciais da CID que investiga a morte de Ponytail, chefe do grupo de delinquentes que atacaram Sargento Lo. O método de investigação pouco ortodoxo de ambos os grupos é até certo ponto eficiente, mas questionável. O tom cinza impera entre os personagens, principalmente entre os agentes da lei.

Johnnie To sutilmente discute a disputa de egos que existe entre as facções dentro da polícia de Hong Kong e dentro das tríades. Essas cenas possuem diálogos mínimos como é marca registrada do diretor. Para PTU, Johnny To chamou Lam Suet para interpretar o Sargento Lo, tendo uma das melhores atuações de sua carreira. Simon Yam, outra figura carimbada na filmografia do diretor, imbuí Mike de uma ambiguidade que é fascinante. Ruby Wong e Maggie Siu são adições bem vindas, ao quebrar um pouco o paradigma de um universo tipicamente masculino, apesar de seus personagens não serem tão interessantes assim.

No entanto, o personagem principal do filme sem sombra de dúvidas é uma Hong Kong soturna. Ambientação noturna confere a cidade uma aura completamente diferente da metrópole frenética mundialmente conhecida. E dentro dela acompanhamos as idas e vindas de dois grupos de patrulha da Unidade de Força Tática (PTU), outro grupo da Divisão de Investigação Criminal (CID), duas facções da tríade e o Sargento Lo nadando entre esses tubarões. Nessa longínqua noite, uma espiral de eventos acaba culminando em uma verdadeira guerra.

No entanto, o final é totalmente anticlimático. A cena final de profunda ironia não é o problema, pelo contrário. Mas a reviravolta envolvendo Mike é bem decepcionante, principalmente por apelar para o clichê do novato relembrando o veterano do seu dever como policial. Outro problema do filme é o seu ritmo excessivamente cadenciado. Mas o esmero visual com que Johnnie To filma as cenas compensam em parte os problemas.

PTU não é um filme brilhante, não chega nem perto da obra-prima The Mission.  Porém, o diretor oferece uma visão ímpar de Hong Kong, serena mas igualmente perigosa.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: PTU

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Simon Yan Tat-Wah, Lam Suet, Maggie Siu Mei-Kei, Ruby Wong Cheuk-Ling, Raymond Wong Ho-Yin, Eddie Ko Hung, Wong Tin-lam, Lo Hoi-Pong, Kenneth Cheung.