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25 de julho de 2014

2046 (2046–Os Segredos do Amor/2004)

2046 Faye Wong interpreta uma androide que sente as emoções com atraso.

Extasiado com o sucesso de In the Mood for Love, Wong Kar-Wai retorna aquele universo construído pelo amor não consumado de dois amantes. O diretor extrapola diversas ideias trabalhadas no filme ganhador da Palma de Ouro e outras que ficaram de fora. O visual do filme remete a uma nostálgica Hong Kong da década de 1960, com o mesmo esmero cinematográfico da obra original.

2046 é uma continuação direta, porém oblíqua, de In the Mood for Love. O personagem principal é o Mr. Chow, interpretado novamente pelo fabuloso Tony Leung. 2046 é o número do quarto do hotel em In the Mood for Love, onde os amantes Mr. Chow e Mrs. Chan se encontravam para escrever as novelas, porém neste filme é o trem expresso que leva as pessoas ao distante ano de 2046 onde o passageiro pode encontrar suas memórias perdidas mas sem jamais poder retornar ao presente.

Acompanhamos a relação amorosa de Mr. Chow com quatro mulheres, enquanto tentamos entender por que o personagem se transformou em um mulherengo que se perde em suas memórias e no tempo tentando revisitar o amor perfeito que nunca se concretizou. Wong Kar-Wai explora seus tradicionais temas sobre o amor, mas dessa vez flerta com o gênero da ficção científica. A belíssima trilha sonora transita entre músicas da década de 60 e composições que remetem a Blade Runner. Porém, o resultado final é um filme saturado demais pelos inúmeros romances infrutíferos, e pelas mais variadas referências à cultura pop e históricas.

O grande destaque do filme é o reencontro entre Faye Wong e Wong Kar-Wai. Em seu primeiro papel, como a garçonete de uma lanchonete, a atriz havia arrebatado o coração com sua eletrizante atuação. De lá para cá, sua carreira de atriz foi pontuada por poucos papéis, mas mesmo assim a sua química com Tony Leung se manteve intacta. Já Zhang Ziyi entrega a sua melhor atuação desde que despontou em Hidden Dragon, Crouching Tiger (2000). A sua personagem é dotado de personalidade forte o suficiente para aceitar que está sendo usada por Mr. Chow, pois a recíproca é igualmente verdadeira. Por fim, nesse hall de personagens femininas temos uma misteriosa mulher de preto interpretado pela estonteante Gong Li que fará com que Chow resgate memórias de um passado borrado e indistinto.

A narrativa fragmentada dificulta o entendimento das diversas histórias que não necessariamente obedecem uma ordem cronológica, o que exige futuras revisitas ao filme para compreender suas diversas passagens e nuances. No entanto, a experiência de revisitar aqueles personagens não é tão recompensadora. Se em In the Mood for Love Wong Kar Wai oferecia uma dose agridoce do amor, em 2046 a dose é amarga.

Hong Kong Feelings: 3,5/5

Título Original: 2046

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Gong Li, Takuya Kimura, Faye Wong, Zhang Ziyi, Carina Lau Ka-Ling, Chang Chen, Wang Sum, Siu Ping-Lam, Maggie Cheung Man-Yuk, Thongchai McIntyre, Dong Jie, Miao Feilin, Farini Chang, Berg Ng Ting-Yip

31 de janeiro de 2014

Young and Dangerous 5 (Jovens e Perigosos 5/1998)

YND5 Ekin Cheng (esq.) e Danny Lee (dir.) discutem negócios

Young and Dangerous 5 entrou em cartaz em meio as comemorações do Festival Lunar, que comemora a passagem do ano no calendário chinês. A produção do filme foi feito às pressas o que traz diversos problemas ao filme, cuja fórmula já está desgastada pelas inúmeras sequências.

O primeiro problema reside no vilão. Dessa vez Ho-Nam deverá enfrentar seu xará Setzo Ho-Nam (Mark Cheng) da odiada fação rival Sociedade Tung Sing. Apesar da abordagem diferente, com um vilão mais metódico e menos alegórico, o resultado acaba desapontando uma vez que o grande trunfo da série estava em seus vilões cartunescos e megalomaníacos.

Para compensar a fraca história, o roteiro usa dois interessantes personagens que surgiram no filme Young and Dangerous: The Prequel. Big Head é apresentando como um ex-membro da tríade Hung Hing. Ao invés de Daniel Wu, o personagem é interpretado por um competente Chin Kar-Lok. A primeira namorada de Ho-Nam também aparece, em ambos os filmes ela é interpretada pela Shu Qi.

De personagens novos podemos destacar a presença de Danny Lee como um detetive que possui métodos poucos ortodoxos e que se torna um importante aliado de Ho-Nam. Certamente a adição de Danny Lee é muito bem vinda, pois seu ambíguo detetive acaba sendo o grande ponto positivo do filme. Porém o que realmente mais impacta no filme é ausência de Jordan Chan como Chicken, devido à conflitos de agenda. Eki Cheng faz um bom trabalho de carregar o filme sozinho, porém o problema reside na falta de carisma dos personagens de suporte para suprir a ausência de Chicken.

Certamente, o filme é capaz de entreter os fãs da franquia. Porém, o filme mostra falta de inspiração tendo que se apoiar na excelente prequência. Muita da história de Young and Dangerous 5 requer ter assistido Young and Dangerous: The Prequel, principalmente para entender quem é Big Head, uma vez que este acaba se tornando o braço direito de Ho-Nam no último terço do longa. Apesar dos problemas, a popularidade da série em nada impactou.

Hong Kong feelings: 3/5

Título original: 98古惑仔之龍爭虎鬥 (98 Goo Waak Chai Ji Lung Chang Foo Dau)

Diretor: Andrew Lau Wai-Keung

Elenco: Ekin Cheng Yee-Kin, Shu Qi, Mark Cheng Ho-Nam, Danny Lee Sau-Yin,Chin Kar-Lok, Paul Chun Pui, Jerry Lamb Hiu-Fung, Jason Chu Wing-Tong,Sandra Ng Kwun-Yu, Wan Yeung-Ming,Alex Man Chi-Leung, Ng Chi-Hung, Law Lan, Lee Siu-Kei, Anthony Wong Chau-Sang, Wong Tin-Lam, Wong Chi-Yeung,Billy Chow Bei-Lei, Simon Lui Yu-Yeung,Kwan Hoi-San, Ronald Wong Ban

25 de junho de 2013

Happy Together (Felizes Juntos/1997)

happy-together Ao som de tango, Yiu-Fai e Po-Wing bailam.

Com Happy Together, Wong Kar-Wai conseguiu o reconhecimento internacional ao concorrer a Palma de Ouro e ganhar o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. O filme é uma mistura de todos os temas já discutidos pelo diretor em filmes anteriores como Chungking Express e Days of Being Wild, porém em um arranjo autêntico, além de ter sido bem controverso para a época.

Como em quase todos os seus filmes, não existe uma história que conduza o enredo. Novamente, Wong Kar-Wai nos oferece uma jornada extasiante  construída pelo acaso. Dessa vez acompanhamos um casal homossexual tentando reconstruir a relação em um outro lugar, longe de Hong Kong. A cidade escolhida foi Buenos Aires, alimentado pelo sonho de conhecer as Cataratas do Iguaçu.

O que observamos é o amor incompleto e destrutivo que Yiu-Fai (Tony Leung Chi-Wai) nutre por Po-Wing (Leslie Cheung). Yiu-Fai, uma pessoa de caráter controlador, se ressente de Po-Wing ser uma pessoa boêmia e egoísta. Apesar do relacionamento ser fadado ao fracasso, ambos acabam, de tempo em tempo, suprimindo a desconfiança em prol da realização do sonho.

Geralmente, Wong Kar-Wai concebe múltiplos personagens principais. Porém Happy Together é uma exceção, pois o enredo do filme é claramente centrado em Yiu-Fai. A atuação de Tony Leung é surpreendente pela naturalidade com que interpreta seu único personagem homossexual de sua carreira. De emprego em emprego, seu Yiu-Fai está sempre recomeçando. O que ele não consegue é recomeçar um relacionamento. Mas quem se destaca mesmo é Leslie Cheung. Se em Days  of Being Wild, ele havia arrebatado o coração de todas as damas com seu personagem incapaz de amar. Dessa vez, ele rouba a cena com seu personagem incapaz de amar somente a um homem.

A parceria entre Wong Kar-Wai e Christopher Doyle, seu fiel diretor de fotografia, atinge uma maturidade e elegância que só seria superada em In the Mood for Love. O jogo de cores, os enquadramentos, efeitos de câmera buscam amplificar os sentimentos dos personagens, suas angústias, paixões, tristezas, etc.  Além disso, as cenas onde a cidade de Buenos Aires serve de pano de fundo são belíssimas. Uma das cenas mais belas do filme é uma tomada aérea do Obelisco de Buenos Aires em stop motion.

A escolha de Buenos Aires é mais do que justificado e extremamente ressonante com a temática do filme. O tango é um estilo recorrente nas trilhas sonoras dos filmes do diretor, e filmar na Argentina certamente foi um sonho realizado. Outro fato é a cultura liberal de tolerância e respeito aos homossexuais do povo argentino, mesmo que o diretor não abra espaço para uma discussão desse tipo. O que Happy Together realmente é uma exilariante jornada sobre amor e recomeço.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original:春光乍洩 (Chun gwong cha sit)

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Leslie Cheung Kwok-Wing, Tony Leung Chiu-Wai, Chang Chen

2 de junho de 2013

Jorney to the West–Conquering the Demons (Jornada ao Oeste-Expurgando os Demônios/2013)

journey to west História de pescador.

Jorney to the West é o primeiro filme de Stephen Chow em cinco anos. As expectativas sobre o filme não poderiam ser maiores. Apesar de Chow não estar no elenco, a sua presença na direção mais que garante o sucesso comercial. Com adiamentos da data de lançamento e um orçamento inflado, sendo o maior de todos os tempos para uma produção de Hong Kong, Journey to the West busca um lugar ao sol entre as inúmeras adaptações do livro homônimo.

Na cena de abertura somos apresentado a Xuanzhang (Wen Zhang), um caçador de demônios que segue os preceitos budistas. O nosso jovem herói tenta salvar o vilarejo do ataque. A cena é muito bem elaborada, porém peca em gastar tempo demais sem estabelecer a história do filme e os personagens principais, chegando a ser alienante. Se esperávamos uma história centrada no Macaco-Rei, o filme traz um frescor ao contar a origem do monge Tripitaka e como ele recruta seus discípulos para a jornada em busca dos sutras buditas. Porém este é somente um sub-enredo. A história central do filme foca no romance entre Xuanzhang e Miss Duan (Shu Qi), que remete a mesma temática explorada na adaptação dirigida por Jeff Lau com Stephen Chow como Joker/Macaco-Rei.

Por falar em A Chinese Odyssey, a sua trilha sonora é tão marcante que algumas composições de Jorney to the West são inspirados no filme de Jeff Lau. O momento mais inspirador certamente é da Shu Qi cantando a música Love of a Lifetime. Impossível não lembrar da cena final de A Chinese Odyssey Part II: Cinderella que encerra magistralmente a história de Joker e Zixia após uma longa jornada de amor dedicado e arrependimento irreconciliável. Ao mesmo tempo a cena é um ponto negativo para Journey to the West, apesar do casal Xuanzhang e Senhorita Duan seguirem os mesmos passos de Joker e Zixia não existe o mesmo peso emocional.

O elenco pouco estelar evidencia a crise que se passa no cinema de Hong Kong. O nome de maior apelo comercial acaba sendo o Shu Qi, uma atriz/modelo famosa mais por sua beleza do que por boas atuações. Sua atuação é totalmente inconsistente, incapaz de interpretar uma personagem durona de forte personalidade. O que é um grave problema, pois a Senhorita Duan forma o casal de personagens principais do filme. Todo o peso acaba caindo nas costas de Wen Zhang. Seu Xuanzhang funciona, no final, como um típico herói muito atrapalhado que descobre ser dono de um grande poder. Um papel que Stephen Chow teria interpretado a perfeição. Porém, o elenco não está a altura do talento de Chow. Inclusive o roteiro não colabora. Chen Bingqian e Shing Cheung-Lee interpretam respectivamente KL Hog e o demônio da água, mesmo na forma humana, o máximo que os atores tem que fazer é grunhir.

Por ser um filme de Stephen Chow é mais do que esperado cenas de comédia, porém além delas Journey to the West tem uma direção surpreendentemente sombria. Muitas mortes são chocantes criando um forte contraste com a sensação de um clima familiar na maior parte do filme. Temos uma mistura de gêneros, porém não funciona tão bem quanto em Shaolin Soccer ou King of Comedy.

O filme é uma fantasia com seres místicos e sobrenaturais, porém as escolhas de estética e figurino dos personagens são estranhas. Os demônios são retratados como seres bestiais numa modelagem mais realista, porém não ajudam a criar um ambiente fantástico. A falta de uma identidade visual própria é agravada pelo uso excessivo de computação gráfica para gerar paisagens simplesmente genéricas. Mesmo assim, tais cenas são as melhores que o cinema chinês já ofereceu, porém, anos-luz atrás de Hollywood.

Infelizmente, Jorney to the West é um dos filmes mais fracos de Stephen Chow. Há algumas cenas bem engraçadas, o que mostra que o rei da comédia não perdeu seu instinto cômico. Porém, Chow parece mostrar sinais de estar enferrujado depois de tanto tempo sem dirigir um filme. O filme tem um ritmo estranhamente cadenciado, como se não soubessem qual direção tomar. O drama e o romance não funcionam, no entanto parte da culpa reside na falta de química entre Wen Zhang e Shu Qi. As referências à Dragon Ball Z no final do filme, infelizmente, fazem um desserviço aos fãs. A imensa expectativa criada somente aumenta a decepção. É um filme que pode ser considerado bom para os padrões atuais de Hong Kong, porém mediano para os padrões do diretor.

Hong Kong feelings: 2,5/5

Título original:西遊.降魔篇 (Xi You Xiang Mo Pian)

Diretor: Stephen Chow Sing-Chi, Derek Kwok Chi-Kin

Elenco: Shu Qi, Wen Zhang, Huang Bo, Show Luo, Chrissie Chau Sau-Na, Lee Sheung-Ching, Chen Bing-Qiang, Xing Yu, Zhang Chao-Li, Cheng Sihan, Chiu Chi-Ling, Lu Zhengyu, Yang Di, Ge Xing-Yu, Fung Min-Hun, Xie Jingjing, He Wen-Hui, Tang Yi-Xin.

12 de fevereiro de 2013

Chinese Odyssey (Odisséia Chinesa/2002)

chineseodyssey Sob as pétalas de uma pessegueira Tony Leung e Faye Wong são uma só alma.

No Festival Lunar se comemora a passagem do ano novo. É tradição do cinema de Hong Kong lançar filmes de comédia romântica nesse período. Chinese Odyssey é um raro filme comercial produzido pela produtora de Wong Kar-Wai, famoso por filmes mais artísticos, em parceria com seu amigo Jeff Lau. O resultado é hilário e surpreendente.

O filme se passa em algum período da China Medieval. O princípe (Cheng Che) e a princesa (Faye Wong), cansados da vida palaciana, decidem fugir do rígido controle da Rainha (Rebecca Pan). O principe acaba sendo capturado, mas a princesa consegue fugir. Vestida como um andarilho, a princesa chega até um vilarejo onde conhece Ah Long (Tony Leung), temido pelos moradores locais, e sua irmã Phoenix (Vicki Zhao), dona de uma estalagem. A partir daí começa uma série de cenas hilárias, com diversos elementos caracaterísticos do humor chinês como, por exemplo, situações envolvendo a troca de genêros. No primeiro encontro entre a princesa e Ah Long, ela é confundida com um homem e o rapaz fará de tudo para que ela se apaixone e se case com sua irmã Phoenix.

Para os que se apaixanoram com a dupla em Chungking Express, poder rever os dois atuando juntos é mais do que especial. A química dos dois se manteve intacta durante todo esse tempo. Tantos nas cenas de comédia quanto nas cenas mais românticas, os dois mostram formidável sintonia. Temos ainda a breve participação de Roy Cheung, cujo guerreiro Liangshim é responsável por oferecer algumas entretidas lutas de artes marciais. Outra aparição especial é de Athena Chiu como a enigmática Amour Amour.

Para aproveitar 100% o filme é necessário ter assistido pelo menos um filme de Wong Kar-Wai. Tanto o produtor quanto o diretor fazem piadas de si mesmos, como as diversas cenas contendo comentários em off, recorrentes nos personagens de Wong, sobre trivialidades ao invés da instropecção. Existem também referências à A Chinese Odyssey, filme homônimo que conta a jornada do Macaco-Rei e que foi dirigido por Jeff Lau, além de muitas outras piadas relacionadas a diversas obras dos dois.

Chinese Odyssey é um típico filme de comédia romântica feita para o Festival Lunar, com seus protagonistas buscando seu amor verdadeiro em meio a situações hilárias. Porém a parte final toma um caminho completamente surpreendente, ao explorar o tema com uma profundidade incomum. O humor tolo se evapora e temos um filme único. E essa transição funciona perfeitamente, graças à comovente atuação de Tony Leung e Faye Wong.  Mesmo Wong Kar-Wai não sendo o diretor ainda temos uma dose de sua visão ímpar sobre o amor.

Muitas vezes, se uma pessoa ama exageradamente, isto se torna inebriante, Se um odeia por muito tempo, o coração se parte facilmente. Porém, a experiência mais dolorosa na vida é o de ficar esperando.

Hong Kong feelings: 4/5

Título original: 天下无双 (Tianxia Wushuang)

Diretor: Jeff Lau Chun-Wai

Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Faye Wong, Vicki Zhao Wei, Chang Chen, Rebecca Pan, Athena Chu Yun, Eric Kot Man-Fai, Ning Jing, Roy Cheung Yiu-Yeung.

7 de dezembro de 2012

As Tears Go By (Carmen de Mongkok/1988)

atgb Andy Lau e Maggie Cheung ao som de Take my breath away.

Muito antes de “ganhar” o status de auteur, Wong Kar-Wai era somente um obscuro roteirista de filmes genéricos. As Tears Go By marca a estreia de Wong Kar-Wai como diretor de um filme. E não poderia ser em outro gênero que não fosse o mais representativo do cinema de Hong Kong.

As Tears Go By é um melodrama cujo personagem central é um membro inferior da tríade interpretado por Andy Lau. Wah é uma pessoa pouco ambiciosa o que reflete em sua baixa posição hierárquica dentro da organização, apesar de ter o respeito dos chefes da tríade. Seu único subordinado é Fly (Jacky Cheung), que se mete em confusão por conta de seu pavio curto. Para piorar Fly tenta sempre provar a si mesmo que é um importante membro da tríade arrumando encrenca com o perigoso Tony (Alex Man), o que leva a Wah sempre salvá-lo das enrascadas.

Paralelamente, Wah conhece sua prima Ngor que veio da Ilha de Lantau para Mongkok consultar um médico. Ao contrário da subtrama formulaica envolvendo Wah e Fly, Wong Kar-Wai demostra seu talento para falar sobre o romance entre Ngor e Wah se utilizando de uma narrativa pouco convencional. Este filme também seja o único da filmografia de Wong onde um roteiro completo foi escrito, o que resulta em várias passagens que são um tanto quanto previsíveis. O modo de trabalho em seus próximos filmes sofreria uma mudança radical com a abolição do roteiro, somente existindo rascunhos de ideias.

Por conta do roteiro, o filme possui uma narrativa bastante linear. As Tears Go By é no fundo um filme convencional, mas nota-se algumas sementes do que se tornaria o estilo de direção de Wong Kar-Wai único. Em algumas cenas é possível observar alguns experimentos com a câmera, criando efeitos interessantíssimos. Mas não tem um impacto tão profundo na narrativa nem na experiência do filme. Também há de se considerar que o início da vindoura parceria com o diretor de fotografia Christopher Doyle ocorre somente no filme seguinte. Para quem já viu outros filmes de Wong Kar-Wai, em As Tears Go By falta um jogo de cores entre as cenas. Mas uma coisa ele já demonstrava ter um grande talento.

O talento de um diretor pode ser medido, não somente pela capacidade de extrair atuações fantásticas de grandes atores, mas principalmente pela capacidade de extrair excelentes atuações de atores limitados. E em neste filme de estreia, Wong Kar-Wai conseguiu um feito incrível. No elenco está nada menos que o astro pop Andy Lau. Posteriormente, o cantor provou ser um grande ator, mas naquela época era nada além de um ator medíocre, apesar de esforçado. A sua atuação neste filme é simplesmente fantástica, sem seus habituais maneirismos irritantes, ainda mais se comparando com os outros filmes da década de 80 estrelados por ele. Outra escolha muito feliz foi da Maggie Cheung para Ngor. Para a atriz, o filme foi um marco pessoal pois foi a partir de As Tears Go By que ela viu que levava jeito para atuar. Maggie Cheung ainda voltaria a trabalhar com Wong Kar-Wai em mais quatro filmes, se tornando a musa predileta do diretor.

Outra escolha (estranha, mas para atender a interesses comerciais dos produtores) que se mostra igualmente acertada foi a inclusão do astro pop Jacky Cheung. Assim como Andy Lau, Jacky Cheung é conhecido pelas suas atuações exageradas e muitas vezes irritante. Mas nas mãos de Wong Kar-Wai, Jacky tem uma das melhores atuações de sua carreira. O seu personagem Fly é incrivelmente carismático apesar de ser extremamente importuno. Alex Man também é outro que entrega a melhor atuação de sua carreira como o antagonista de Jacky Cheung e Andy Lau.

Em sua estreia, Wong Kar-Wai dirige seu filme mais acessível. Porém o filme sofre de um grande problema, as duas tramas do filme, apesar de serem muito boas, faltam uma coesão entre elas. Ao final parece que são duas histórias distintas mesmo Wah sendo o personagem em comum. Mesmo assim, o filme foi sucesso de crítica e público, o que foi importante para que Wong pudesse prosseguir com a carreira e para que em seus filmes seguintes se estabelecesse como um dos grandes diretores de Hong Kong.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 旺角卡門 (Wong Kok Ka Moon)

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Andy Lau Tak-Wah, Maggie Cheung man-Yuk, Jacky Cheung Hok-Yau, Alex Man Chi-Leung, Ronald Wong Ban, Kong To-Hoi, Ang Wong, Huang Pa-Ching.

18 de novembro de 2012

Love on Delivery (Amor Expresso/1994)

lodHo Kam-An aka Ultraman (Stephen Chow) encara seu desafeto (Lam Kwok-Bun)

Stephen Chow estreia na direção como codiretor. O resultado não poderia ser menos que formidável. Love on Delivery é um filme de comédia puro sendo facilmente um dos mais hilários de toda sua filmografia. É um daqueles raros filmes capazes de arrancar lágrimas de tanto gargalhar.

Ho Kam-An é um inocente entregador de dim-sum que se apaixona pela musa do clube do judô. Ho se mete em confusão atrás de confusão, sempre levando a pior. Até que um dia ele conhece Tat, Devil Killer, que se apresenta como um fodástico mestre de kung fu, porém na realidade é só um charlatão que passa a perna facilmente no herói do filme. Porém, por incrível que pareça ele se torna um invencível mestre de artes marciais, a ponto de vestir uma mascara de Garfield e proteger sua amada Lily.

A química entre Ng Man-Tat e Stephen Chow é absurdamente estupenda. Ng Man-Tat em seu papel de mentor de Ho esbanja perspicácia e malícia. Personalidade completamente oposta do seu ingênuo e dócil pupilo. Sempre que ambos dividem uma cena em qualquer filme é de se esperar algo extremamente engraçado independentemente do tipo de personagen estejam interpretando, e neste filme não é diferente. Completando a dupla, Christy Chung mostra carisma suficiente para encantar o nosso ingênuo herói e o expectador. Lily possui uma forte personalidade para se proteger das investidas do seu instrutor de judô.

Love on Delivery é uma metralhadora de gags, incluindo piadas envolvendo fantasias de Ultramen a Garfield. As cenas são uma mais engraçada que a outra. Stephen Chow adiciona mais um personagem memorável em seu vasto repertório. O seu personagem ingênuo e a sequência de gags lembra bastante os primeiros filmes de Jim Carrey, com a diferença que Chow é um ator muito mais completo.

A luta final consegue a façanha de ser a cena mais engraçada do filme, ao mesmo tempo sendo muito empolgante. O trabalho de Stephen Chow tanto como ator quanto como diretor é magnífica. O filme não se torna cansativo em nenhum momento apesar de sua quantidade infinita de gags além de ter um ritmo fluído, mesmo com sua longa duração. Para os fãs do “Deus da Comédia”, Love on Delivery é imperdível.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original: 破壞之王 (Poh Waai Ji Wong)

Diretor: Stephen Chow Sing-Chi, Lee Lik-Chee

Elenco: Stephen Chow Sing-Chi, Ng Man-Tat, Christy Chung Lai-Tai, Lam Kwok-Bun, Wong Yat-Fei, Vincent Kok Tak-Chiu, Leo Koo Ka-Kui, Joe Cheng Bo, Lee Lik-Chee, Paul Chun Pui, Gabriel “Turtle” Wong Yat-San, Leung Wing-Chung.

9 de julho de 2012

In the Mood for Love (Amor à flor da pele/2000)

inthemoodforlove Quizas, quizas, quizas: Maggie Cheung e Tony Leung.

Um olhar é mais do que capaz de despertar um sentimento. A sedução desperta o desejo. Wong Kar-Wai retoma um velho tema para produzir sua obra mais elegante. Em In the Mood for Love, a sua técnica e sua peculiar linguagem cinematográfica atinge o ápice do refinamento.

Na Hong Kong da década de 60 (mas com uma atmosfera de Shanghai), Chow Mo-Wan e sua esposa se mudam para um apartamento no mesmo dia que a senhora Chan e o seu marido mudam para o apartamento ao lado. O primeiro é um escritor de novelas enquanto a senhora Chan trabalha como secretária do dono de uma agência de viagens. Chow é interpretado por Tony Leung, que por sua atuação perfeita recebeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes. Mas quem rouba a cena mesmo é Maggie Cheung com sua magistral Sr.ª Chan. Para a personagem é muito mais difícil aceitar e lidar com o dilema numa sociedade extremamente machista.

Com os respectivos cônjuges cada vez mais ausentes, Chow e Sr.ª Chan começam a suspeitar que ambos estão se envolvendo um relacionamento extra-conjugal. A solidão que aflige a ambos também é o sentimento em comum que os fazem se aproximar. O filme todo parece ser ditado pela balada da trilha sonora que remete ao tango.

Como se fosse uma dança, sempre observamos um dos personagens se aproximando, para que num próximo momento o outro se afaste. Esses momentos de sintonia, de hesitação e até os momentos onde um deles dá um passo errado são exaltados pelo diretor. Nesse jogo de sedução tudo é subjetivo, basta observar o olhar para ver a sintonia entre as almas daqueles dois seres que se desejam. Mas como uma força oposta, nós somos lembrados incessantemente que em seus dedos anelares jaz um objeto que condenam aqueles sentimentos. Assim hesitam em dar mais um passo adiante, pois não pode haver espaço para o sentimento de vingança nessa relação que estão construindo.

Ao mesmo tempo que o filme é um ode à arte da sedução, ele é também uma lamúria aos desejos repreendidos.  Novamente, Wong Kar-Wai nos oferece um retrato ímpar do amor. Um amor incompleto, não realizado, que corrói a alma.

Ele lembra daqueles anos desaparecidos como se estivesse olhando através de um janela empoeirada. O passado é algo que ele podia ver, mas não tocar, e tudo o que ele via era borrado e indistinto.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original: 花样年华 (Fa Yeung Nin Wa)

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung Man-Yuk, Rebecca Pan, Kelly Lai Chen, Siu Ping-Lam, Roy Cheung Yiu-Yeung

8 de julho de 2012

A Chinese Ghost Story 3 (Uma história chinesa de fantasma/1991)

image_thumb2 Tony Leung sendo seduzido por uma fantasma.

A série cinematográfica Chinese Ghost Story chega ao seu terceiro e último filme. Depois de um desastroso e incompreensível segundo filme, o produtor Tsui Hark e o diretor Ching Siu-Tung tentam ainda aproveitar esse fascinante mundo criado no primeiro filme. Nesse terceiro filme, a dupla joga de forma ainda mais segura.

Na história deste terceiro filme, temos Fong como personagem principal. Ele é um aprendiz de monge e acompanha seu mestre em uma jornada para levar uma estátua de Buda até um templo. O destino faz com que os dois tenham que passar algumas noites no Templo da Orquídia. Lá, ele acaba conhecendo Lotus, uma fantasma escravizada pelo demônio da árvore. O filme se desenvolve no mesmo lugar do primeiro filme. E o enredo desemboca numa conflitante relação entre Fong e Lotus.

A história é praticamente a mesma do primeiro filme. Inclusive Joey Wong retorna para interpretar uma personagem idêntica do primeiro filme, porém não é a mesma. A grande mudança é no personagem principal. Sai de cena o coletor de impostos e entra um monge budista. No lugar de Leslie Cheung, entra Tony Leung. A troca é bem-vinda pois Tony Leung é anos-luz mais ator que Leslie Cheung, sem desmerecer o excelente trabalho do último. Mesmo Tony Leung sendo um grande ator, a química entre ele e Joey Wong não consegue superar o casal do primeiro filme.

Outro ator que retorna do segundo filme, mas para interpretar um personagem diferente também é Jackie Cheung. Com um personagem menos ridículo e mais fodão, Jackie Cheung dessa vez não fez feio com seu Yin. Apesar de aparecer bem menos, o espadachim mercenário consegue ser surpreendentemente interessante. Lau Shun interpreta o mestre de Fong e chutador de bundas demoníacas ao lado de Yin.

O resultado é zero de originalidade, mas a história do primeiro é tão boa que pouco importa se estamos assistindo a mesma coisa. O filme consegue entreter tanto quanto o primeiro filme seja nas partes de ação, fantasia, drama ou comédia. E assistir a encantadora Joey Wong nunca é demais.

Hong Kong feelings: 3/5

Título original: 倩女幽魂III 道道道 (Sien Nui Yau Wan III Do Do Do)

Diretor: Ching Siu-Tung

Elenco: Tony Leung Chi-Wah, Joey Wong Cho-Yin, Nina Li Chi, Lau Siu-Ming, Lau Shun, Tommy Wong Kwong-Leung.

1 de julho de 2012

A Chinese Ghost Story 2 (Uma história chinesa de fantasma 2/1990)

ghost2 Da esquerda para direita: Leslie Cheung, Joey Wong e Wu Ma.

Diante da boa recepção pelo público, A Chinese Ghost Story ganhou uma sequência. Os atores principais retornaram em seus respectivos papeis, exceto por Joey Wong que nesse filme interpreta uma mulher de carne e osso ao invés de uma fantasma. A fórmula do primeiro filme se manteve intacta. Mas o resultado é deveras decepcionante.

O diretor Ching Siu-Tung retorna para dirigir o filme. Encorajado pelo sucesso do filme anterior, o diretor se arrisca mais nos efeitos especiais. O resultado não podia ser mais desastroso. Era notório o esforço em esconder as limitações dos efeitos especiais, mas neste filme o diretor as escancara sem nenhum pudor. Mas esse é o menor dos males. O filme tem um ritmo letárgico, com um enredo incapaz de estabelecer qualquer lógica sobre as situações que assistimos.

Depois de perder seu grande amor, o coletor de impostos Ning Tai-Shen passa a levar uma vida nem um pouco pacata. Por uma mágica que só a ficção é capaz de fazer, ele se mete numa conspiração contra o tirano governo imperial. Os rebeldes o confundem com o líder revolucionário, dentre eles está a belíssima Windy, cuja aparência é idêntica à Nieh Hsiao-Tsing. Ning Tai-Shen passa quase que todo o filme tentando se convencer que aquela pessoa não é o seu grande amor. A história do filme beira a esquizofrenia, com o sobrenatural sendo tacado no meio da trama quando os roteiristas se lembram que o filme deveria ser uma história de fantasmas e outros seres do além.

Até as lutas parecem insossas, mas nesse ponto a culpa deve ser dividida com o ator que substitui Wu Ma no papel de caçador de fantasmas. Jacky Cheung é um ator esforçado, mas a sua escalação para o papel foi de grande infelicidade. O seu personagem Autumn não somente é o responsável pelas lutas mas é o principal alívio cômico. Jacky Cheung nem de longe consegue rivalizar em carisma com Wu Ma. Por falar neste último, ele faz uma breve aparição na parte final do filme alimentando uma esperança de salvar o filme, além dos mocinhos.

Com um roteiro extremamente fraco, as limitações dos dois atores principais ficam completamente expostas. A grande química que havia entre Leslie Cheung e Joey Wong desaparece nesse filme. Leslie Cheung troca a inocência de seu personagem pela idiotice completa. Enquanto que Joey Wong fica completamente perdida, sem saber o que fazer diante da crise de identidade que sua personagem sofre causada porque um cara no mínimo esquisito a chama por outro nome. Até Michelle Reis que interpreta a irmã de Windy consegue ter mais personalidade, mas que também não é nada demais. A adição no elenco mais interessante fica sendo Waise Lee ao interpreta um oficial do governo que se sente divido entre seguir as ordens e agir conforme o que lhe parece ser correto.

O filme consegue entreter em raros momentos, principalmente quando as cenas fazem referências ao primeiro filme. Mas o momento mais inspirado do filme é quando o personagem de Waise Lee continua a lutar mesmo depois de perder um dos braços, numa clara referência ao clássico One Armed Swordman da década de 1960. Mas nem de longe o filme conseguiu repetir o mesmo sucesso, apesar de repetir a mesma fórmula. A comédia e o romance são forçados goela abaixo do expectador. O resultado final é indigesto.

Hong Kong feelings: 2/5

Título original: 倩女幽魂II 人間道 (Sien Nui Yau Wan II Yan Gaan do)

Diretor: Ching Siu-Tung

Elenco: Leslie Cheung Kowk-Wing, Joey Wong Cho-Yin, Jacky Cheung Hok-Yau, Michelle Reis, Wu Ma, Lau Siu-Ming, Tin Kai-Man, Waise Lee Chi-Hung.

A Chinese Ghost Story (Uma história chinesa de fantasma/1987)

ghost Boo!! Leslie Cheung é um cobrador de impostos.

Filmes como Tigre e Dragão, Fong-Sai Yuk e muitos outros filmes do gênero são internacionalmente reconhecidos graças ao sucesso de um filme do final da década de 80. A Chinese Ghost Story não é uma referência no gênero por suas qualidades, que na verdade são limitadas, mas sim pela sua originalidade ao beber bastante do folclore chinês.

O filme é baseado em uma das histórias do livro Estranhos contos de um atelier chinês (聊斋志异) do escritor Pu Songling. Considerado um dos canônicos da literatura chinesa, a coletânea foi publicada no século XVIII. Os personagens dos contos vão desde seres humanos mesquinhos até espíritos moralistas. Esse aspecto satírico da obra é deixada de lado pelos produtores de A Chinese Ghost Story, que preferiram focar nas figuras folclóricas.

O resultado disso é um filme com bastante apelo comercial, ainda mais com a escolha de Leslie Cheung para interpretar o personagem principal. Apesar de Leslie Cheung ser um ator bastante limitado, sua escolha foi extremamente feliz. Interpretando um dócil coletor de impostos, Ning é extremamente ingênuo e que se torna uma presa fácil para a encantadora fantasma Nie (Joey Wong), mas ambos acabam apaixonando um por outro. A química entre Leslie e Joey é fantástica. Todas as cenas independentemente se é de drama, comédia e/ou romance funcionam com o casal.

As cenas de ação ficam a cargo de outro personagem. Yin é um monge taoísta e é interpretado pelo simpático Wu Ma. É uma pena que o personagem é mal desenvolvido com poucas informações sobre a sua vida de caçador de fantasmas, apesar de ser um dos personagens mais interessantes do filme. Quanto a ação, esta é muito bem feita inclusive com direito à cenas de computação gráfica. Porém os efeitos especiais estão completamente datados, sendo bastante injusto criticá-los dado às limitações orçamentárias e tecnológicas da época. Para esconder as limitações, o diretor preferiu usar cenários com poucas iluminação o que às vezes é incomodo. Mas a ambientação construída, repleta de monstros, espíritos, fantasmas e monges taoístas, é deveras fascinante.

A Chinese Ghost Story definitivamente oferece uma requintada experiência da mistura ímpar de comédia-ação-romance-drama do cinema Hong Kong. O filme não é excepcional em nenhum dos gêneros que fazem parte da salada, mas é bom o suficiente em todos tornando-o bastante palatável.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 倩女幽魂 (Sien Nui Yau Wan)

Diretor: Ching Siu-Tung

Elenco: Leslie Cheung Kowk-Wing, Joey Wong Cho-Yin, Wu Ma, Lau Siu-Ming, Lin Wei, David Wu Dai-Wai.

12 de junho de 2012

Needing You… (Precisando de você…/2000)

needing you Andy Lau segurando cartaz que dá o nome ao filme: “Eu preciso de você”

Dia dos namorados, nada melhor que um filme de comédia romântica para alegrar os casais e deprimir os solteiros. No entanto ficar deprimido é muito difícil com este filme, pois Needing You antes de tudo é um ótimo filme com ótimos personagens e um inteligente roteiro.

Os fãs de Johnnie To o conhecem mais pelos seus filmes de tríade como The Mission e Exiled. Em Needing You, ele retoma ao gênero do filme de sua estreia na direção. O filme também marca uma mudança na carreira do diretor. O gênero foi escolhido justamente pelo apelo comercial. Mas antes de torcemos os narizes, o filme merece uma chance pois não é de um diretor qualquer.

A começar pelo tema do filme que envolve o cotidiano de qualquer um: romance no trabalho e as fofocas. O diretor escalou a estrela pop Sammi Cheng para interpretar Kinki, uma mulher que acabou de descobrir a traição do namorado. Ela também enfrenta dificuldades na sua vida profissional, pois recentemente se transferiu de setor na empresa de eletrônicos onde trabalha. Seu novo chefe é Wah-Siu que a acha uma péssima empregada mas acaba se comovendo ao descobrir sua situação pessoal e tenta ajudá-la a resolver a situação com Dan, o namorado. Porém Wah-Siu, interpretado por Andy Lau, é um mulherengo e logo as fofocas começam a se reproduzirem. Uma ex-affair de Wah-Siu ao ficar sabendo das fofocas tenta cortar a relação dos dois, porém o tiro acaba saindo pela culatra.

Um das grandes habilidades de Johnnie To é filmar gestões e ações que valem mais que mil diálogos. Se em seus filmes de ação as emoções fluem com uma incrível naturalidade, isso também se faz presente nas cenas de romance e de humor de Needing You. A fofoca se espalhando pelos dutos do ar-condicionado é uma das sacadas mais geniais do filme. É incomum um filme desse gênero ter um humor inteligente, apesar de que na parte final o filme começa a ficar bobo quando se vê obrigado a ceder aos clichês.

Ao trazer elementos novos para o gênero de comédia romântica, o filme se destaca em todos os aspectos. Mas de modo algum Johnnie To tenta revolucionar o gênero cujos temas foram explorados e reciclados a exaustão pelo cinema mundial. É impossível não cair no clichê, mas o filme possui cativantes personagens e uma história interessante capazes de agradar solteiros e casais.

Hong Kong feelings: 4,5/5 

Título original: 孤男寡女 (Goo nam gwa neui)

Diretor: Johnnie To Kei-Fung, Wai Ka-Fai

Elenco: Andy Lau Tak-Wah, Sammi Cheng Sau-Man, Fiona Leung Ngai-Ling, Raymond Wong Ho-Yin, Hui Siu-Hung, Lam Suet, Gabriel Morrison, Florence Kwok Siu-Man.

8 de abril de 2012

A Chinese Odyssey Part 2: Cinderella (Odisseia Chinesa Parte 2: Cinderela/1995)

acoc Hail to the king, baby!

A segunda da parte da odisseia chinesa traz o fim da jornada do Macaco-Rei em busca de redenção. Pode-se dizer que nessa parte é onde a jornada realmente começa. O filme se esforça em consertar os erros do anterior e reforçar os pontos positivos. A comédia não mais dita o ritmo do filme, abrindo espaço para uma história centrada nos elementos budistas da obra.

O filme começa do ponto onde o anterior terminou. Continuando a aventura, Joker usa a Caixa de Pandora e volta 500 atrás onde tudo começou. Ele encontra com o seu destino. O começo é um tanto arrastado, mas bem menos enrolado que o antecessor, com o roteiro sendo desenvolvido de forma lenta. O filme ganha momento quando Joker encontra o seu mestre, o Monge da Longevidade. Law Kar-Ying consegue ser irritantemente hilário, transmitindo bem a capacidade do seu personagem de levar os outros à loucura. A partir desse ponto até a parte final do filme, a escalada é épica.

O roteiro tem alguns problemas, pois algumas informações sobre os personagens ficam faltando. As motivações de Zixia em abandonar o seu posto de Imortal, dentro do universo do filme um ser que atingiu o Nirvana, para buscar um amor carnal não são explicadas em momento nenhum. Zixia deveria servir de contraponto ao Macaco-Rei, pois enquanto um tenta voltar ao Reino Celestial o outro decide abandonar. Outros personagens também sofrem com uma vaga introdução de quem são, sendo necessário conhecê-los previamente de outras adaptações ou do livro original.

No primeiro filme, a rusga entre o Macaco-Rei e Ping Ping foi construída de maneira implícita uma vez que os acontecimentos eram de 500 anos atrás. No segundo filme, fica claro que o personagem de Chow era um mulherengo. Tal elemento é mal explorado, pois o foco é no triângulo amoroso envolvendo Ping Ping, Zixia e Joker. Mas a recusa do diretor em prover motivações, quando revela é de forma indireta, aliena o expectador sobre o porque das escolhas e preferências de Joker. Inclusive, Karen Mok que foi o grande destaque do primeiro filme, só faz uma breve aparição neste apesar de ser o grande motivo por detrás das ações de Joker.

Ainda sim o talento de Anthena Chu e Stephen Chow sustentam o filme, com o romance de Zixia e Joker rivalizando com o de Ping Ping e Joker no primeiro filme. Apesar de sua delicada fisionomia causar indiferença em um primeiro momento, a atriz consegue cativar o expectador com uma excelente atuação. Mas ela não chega a eclipsar o personagem principal, como aconteceu no filme anterior. Pelo contrário, Stephen Chow é o centro das atenções sem sombra de dúvidas. Seu Joker é um personagem mais completo com seus inúmeros dilemas. Mas o ápice da atuação é quando ele se transforma no Macaco-Rei. Chow encarna a figura folclórica com grande paixão. O ator literalmente desaparece na pesada maquiagem dando vida ao personagem mais fascinante do filme. O trejeito, tom de voz, maneirismo, ele construiu uma versão definitiva do Macaco-Rei.

O personagem extrai ainda mais do talento de Chow quando este tem que lidar de forma definitiva os dilemas que o atormentam. Méritos também para o diretor Jeff Lau. Nessa segunda parte fica claro que a decisão dos produtores em dividir em dois filmes por questões mercadológicas prejudicou o trabalho de edição do diretor. Os pontos baixos do filme certamente não são ruins. Os aspectos técnicos são ótimos dentro das limitações orçamentárias e tecnológicas.

Apesar de ter cenas engraçadíssimas, o filme se destaca pelos momentos de romance e drama. As cenas de luta também agradarão os fãs de artes marciais. Stephen Chow oferece uma das melhores atuações de sua carreira, se não a melhor. É triste que Macaco-Rei tenha aparecido em sua forma plena somente nos momentos finais do filme, poucos minutos para um personagem tão memorável. A imersão de Chow dentro do personagem é comparável ao trabalho de Heath Legder com o seu psicótico Coringa em Cavaleiro das Trevas. A Odisseia Chinesa é um clássico do cinema de Hong Kong.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título original: 西遊記 II 仙履奇緣

Diretor: Jeff Lau

Elenco: Stephen Chow Sing-Chi, Ng Man-Tat, Athena Chu Yun, Ada Choi Siu-Fun, Yammie Nam Kit-Ying, Karen Mok Man-Wai, Kong Yeuk, Luk Su-Ming, Ng Yuk-Kan, Jeff Lau Chun-Wai, Law Kar-Ying.

31 de março de 2012

A Chinese Odyssey Part 1: Pandora Box (Odisséia Chinesa Parte 1: A Caixa de Pandora/1995)

copbOs súditos saúdam a volta do Rei!

‘Jornada ao Oeste’ é um dos grandes clássicos da literatura chinesa. No livro o monge budista Xuanzang junto com seus discípulos (o Macaco-Rei, o Porco, o Monge Shaolin e o Príncipe Dragão) partem para o oeste em busca dos sutras, escrituras sagradas budistas. Durante a jornada monstros, fantasmas e demônios tentam devorar Xuanzang, pois sua carne pode garantir a imortalidade para quem a consumir. A obra influenciou profundamente o folclore chinês. Dentre as inúmeras adaptações nas mais variadas mídias, a mais famosa adaptação é a animação japonesa Dragon Ball. Este filme, dirigido por Jeff Lau, tal qual a animação japonesa é levemente baseada na obra original.

Na história do filme o Macaco-Rei é sucumbido pelo mal e tenta devorar o seu próprio mestre com o objetivo de se tornar imortal. A Deusa da Misericórdia tenta matar o Macaco-Rei, porém o compassivo monge intervém e troca a sua vida pelo do seu discípulo. O Macaco-Rei é então banido do reino celestial para reencarnar na forma humana. O prólogo tem um clima épico, tanto que a história foi dividida em duas partes. Nesta primeira parte, duas irmãs demoníacas procuram pelo Monge da Longevidade no local onde o Macaco-Rei reencarnou 500 anos depois do prólogo. Lá encontram  Joker, líder de um bando de bandidos e um zero a esquerda nas horas vagas.

Stephen Chow interpreta Joker mostrando ser, desde o início de sua carreira, um ator com bastante potencial para papéis mais “sérios”. O diretor Jeff Lau consegue extrair o melhor de Chow como ator e também como comediante. É até redundante, mas a química entre Ng Man Tat e Stephen Chow é estupenda. Até em momentos cuja atuação é mais sóbria, quando os dois estão dividindo a mesma cena eles são capazes de arrancar gargalhadas genuínas.

No entanto, quem oferece a melhor atuação é a Karen Mok. Com uma incrível naturalidade, ela dá conta do turbilhão de emoções que assola a sua personagem Jing Jing, conhecida pela alcunha demônio do Osso Branco. Do sadismo inerente a natureza da sua personagem até a desilusão amorosa que comove o espectador, ela ainda consegue ajudar a elevar o nível de interpretação dos seus companheiros de cena. Uma das mais beneficiadas do talento da Karen Mok, é a Yammie Nam Kit-Ying, que interpreta a irmã, também demoníaca, da Osso Branco.

Apesar das cenas de comédia, ação e drama funcionarem bem, o filme tem um ritmo inconsistente. Por mais que as cenas de comédia sejam muito engraçadas, dignas da filmografia de Chow, o filme acaba sendo repetitivo e até cansativo. Problema causado pelo enredo, que só toma uma direção ao final do filme quando prepara a história para a segunda parte.

Essa primeira parte funciona como uma longa introdução antes do início da jornada de redenção do Macaco-Rei. A sequência final é uma das mais inventivas viagens ao tempo. O filme é divertido, apesar de se seus altos e baixos. A sua grande falha é a incapacidade de criar expectativa para a segunda parte.

Hong Kong Feelings: 3,5/5

Título original: 西遊記 I 月光寶盒

Diretor: Jeff Lau

Elenco: Stephen Chow Sing-Chi, Ng Man-Tat,Yammie Nam Kit-Ying, Karen Mok Man-Wai, Kong Yeuk, Luk Su-Ming, Ng Yuk-Kan, Jeff Lau Chun-Wai, Law Kar-Ying.

22 de setembro de 2011

Chungking Express (Amores Expressos/1994)

chungking Faye Wong observa Tony Leung tomando café.

Wong Kar Wai é um diretor diferente. Com um estilo de filmagem único ele conta histórias de forma única. Dentre a sua pequena mas notória filmografia, Chungking Express talvez seja sua obra-prima. Em questão de técnica de filmagem há experimentalismos que serão refinados até o seu ápice em obras posteriores. Em outras o tema será explorado de forma mais profunda. Mas esta é sua obra mais vibrante.

O filme conta duas histórias que se assemelham na temática e se contrastam no desenvolvimento. Ambos tem como personagens masculinos policiais, que são identificados pelos seus números. Na primeira história, Takeshi Kaneshiro é o policial 223 enquanto que Tony Leung é o policial 663. Em ambas as histórias, os policiais tentam lidar com a perda amorosa, cada de um jeito, que apesar de estranho pode parecer familiar. Também em ambas, uma mulher de personalidade peculiar cruza o caminho de cada policial.

Brigitte Lin interpreta uma mulher que usa uma peruca loira e sempre anda com óculos escuros na primeira história. Sua personagem é uma traficante de drogas que foi trapaceada numa negociação. Misteriosa e sexy, a sua personagem é durona por conta do ambiente de trabalho, mas que com tanta insistência do personagem de Takeshi Kaneshiro por um breve momento mostra que é capaz de amar também. Já Faye Wong simplesmente rouba a cena com sua espontânea e deliciosa interpretação na segunda história. Em sua estreia como atriz, Faye Wong interpreta uma garçonete que se apaixona pelo personagem de Tony Leung e que fará o imaginável e inimaginável para chamar a atenção do policial.

As cenas vão se desenrolando através das próprias situações contidas nelas, não há um fio de enredo que as conecte. Mas o resultado é longe de ser um filme sem sentido. Os personagens vão se levando pela emoção, mas que num primeiro recusam aceitar essas emoções. O ambiente urbano insípido parece ter uma forte influência nos personagens, mas ao mesmo tempo Wong Kar-Wai consegue captar uma Hong Kong noturna frenética e caótica.

O filme transcende a linguagem cinemática comum através de efeitos da câmera e outras técnicas de filmagem; as músicas e cores também tem participação ativa na narração criando cenas com um clima único. Mas o que realmente torna Chungking Express tão genuíno é a conexão que este estabelece com o espectador. Quem nunca teve que lidar com a perda de um amor? No final das contas, a experiência é bem intimista e dependerá de cada um amar ou odiar o filme.

Chungking Express foi filmado durante o intervalo das gravações de seu épico de artes marciais Ashes of Time, foram em torno de 20 dias de filmagem para relaxar.

“O importante não é o destino, mas o percurso.”

Hong Kong feelings: 5/5

Título original: 重慶森林 (Chung Hing Sam Lam)

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Brigitte Lin Ching-Hsia, Tony Leung Chiu-Wai, Faye Wong, Takeshi Kaneshiro, Valerie Chow Kar-Ling