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2 de março de 2014

Born to be King (Jovens e Perigosos 6/2000)

borntobekings Hail to the kings!

Young and Dangerous se tornou um fenômeno da cultura pop local. Todos os filmes da série foram sucesso de bilheteria, o que rendeu no total seis filmes e quatro spin-offs ao longo de quatro anos. Born to be King foi produzido com o desafio de trazer um final satisfatório para a série Young and Dangerous.

Filmes como A Better Tomorrow, de John Woo, e City on Fire, de Ringo Lam, transformaram os filmes de tríade no gênero mais importante da indústria na década de 80. No início da década de 90, houve uma saturação do gênero devido ao excesso de filmes de baixa qualidade lançados. A ascenção de Stephen Chow como o rei da comédia também colaborou para o seu declínio.

Apesar de estar a anos-luz dos filmes de John Woo, os filmes foram produzidos com o objetivo de serem entretenimento puro para uma audiência mais jovem. Porém Young and Dangerous foi responsável por popularizar esse gênero em decadência. Mais do que isso transformou duas jovens estrelas em mega astros.

Ekin Cheng e Jordan Chan se transformaram em queridinhos pela mídia de Hong Kong. A parceria entre os dois sempre foi o ponto alto de Young and dangerous. E neste sexto filme não é diferente. Chicken foi planejado para ser somente um personagem coadjuvante. Porém a popularidade do personagem foi tamanha que a cada filme, ele ganhava mais em importância.

Neste filme, a história é claramente focada no personagem de Jordan Chan. Chicken é nomeado para ser líder da Sociedade San Suen em Taiwan, porém existe uma rejeição por conta de seus laços com a Sociedade Hung Hing, que tem Ho-Nam como seu novo líder. No meio de tudo isso, Chicken e Ho-Nam acabam sendo envolvidos nas disputas internas de uma Yakuza. Roy Cheung retorna para interpretar mais uma vez um vilão, dessa vez interpreta o braço direito do clã Yamada.

Born to be King se esforça em ser um filme de tríade, com uma história intrincada sobre disputa de poder entre as máfias orientais. O filme claramente tenta ser um filme de tríades, investido menos no melodrama e mais nos personagens. No fim cumpre com seu papel de ser um filme pipoca.  Sendo o último filme da série, Born to be King encerra satisfatoriamente as aventuras de Ho-Nam e Chicken. E de quebra consegue ser o melhor filme da série.

Hong Kong feelings: 4/5

Título original: 勝者為王 (Sheng Zhe Wei Wang)

Diretor: Andrew Lau Wai-Keung

Elenco: Ekin Cheng Yi-Kin, Jordan Chan Siu-Chun, Shu Qi, Gigi Lai, Sonny Chiba, Peter Ho Yun-Tung Jerry Lamb Hiu-Fung, Chin Kar-Lok, Jason Chu Wing-Tong, Michael Tse Tin-Wah, Roy Cheung Yiu-Yeung, Sandra Ng Kwun-Yu, Wan Yeung-Ming, Blacky Ko Sau-Leung, Spencer Lam Seung-Yi, Chan Chung-Yung, King Shih-Chieh, Anya, Alex Man Chi-Leung.

8 de outubro de 2013

Punished (Hora da Vingança/2011)

punished Chor (esq.) e Chiu (dir.) tentam encontrar Daisy a qualquer custo

Wong Ho-Chiu é um magnata de Hong Kong que tem uma relação conturbada com sua filha, uma usuária de drogas. Eventualmente ela é sequestrada, porém o pai suspeita que a filha armou o próprio sequestro para conseguir dinheiro para financiar o seu vício. Com a ajuda do leal guarda-costa Chor, Wong tentará descobrir os responsáveis pelo sequestro.

Punished chama a atenção por ser produzido pela Milkaway, produtora do lendário diretor Johnnie To, e pela presença do genial Anthony Wong no papel principal. Porém, mesmo com pessoas renomadas envolvidas no filme, Punished falha em todos os aspectos.

A começar pela história. Mais genérico do que isso impossível. Para contornar essa limitação era de se esperar personagens interessantes e uma narrativa no melhor estilo de PTU. Porém temos personagens problemáticos e uma narrativa desinteressante. Wong Ho-Chiu (Anthony Wong) é o pai ausente que se preocupa mais com os negócios que com o vício da filha Daisy (Janice Man). Já ela é tão mimada e irremediável que é difícil simpatizar com a personagem.

O que poderia salvar o filme é a relação de lealdade que o guarda-costa Chor (Richie Ren) tem com o seu patrão Chiu. Porém não há nada de especial nas interpretações de Anthony Wong e Richie Ren. Para finalizar a galeria de péssimos personagens temos o vilão Law (Lam Li) cujas ações são tão desprovidas de humanidade por simples necessidade do roteiro de ter alguém mais detestável que Daisy, tornando-a mais simpática ao público.

Em seu quinto filme como diretor principal, Law Wing se mostra um diretor medíocre. Um dos maiores problemas do filme é a falta do estilo cinematográfico que marca as produções da Milkaway. Law Wing abusa dos flashbacks que pouco ajudam no desenvolvimento da trama e só piora o ritmo já arrastado do filme. Qualquer tentativa de criar suspense acaba falhando, seja pela desconexa narrativa seja pela trama simplória. Com um roteiro tão fraco, o diretor acaba apelando para o melodrama na segunda metade do filme.

Apesar de toda a grife, Punished é genérico parecendo mais uma produção estadunidense direto para o mercado de DVD. Todo o suspense da trama se esvazia com o abuso dos flashbacks. Apesar da tentativa de explorar com maior profundidade a relação conflituosa entre pai e filha, o filme fracassa ao transformar em um banal melodrama. Punished é certamente um dos filmes mais fracos já produzidos pela Milkaway.

Hong Kong feelings: 1,5/5

Título original: 報應 (Bou Ying)

Diretor: Law Wing-Cheong

Elenco: Anthony Wong Chau-Sang, Richie Ren, Maggie Cheung Ho-Yee, Janice Man, Lam Li,Candy Lo Hau-Yam, Jun Kung, Charlie Cho Cha-Lei, Elena Kong Mei-Yi, Samuel Leung Cheuk-Moon

5 de outubro de 2013

Running on Karma (O Ciclo do Carma/2003)

runningonkarma Biggie (Andy Lau) e Yee (Cecilia Cheung) unidos pelo carma.

A primeira vista Running on Karma é mais uma comédia romântica de Johnnie To feita para as massas. Nas próprias palavras do diretor, filmes comerciais como Loving on Diet e Needing You são necessários para financiar projetos pessoais como The Mission e Sparrow. O par principal é estrelado pelos astros Andy Lau e Cecília Cheung. Porém a adição de Wai Ka-Fai como codiretor torna o filme uma grata surpresa que subverte completamente as expectativas.

Andy Lau é Biggie, um go go boy que faz a alegria da mulherada com seu corpo de fisiculturista. Em uma batida policial, ele acaba conhecendo a policial novata Yee interpretada pela Cecilia Cheung. Biggie sabe que uma morte terrível aguarda Yee, pois ele tem o dom de ver o carma de qualquer ser vivo. A história fica ainda mais estranha quando sabemos que antes Biggie era um monge budista, mas que abandona o seu mosteiro depois de um trágico incidente.

Os dois acabam se aproximando, e Biggie passa a questionar se é justo uma pessoa tão bondosa e inocente quanto Yee merecer um destino tão terrível por conta das atrocidades cometidas pela sua vida egressa. Contra os princípios budistas ele tenta ajudá-la a pegar um impiedoso assassino na esperança de que seja possível reverter o carma.

A trama se desenvolve entrelaçada a uma enorme mistura de gêneros. Do suspense sobre o passado de Biggie e o futuro de Yee aos elementos de ação e comédia, Running on Karma é soberbo em todos os gêneros que transita. As cenas de ação remetem aos filmes de kung fu de época fantásticos, onde Biggie escala paredes e dá saltos sobrehumanos em uma cidade moderna ao invés de uma vila medieval. O resultado é extremamente cartunesco, mas que graças a excelente coreografia fica longe de ser ridículo.

Até o final do segundo ato, temos um filme extremamente divertido e inteligente que mescla perfeitamente cenas humoradas e de ação com uma trama sobre redenção. Porém o grande trunfo do filme é que uma vez engajados emocionalmente com os dois personagens principais, no terceiro ato o filme se torna sombrio e se revela, na verdade, como um profundo drama moralista sobre autoconhecimento. Porém a falta de conhecimento prévio sobre a filosofia budista pode acabar gerando confusão nesse ponto. O carma é um dos conceitos budistas mais complicados de compreender com diversas definições e interpretações. Mas o roteiro de Wai Ka-Fai oferece uma excelente explicação que se infunde perfeitamente a narrativa.

Running on Karma é uma peculiar mistura de gêneros que desobedece quase todas as regras relacionadas a como fazer um filme pipoca, e ainda sim sucede de forma espetacular. As atuações de Andy Lau e Cecilia Cheung são excelentes. O primeiro consegue retratar muito bem o cara que tenta fazer a coisa certa mas incapaz de compreender o que é o certo. Já Cecilia Leung transmite uma doçura e inocência que nenhuma outra atriz de Hong Kong é capaz. A narrativa fluída de Johnnie To e o rico roteiro de Wai Ka-Fai, fazem do filme o melhor da parceria desses dois gênios do cinema de Hong Kong.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original: 大隻佬 (Daai zek lou)

Diretores: Johnnie To Kei-Fung e Wai Ka-Fai

Elenco: Andy Lau Tak-Wah, Cecilia Cheung Pak-Chi, Eddie Cheung Siu-Fai, Karen Tong Bo-Yu, Chun Wong, Yuen Bun.

24 de setembro de 2013

Magic Cop (Detetive Espiritual/1989)

magicops  “A verdade está lá fora”

Uncle Feng é um policial especializado em casos sobrenaturais. Ele aparece para solucionar uma série de assassinatos misteriosos em Hong Kong. Feng ao usar suas técnicas taoístas descobre que alguém está transformando os mortos em vampiros e usando-os como mulas para transportar drogas. Ao longo do filme ele terá a ajuda do cético sargento Lam.

A trama do filme poderia ser perfeitamente uma descarada mistura entre Arquivo X e A Chinese Ghost Story. Ao manter o tom da narrativa leve, Magic Cop perde uma oportunidade de explorar melhor o ceticismo do sargento Lam, além de não ser capaz de criar a tensão necessária para que o filme funcione plenamente.

A tentativa de ser mais comédia e menos suspense acaba atrapalhando os atores também. O personagem de Wilsom Lam ao não ter uma abordagem mais séria, acaba quebrando um pouco o fantasioso. Sua interpretação acaba sendo razoável. Já Uncle Feng parece ter sido transportado direto de A Chinese Ghost Story com suas técnicas taoístas expurgar os espíritos malignos, além de um kung fu apurado. Porém a atuação Lam Ching-Ying também não consegue criar o contraste necessário para que as diferentes crenças ente Feng e Lam seja interessante ou pelo menos engraçada.

Magic Cop marca a estreia de Stephen Tung na direção. Como ator, ele tem várias participações medíocres. Porém, Tung tem uma carreira destacada como diretor assistente de ação. Em seu currículo estão filmes como A Better Tomorrow e As Tears Go By. As melhoras partes do filme são exatamente as cenas de ação.

A produção toda parece um filme B, porém não é. A trama sobrenatural, a produção de baixo orçamento, elenco pouco estelar remetem a um filme de B. Ao invés de investir no gore, o diretor preferiu investir em comédia. O resultado é um filme incapaz de se destacar em nenhum gênero que o compõe. No fim, Magic Cop acaba divertindo pela sua temática taoísta e pelas cenas de ação bem executadas.

Hong Kong feelings: 3/5

Título original: 驱魔警察 (Qu Mo Jing Cha)

Diretor: Stephen Tung Wai

Elenco: Lam Ching-Ying, Wilson Lam Chun-Yin,Miu Kiu-Wai, Wong Mei-Wah, Michiko Nishiwaka, Wu Ma, Billy Chow Bei-Lei, Chan Chi-Leung, Wong Yuk-Hang, Sung Yat-Lin

24 de agosto de 2013

Overheard 2 (Overheard 2–Nos Bastidores do Poder/2011)

hkp_overheard2_03  Déjà vu: Daniel Wu (dir.) e Louis Koo (esq.) reencenam passagem de Infernal Affairs

Overheard foi um sucesso comercial e recebeu várias críticas positivas. Para essa sequência, a dupla de diretores Alan Mak e Felix Chong retornam na direção. O trio de atores principais Louis Koo, Lau Ching-Wan e Daniel Wu também retornaram para a franquia. Overheard 2 é uma sequência só no nome, pois a história e os personagens são novos.

No primeiro filme, acompanhamos um suspense sobre três policiais que durante o trabalho tinham em mãos informações privilegiadas e que poderiam obter uma fortuna com essas. Cada um tinha suas motivações para usar aquelas informações, porém havia um preço bem caro a pagar. Porém desta vez, o trio de personagens estão em lados diferentes.

A história do filme é centrada em um grupo de empresários que manipulam a bolsa de valores de Hong Kong conhecido como Landlord Club. Lau Ching-Wan é Manson Law, um dos integrantes desse misterioso clube. Ficamos sabendo que originalmente o clube foi fundado com o objetivo de impedir que grupos estrangeiros lucrassem de forma parasitárias os empresários locais. Porém, o policial Jack Ho investiga Manson Law com o objetivo de obter mais informações sobre as operações ilegais do grupo, mesmo que não tenha provas de sua existência. Em meio a esse conflito, aparece Joe espionando Manson. A princípio suas intenções não são claras, mas a medida que o filme evolui seu personagem se torna central na trama.

Lau Ching-Wan, Louis Koo e Daniel Wu novamente oferecem sólidas atuações. A dinâmica antagônica entre o trio é interessante. Sempre estamos nos perguntando quais são as reais motivações de cada um. Já o vilão deste filme é bem mais interessante e bem melhor interpretado que o de Michael Wong. Kenneth Tsang interpreta muito bem o líder do Landlord Club. Tony é um personagem embriagado pelo poder e pela ganância. Esse pano de fundo relacionado ao mercado financeiro acaba sendo interessante, principalmente com a crise de 2008 ainda bem recente na memória. Mesmo intercalando cenas de perseguição automobilísticas, o filme demora a engrenar. O meio do filme acaba sendo arrastado demais, com muitos diálogos expositivos na tentativa de construir o suspense acerca da intrincada história.

Se o primeiro filme já se parecia muito com uma produção hollywoodiana, a sequência dá um passo a frente nessa direção ao incluir cenas de perseguição dignas do cinema yankee. Novamente o tom cinza impera na narrativa do filme, exceto pelo final quando os personagens são divididos em mocinhos e vilões. Sem problemas com a censura chinesa, Overheard 2 consegue concertar alguns problemas do primeiro filme, principalmente oferecendo uma cena final que não fosse ridículo mesmo sendo politicamente correta. Nessa sequência os diálogos não são tão afiados, porém o filme mantem as boas atuações e uma boa história de suspense.

Hong Kong feelings: 4/5

Título Original: 竊聽風雲2

Diretor: Alan Mak Siu-Fai, Felix Chong Man-Keung

Elenco: Louis Koo Tin-Lok, Lau Ching-Wan, Daniel Wu, Huang Yi, Michelle Ye, Kenneth Tsang Kong,Wu Fung, Lisa Chiao Chiao, Matthew Chow Hoi-Kwong, Wilfred Lau Ho-Lung,Joman Chiang Cho-Man, Kong Ngai, Felix Lok Ying-Kwan, Samuel Kwok Fung, Ben Yuen Fu-Wah, Dion Lam Dik-On, Alex Fong Chung-Sun

26 de junho de 2013

Sparrow (Sparrow/2008)

sparrow

Na cena que abre Sparrow acompanhamos o grupo de batedores de carteira liderado pelo charmoso Kei. Toda a ação do bando é executada com uma sincronia perfeita e uma precisão absurdamente linda . Com uma cena tão simples, Johnnie To já dita o tom divertido do filme e estabelece aqueles personagens.

No seu tempo livre, Kei aproveita para curtir seu hobby de tirar fotos com uma antiga câmera. Porém uma misteriosa mulher cruza o seu caminho, chamando sua atenção. Mas não é somente ele quem ela enfeitiça com seu charme. Por um motivo inicialmente desconhecido, ela também aborda os outros membros do grupo com o mesmo modus operandi.

Apesar da trama ter vários furos, o filme não exige esforço para entender e acompanhar o enredo. Mesmo que a atitude de alguns personagens não faça muito sentido, o que o filme te exige é saber desfrutar uma narrativa divertida e inteligente. Temas caros ao diretor, como companheirismo e honra, são apresentados, porém não são discutidos.

Esta é a obra mais pessoal do diretor. As cenas foram sendo filmadas ao longo de três anos, quase que uma obra indie e com os atores filmando e refilmando cenas a medida que Johnnie To montava o filme entre um trabalho e outro.

Mesmo com uma forte influência do cinema europeu, Johnnie To mantém sua marca registrada. A trilha sonora, que mistura blues e jazz com um toque oriental, é uma das mais fantásticas e envolventes da filmografia de To. A cena final meticuloso, complexo, belo e caótico é uma homenagem ao musical francês Umbrellas of Cherbourg.

Ademais, as atuações são fantásticas, como sempre o uso de diálogos são mínimos. Rostos conhecidos como o de Simon Yam, Lam Suet, Gordon Lam, Lo-Hoi Pang oferecem atuações simplesmente deliciosas. Mas quem realmente se destaca e surpreende é Kelly Lin. A atriz taiwanesa consegue ser mais do que um colírio para os olhos, sua atuação é imprescindível para que o filme todo funcione.

O filme é uma verdadeira carta de amor de Johnnie To à Hong Kong. Cada quadro é filmado com uma beleza e esmero ímpar. A escolha de filmar em áreas onde ainda se mantém uma arquitetura tradicional dá uma atmosfera completamente diferente da metrópole frenética conhecida pelo mundo inteiro. Sparrow é um delicioso sorbet para qualquer fã do diretor saborear.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título Original: 文雀 (Mah Jeuk)

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Simon Yam Tat-Wah, Kelly Lin, Gordon Lam Ka-Tung, Law Wing-Cheong, Kenneth Cheung, Lo Hoi-Pang, Lam Suet

29 de abril de 2013

Organized Crime And Triad Bureau (OCTB/1994)

octb Cindy (Cecília Yip) e Tung (Anthony Wong)

O chefe da divisão contra crime organizado e tríades da polícia de Hong Kong (em inglês Organized Crime and Triad Bureau) fará de tudo para prender o líder de uma tríade especializado em assaltos a joalherias. Para capturá-lo, Inspetor Lee desafiará os limites da lei. Então começa uma caçada que se torna cada vez mais pessoal.

Em filmes do gênero policial/tríade, usualmente temos um inescrupuloso chefe da tríade que adora matar inimigos de várias formas criativas e que vive cercado de belas mulheres. Do outro lado, temos o policial mocinho que trabalhará dia e noite para capturar o vilão. O roteiro de OCTB contém todos esses elementos, porém com algumas modificações. O mocinho não é tão mocinho, nem o vilão é tão vilão.

O senso de justiça do Inspetor Lee é totalmente questionável, porém sua paixão pela profissão consegue de alguma forma cativar compensando suas ações. A interpretação de Danny Lee é muito boa, mesmo sendo impossível odiar ou adorar seu personagem policial. Do outro lado, Anthony Wong mostra ser um dos atores mais talentosos do cinema de Hong Kong. Não há ninguém melhor para interpretar personagens ambíguos como ele. A sua atuação neste filme não é de longe a melhor de sua carreira, mas é impossível não simpatizarmos com Tung e não torcer para que ele consiga fugir do obcecado inspetor.

Da dupla de atores principais não se poderia esperar menos que uma boa atuação. Apesar dos antagonistas serem o centro das atenções quem surpreende mesmo é Cecília Yip. A atriz interpreta Cindy, amante de Tung e cúmplice nas atividades criminosas do amado. A medida que a história avança compreendemos a lealdade e o amor que Cindy nutre pelo chefe de tríade. A química entre os dois é excelente e é um dos pontos mais interessantes do filme.

Organized Crime and Triad Bureau tem uma boa história, sólidas atuações, porém falha em sua execução. O filme demora para atingir seu clímax. O tiroteio que encerra o filme é pífio, mesmo descontando o fato que Kirk Wong não tem a mesma capacidade técnica em filmar cenas de tiroteio como seu contemporâneo John Woo. Apesar disso a cena final encerra satisfatoriamente a história.

Kirk Wong foi mais um que entrou para a lista de diretores hong kongneses formada por nomes como John Woo, Tsui Hark e Ringo Lam que migraram para Hollywood. Inclusive o seu estilo de direção se assemelha ao do último. No entanto o diretor está vários degraus abaixo da santa trindade de diretores da década de 80. Mas isso não impediu de Hollywood contratá-lo para dirigir Tiro e Queda (1998), estrelado por Mark Wahlberg.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original:重案實錄O記 (Chung Ngon Sat Luk O Gei)

Diretor: Kirk Wong Chi-Keung

Elenco: Danny Lee Sau-Yin, Anthony Wong Chau-Sang, Cecilia Yip Tung, Roy Cheung Yiu-Yeung, Parkman Wong Pak-Man, Elizabeth Lee Mei-Fung, Fan Siu-Wong, Michael Lam Wai-Leung.

3 de dezembro de 2012

Overheard (Overheard–Informações Sigilosas/2009)

overheard Daniel Wu  (esquerda), Lau Ching-Wan (centro) e Louis Koo (direita)

Dos aclamados diretores da trilogia Infernal Affairs, Alan Mak e Felix Chong retomam a parceria para mais um filme de suspense envolvendo policiais, mas que neste filme enfrentam criminosos de colarinho branco. Com uma dupla renomada de diretores e um elenco respeitável, a enorme expectativa criada sobre Overheard é mais do que justificado.

O resultado é filme comercial sólido, com boas atuações e uma narrativa com poucos tropeços. O filme colheu críticas boas em geral e foi um sucesso de público. Alan Mak e Felix Chong entregam um filme que consegue entreter com bastante tensão e algumas surpresas. Porém não espere por um novo Infernal Affairs, apesar de guardar alguns resquícios do filme mais sucedido da dupla.

A história de Overheard gira em torno de três policiais do Departamento de Crimes Comerciais (CCB) da Polícia de Hong Kong. O trabalho de Johnny (Lau Ching-Wan), Gene (Louis Koo) e Max (Daniel Wu) é de espionar a empresa E&T suspeita de manipular suas próprias ações na bolsa de valores e de outros esquemas ilegais. As câmeras e os microfones escondidos no escritório transformam o trabalho dos policiais numa espécie de Big Brother. A princípio nada de suspeito acontece, no máximo flagram um dos executivos, Sr. Low (Waise Lee), dando uns amassos na deliciosa atriz Queenie Chu. Porém quando o trio de policiais escutam sobre o esquema de manipulação das ações se sentem tentados a aproveitar para ganhar uma grana preta.

Claro que tal atitude é completamente antiético, porém cada um têm suas motivações para se inclinarem a cometer tal delito. Gene sofre de câncer terminal e, sem dinheiro, ele observa aquilo como uma oportunidade de deixar para sua família um bom patrimônio. Max se deslumbra com a possibilidade de ficar rico e logo apoio a ideia de apagar as gravações incriminadoras para tirar vantagem das informações privilegiadas. Já Johnny é um policial correto e se sente incomodado com aquela situação. Não somente pela conduta dos seus colegas, mas pelo seu próprio dilema moral: Johnny tem um caso com Mandy (Zhang Jingchu), a mulher de seu amigo e também policial Kelvin (Alex Fong).

Porém seguindo um ditado de Wall Street, não existe almoço grátis. O uso dessas informações logo trará problema para os policias. E é nesse ponto do filme que surge o vilão Sr. Ma, responsável por todas essas falcatruas e manipulações, interpretado epicamente pelo péssimo Michael Wong. É incrível como ele consegue permanecer na indústria apesar de ser muito fraco tecnicamente. Descendente de chinês, ele nasceu nos EUA. Depois de formar no ensino médio, Wong decidiu cruzar o Pacífico e tentar a sorte em Hong Kong como ator. Fluente em inglês mas não em cantonês, tal peculiaridade é sua marca registrada. Michael Wong mescla frases em chinês e inglês numa combinação bizarra, mas nunca sabemos se isso é improvisado ou faz parte embebedar os roteiristas e incluir linhas de diálogo apropriadas para o calibre do ator.

Ao menos, a atuação de Michael Wong é balanceada pela boa atuação do trio de atores principais. Louis Koo demonstra uma evolução constante e interpreta bem a fragilidade e desespero de Gene. Daniel Wu encarna perfeitamente o ingênuo policial Max. Já Lau Ching-Wan, o melhor ator disparado do elenco do filme, interpreta com bastante efetividade a ambiguidade de Johnny.

O principal defeito do filme é quando o roteiro se vê obrigado a apagar o tom cinza da narrativa para atender aos interesses comerciais. Infelizmente, a China continental se tornou o principal mercado do decadente cinema de Hong Kong e os filmes devem passar antes pela censura chinesa para que possam ser comercializados por lá. Overheard sofreu muitos problemas, inclusive obrigando os codiretores a refilmar cenas e editar outras, para atender as exigências do órgão de censura chinesa. A cena final, onde o bem triunfa sobre o mal, é ridícula, talvez até sendo, ouso dizer, uma crítica velada ao problema de censura que o filme sofreu durante a sua produção.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 竊聽風雲 (Sit yan fung wan)

Diretor: Alan Mak Siu-Fai, Felix Chong Man-Keung

Elenco: Lau Ching-Wan, Louis Koo Tin-Lok, Daniel Wu, Alex Fong Chung-Sun, Zhang Jingchu, Lam Ka-Wah, Michael Wong Mun-Tak, Waise Lee Chi-Hung, William Chn Wai-Tung, Sharon Luk Tze-Wan, Stephen Au Kam-Tong, Queenie Chu Wai-Man, Felix Lok Ying-Kwan, Henry Fong Ping.

28 de outubro de 2012

The Untold Story (A história macabra de um restaurante/1993)

untold story Wong afiando o cutelo no esmeril.

Em uma praia de Macau, crianças descobrem uma sacola de feira com diversos membros humanos. Um grupo de policiais liderados pelo Detetive Lee são encarregados por investigar o caso. Uma das mãos pertencia  mãe do ex-dono do restaurante ‘Os Oito Imortais’; ele e a família toda estava desaparecida, assim como vários funcionários do restaurante. The Untold Story é baseado em fatos reais.

As suspeitas caem em cima de Wong, atual dono e um ex-funcionário do próprio restaurante. Apesar dos indícios, os policiais tem um grande problema, pois, não existe provas que incriminem Wong, além dele afirmar veementemente desconhecer o paradeiro do ex-patrão. O que parecia ser um caso simples, se torna complicado pois agora os policiais precisariam ir atrás das provas. Provas que haviam sido transformadas em deliciosos pães recheados e que foram devorados pelos clientes do restaurante. E pelos próprios policiais!

Se alguns filmes de terror acabam sem querer se transformando em filmes de comédia, com The Untold Story não existe tal problema pois o filme abraça com louvor criando uma estranha combinação que por incrível que pareça funciona. O grupo de policiais são retratados como um bando de zero à esquerda. Danny Lee interpreta o detetive playboy que fará de tudo para arrancar uma confissão do Wong.

O serial-killer é interpretado por Anthony Wong. Wong começou sua carreira de ator na televisão, posteriormente entrou para a academia de artes cênicas de Hong Kong. O ator estreou no cinema em 1985, mas o papel em Untold Story foi que catapultou sua carreira. Sua atuação é simplesmente visceral, poucos atores conseguem interpretar o seu nível de psicopatia. Tanto que recebeu o prêmio de melhor ator no Hong Kong Film Awards daquele ano. Um feito e tanto para um filme de baixo orçamento em um gênero pouco conhecido por atuações premiadas.

O filme é perturbador não somente pela atuação de Wong, mas pelo incrível trabalho do diretor Herman Yau. Ao contrário de filmes, como por exemplo ‘O Albergue’, que apelam para uma violência pornográfica, o diretor em nenhum momento mostra de forma explicita as cenas de desmembramento. A câmera, posicionada sempre no limite da ação, é mais do que suficiente para sentirmos repugnância com a situação. Por conta do seu conteúdo extremamente violento, o filme foi classificado na Cat III (Categoria III), indicação que proíbe a exibição para pessoas menores de 18 anos. Essa categoria enquadra a maioria dos filmes B e C produzidos em Hong Kong, além de alguns filmes que o governo julgue conter apologia às tríades.

The Untold Story é filme terror que consegue engajar o expectador com um personagem sensacional interpretado por um doentio Anthony Wong. Ao mesmo tempo que diverte, é necessário ter estômago para conseguir assistir certas cenas.  Uma pena que apesar de algumas tentativas em repetir a fórmula, o cinema de Hong Kong nunca tenha conseguido produzir um filme B com uma qualidade tão boa quanto esta.

Hong Kong feelings: 4/5

Título original: 八仙飯店之人肉叉燒包 (Bat sin fan dim ji yan yuk cha siu bau)

Diretor: Herman Yau Lai-To

Elenco: Anthony Wong Chau-Sang, Danny Lee Sau-Yin, Emily Kwan Bo-Wai, Lau Siu-Ming, Shing Fui-On, Parkman Wong Pak-Man, Yee Fa-Kat, Lam King-Kong, Lee Wah-Yuet, Wong Tin-Fai, Tony Leung Hung-Wah, Cheng Choh-Fai, Lee Yi-Chong, Long Chi, Si Man.

22 de outubro de 2012

PTU (PTU:Unidade de Força Tática/2003)

ptu_b

Depois de quatro anos fazendo filmes comerciais, principalmente comédia romântica, Johnnie To retorna ao gênero que o consagrou. Para elevar ainda mais a ansiedade dos fãs, entre várias pausas das filmagens o filme levou quase um ano para ser produzido.

O filme começa quando Sargento Lo Sa (Lam Suet) perde sua arma depois de apanhar para um grupo de delinquentes. Um grupo de policiais da PTU se prontificam em ajudar o companheiro à encontrar sua arma. O veterano policial Mike (Simon Yam) lidera o grupo pelas vielas e prédios abandonados de Hong Kong. Já a Inspetora Cheng lidera um grupo de políciais da CID que investiga a morte de Ponytail, chefe do grupo de delinquentes que atacaram Sargento Lo. O método de investigação pouco ortodoxo de ambos os grupos é até certo ponto eficiente, mas questionável. O tom cinza impera entre os personagens, principalmente entre os agentes da lei.

Johnnie To sutilmente discute a disputa de egos que existe entre as facções dentro da polícia de Hong Kong e dentro das tríades. Essas cenas possuem diálogos mínimos como é marca registrada do diretor. Para PTU, Johnny To chamou Lam Suet para interpretar o Sargento Lo, tendo uma das melhores atuações de sua carreira. Simon Yam, outra figura carimbada na filmografia do diretor, imbuí Mike de uma ambiguidade que é fascinante. Ruby Wong e Maggie Siu são adições bem vindas, ao quebrar um pouco o paradigma de um universo tipicamente masculino, apesar de seus personagens não serem tão interessantes assim.

No entanto, o personagem principal do filme sem sombra de dúvidas é uma Hong Kong soturna. Ambientação noturna confere a cidade uma aura completamente diferente da metrópole frenética mundialmente conhecida. E dentro dela acompanhamos as idas e vindas de dois grupos de patrulha da Unidade de Força Tática (PTU), outro grupo da Divisão de Investigação Criminal (CID), duas facções da tríade e o Sargento Lo nadando entre esses tubarões. Nessa longínqua noite, uma espiral de eventos acaba culminando em uma verdadeira guerra.

No entanto, o final é totalmente anticlimático. A cena final de profunda ironia não é o problema, pelo contrário. Mas a reviravolta envolvendo Mike é bem decepcionante, principalmente por apelar para o clichê do novato relembrando o veterano do seu dever como policial. Outro problema do filme é o seu ritmo excessivamente cadenciado. Mas o esmero visual com que Johnnie To filma as cenas compensam em parte os problemas.

PTU não é um filme brilhante, não chega nem perto da obra-prima The Mission.  Porém, o diretor oferece uma visão ímpar de Hong Kong, serena mas igualmente perigosa.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: PTU

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Simon Yan Tat-Wah, Lam Suet, Maggie Siu Mei-Kei, Ruby Wong Cheuk-Ling, Raymond Wong Ho-Yin, Eddie Ko Hung, Wong Tin-lam, Lo Hoi-Pong, Kenneth Cheung.

15 de abril de 2012

Protègè (O Protegido/2007)

protege Da direita para esquerda: Louis Koo, Anita Yeun, Andy Lau, Daniel Wu e Zhang Jingchu

O policial Nick está há mais de 7 anos infiltrado nas operações de um mega-traficante de heroína. Nesse meio tempo ele se torna o braço direito de Quin. Acompanhamos o seu dia a dia, quando Nick, ironicamente, conhece Jane, uma usuária de heroína. Ao mesmo tempo que tenta lidar com a problemática vizinha, ele tem que gerenciar os choques de interesse entre seus dois “patrões”.

Além da temática sobre drogas, outras questões são exploradas pelo filme. A principal delas é a relação ambígua de Nick com a polícia e o crime organizado. Ao longo do filme essas intricadas relações que cerceiam ele vão ficando cada vez mais complexa. Ao mesmo tempo que este é o elemento que torna o filme interessantíssimo é também o mais frágil.

O diretor Derek Yee conduz bem a trama, com o filme ganhando ritmo e tensão no seu desenrolar. O diretor lança questões interessantes como a falta de interesse de Quin em entender os seus “consumidores” ao mesmo tempo que se sente frustrado diante de sua filha adolescente fumante e problemática. Outra cena provocante é quando traficante e produtor de ópio fazem uma avaliação econômica do mercado com dados da ONU. Porém o potencial total do enredo não é atingido seja pela falta de profundidade dos temas abordados, seja pelo desenvolvimento incompleto dos personagens.

Assim como o roteiro, as atuações são boas porém nada que seja brilhante. Daniel Wu como Nick lhe falta intensidade para um personagem que deveria estar a beira do abismo. Já Andy Lau consegue interpretar muito bem a fragilidade de Quin, causado por problemas renais, ao mesmo tempo que seu personagem amoral se sente incerto sobre seu futuro por conta da doença. Ora o simpatizamos, ora repudiamos. Zhang Jingchu mostra competência ao interpretar Jane. O destaque negativo é Louis Koo. Apesar do pouco tempo de tela e um personagem secundário destoante, o ator consegue entregar uma péssima atuação. A relação conturbada entre Jane, seu marido, a filha e as drogas acaba sendo mal discutida.

Derek Yee não entrega o que prometeu na cena de prólogo, mas ainda sim é um filme sólido com poucas falhas. Nick se defronta com vários dilemas, mas o personagem parece conseguir lidar com certa tranquilidade a maioria delas. Este detalhe é o que faz o filme ser bom, quando poderia ser excelente. A grande cena fica sendo sua mensagem anti-drogas que desfecha o filme.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 門徒 (Moon to)

Diretor: Derek Yee Tung-Sing

Elenco: Daniel Wu, Andy Lau Tak-Wah, Louis Koo Tin-Lok, Anita Yuen Wing-Wee, Zhang Jingchu, Derek Yee Tung-Sing, Liu Kai-Chi

11 de março de 2012

Infernal Affairs III (Conflitos Internos 3/2003)

infernalaffairs3É complicado a vida de espião: Ming (Andy Lau) à direita e Yan (Tony Leun) à esquerda.

Infernal Afffairs III encerra a trilogia iniciada pelo arrasa-quarteirão Infernal Affairs, seguido da sensacional prequela Infernal Affairs II. Com o destino de Yan, Inspetor Wong e o chefe da tríade selados, neste terceiro ato conheceremos o destino de Ming, o tríade infiltrado na polícia. Os diretores Andrew Lau e Alan Mak retornam para dirigir um intrincada trama que traz todo o elenco do filme original.

A citação budista que dá nome ao título original ganha mais relevância na história do terceiro filme. Aliás, o filme todo se desenvolve em torno do conceito do inferno contínuo, o mais baixo nível do inferno budista. Os flashbacks teoricamente reforçam este movimento cíclico e inexorável, mas na prática são confusos e excessivos, soando mais como desculpa para trazer os atores que morreram no primeiro filme.

Andy Lau volta a interpretar o policial Ming. Apesar de ter se safado dos eventos do primeiro filme, o personagem passa ser atormentado pelo seu passado. O descenso ao inferno é óbvio, tendo que lidar com o fim de um casamento assim como a carreira em declínio. Os personagens femininos do primeiro filme ganham mais destaque na história. E elas estão presentes nas melhores cenas do filme. Tony Leung, Anthony Wong e Eric Tsang retornam com sólidas atuações, mas nada que supere os filmes anteriores. O roteiro também prejudica inclusive a atuação do ator principal. Andy Lau consegue interpretar razoavelmente a paranoia que cerceia Ming, principalmente após a aparição de um novo personagem.

Ming suspeita que o inspetor Yeung está por trás da queima de arquivo contra os infiltrados de Sam para se proteger. O jogo de gato e rato se torna desinteressante, principalmente por conta do ator escalado para interpretar Yeung. A variedade de expressões faciais de Leon Lai é tão impressionante quanto ao de Keanu Reeves. E isso prejudica muito a dinâmica entre Ming e Yeung. Outro problema do filme é a subtrama envolvendo Yan e outro personagem novo. Shen é um chefe do crime da China continental que fez negócios com Sam (Eric Tsang). Poucas informações sobre o personagem interpretado por Chen Dao-Ming são disponibilizadas, o que torna a sua relação com Yan bem confusa. No final das contas, é quase incompreensível como que as subtramas se cruzam para determinar o destino de Ming.

O filme possui ideias boas, mas que foram mal executadas. Para os fãs ardorosos, certamente assistirão para saber o fim que Ming terá. Claramente, os diretores não quiseram escolher o caminho mais fácil para contar essa história, tal esforço foi capaz de gerar boas cenas como a que junta Ming e Yan no consultório da psiquiatra Dra. Lee. Os elementos de drama e suspenses estão presentes nesse filme, mas não foi possível repetir a mesma qualidade do filme original. Infelizmente, Infernal Affairs sofreu do mesmo mal que as trilogias de Hollywood com uma última parte fraquíssima.

Hong Kong feelings: 2,5/5

Título original: 無間道 III (Mou Gaan dou III)

Diretor: Andrew Lau Wai-Keung, Alan Mak Siu-Fai

Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Andy Lau Tak-Wah, Leon Lai Ming, Chen Dao-Ming, Anthony Wong Chau-Sang, Eric Tsang Chi-Wai, Sammi Cheng Sau-Man, Kelly Chen, Elva Hsiao, Chapman To Man-Chat,Gordon Lam Ka-Tung, Edison Chen, Shawn Yue, Ng Ting-Yip, Carina Lau Ka-Ling, Waise Lee Chi-Hung

26 de fevereiro de 2012

Accident (Acidente/2009)

accident Brain (Louis Koo) tenta desvendar a conspiração contra ele.

É possível assassinar uma pessoa de forma que a cena do crime pareça com um acidente? Pode parecer uma teoria conspiratória, mas Brain e seus comparsas tiram seu sustento com este tipo de serviço.

O filme mostra minunciosamente como que Brain constrói e seus comparsas executam os “acidentes”. Sempre buscando não deixar pontas soltas, o personagem principal é meticuloso e as vezes até paranoico. O diretor Soi Cheung consegue fazer essas cenas muito bem, sempre mantendo o expectador na expectativa de como o acidente ocorrerá.

Aparentemente Brain detém o monopólio desse negócio. Porém um incidente o leva a conclusão que existe um possível ríval e concorrente na sua área de atuação. O filme fica cada vez mais interessante a medida que Brain fica mais paranoico. A atuação de Louis Koo é surpreendentemente excelente sendo bastante convincente no papel principal. O elenco de suporte possui nomes como Lam Suet e Michelle Ye.

Estreando na cadeira de diretor de uma produção da Milkyway, Soi Cheang faz o básico e muito bem. Não se arrisca em experimentar efeitos com a câmera que mais distraem do que conferem um estilo. As relações entre os personagens são construídas de forma sutil o que reforça o tom misterioso. A tensão e o suspense não são tão densos, mas o diretor consegue produzir o suficiente para que o filme funcione.

Infelizmente a cena final é desnecessária, criada somente para atender interesses comerciais (leia-se evitar a censura chinesa). Mas ainda sim o filme diverte bastante com a temática conspiratória, boas atuações e bom roteiro. Alistado pela produtora do renomado Johnnie To, Soi Cheang cumpre as expectativas em sua estreia como diretor da Milkyway dirigindo um ótimo suspense.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 意外 (Yi Ngoi)

Diretor: Soi Cheang Pou-Soi

Elenco: Louis Koo Tin-Lok, Richie Ren, Michelle Ye, Stanley Fung Shui-Fan, Lam Suet, Monica Mok

25 de janeiro de 2012

The Mission (Os Profissionais/1999)

mission Depois de um longo dia de trabalho, nada melhor do que sair para um Happy Hour.

Um chefe da tríade sofre uma tentativa de assassinato. Cinco pistoleiros são, então, contratados para serem seus guarda-costas, ao mesmo tempo que buscam descobrir o mandante. É com essa história que Johnnie To dirige um de seus mais brilhantes filmes. E se estabelece como um dos melhores diretores de Hong Kong.

Num gênero tão explorado pelo cinema local, o diretor consegue criar uma experiência única. O primeiro tiroteio já impressiona, estabelecendo o estilo do filme. A ação é cadenciada, onde cada bala atirada é milimetricamente calculada. Como num jogo de xadrez, o posicionamento e a movimentação de cada peça são importantíssimos. O trabalho em equipe ganha total destaque nas elaboradas sequências de tiro.

E é esse trabalho em equipe que será construído  brilhantemente pelo diretor. Como numa pelada de futebol, quando se reúne cinco talentosos jogadores, mesmo que não conhecendo uns aos outros, eles formarão um time forte. No entanto, só se tornam imbatíveis quando superam a falta de entrosamento.

Com um dos melhores elencos que o cinema de Hong Kong pode oferecer, durante todo o filme Johnnie To tem os atores sob seu controle. Os personagens se encaixam como uma luva nos atores. Jackie Lui que é o ator mais jovem do elenco encarna muito bem o seu inexperiente personagem. Já os experientes Francis Ng e Anthony Wong roubam a cena. O primeiro com suas atuações habitualmente intensas se faz presente em todas as cenas. O segundo interpreta com maestria Curtis, The Ice. Os óculos escuros são um recurso recorrente para restringir as emoções e assim permitir que atores consigam transmitir frieza. Porém para Anthony Wong, as lentes servem como um amplificador.

Esse entrosamento entre diretor e elenco resulta em interessantíssimas sequências. Um exemplo é a simples cena onde o quinteto recebem e verificam suas armas. Johnnie To consegue estabelecer cada personagem sem que haja uma linha de diálogo. Assim é todo filme, onde literalmente uma imagem vale mais do que mil palavras.

O filme é curto, o que pode ser um pouco frustrante para os mais desatentos. Não que sua duração seja o problema, mas é difícil captar todas as sutilezas dos personagens e as situações que os envolvem. Para quem espera por um derramamento de sangue heroico, a cena final é decepcionante. Porém são esses detalhes que diferenciam Johnnie To de outros consagrados diretores como John Woo e Tsui Hark. Se os dois últimos influenciaram profundamente o cinema de ação com cenas frenéticas, The Mission  se apresenta como uma antítese. A calmaria domina até mesmo as cenas de tiro, porém estas são tão bem montadas que conseguem criar um clima de extrema tensão e adrenalina.

Aos que procuram um filme de ação, encontrarão um filme altamente estilizado mas sem substância. Porém os mais atentos certamente apreciarão um filme que discute amizade, profissionalismo e camaradagem. O mais fascinante do filme não são os personagens em si mas como que os laços que unem o quinteto são construídos.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original: 鎗火 (Cheung Fo)

Diretor: Johnnie To

Elenco: Anthony Wong Chau-Sing, Francis Ng Chun-Yu, Jackie Lui Chung-Yin, Lam Suet, Roy Cheung Yiu-Yeung, Simon Yam Tat-Wah, Wong Tin-Lam, Eddy Ko Hung

1 de janeiro de 2012

Running Out of Time (Jogo da Vingança/1999)

running_out_of_time_1 (1)  Andy Lau e Lau Ching-Wan duelam no filme dirigido por Johnny To.

Um misterioso ladrão rouba diamantes de uma companhia financeira. Porém a ação é executada de forma extravagante, chamando atenção de um inteligente policial. Este último então é atraído para um jogo de gato e rato pelo próprio ladrão. Nas próximas 72 horas o policial tentará descobrir suas motivações e seus objetivos.

O enredo intriga o expectador, mas o núcleo do filme está nos dois atores principais. Lau Ching-Wan interpreta inspetor Ho. O carismático ator personifica um inteligente policial que prefere usar o cérebro a portar uma arma. O seu personagem é viciado em trabalho, mas é visível o tédio com as tarefas cotidianas. Porém a monotonia é quebrada com a aparição do ladrão Cheung.

Apesar de ser um oponente de Ho, Cheung não é o vilão do filme. Este papel cabe ao personagem de Waise Lee, Baldy. Na verdade Cheung pode ser retratado como um rival do policial, alguém que é capaz de rivalizar com a inteligência deste último. Interpretado convincentemente por Andy Lau, este personagem também foi um ponto de inflexão em sua carreira. A partir deste filme Andy Lau ganhou o respeito dos críticos e construiu sólidas atuações em filmes posteriores. Com uma excelente atuação, o pop star conseguiu o prêmio de melhor ator. Se antes era criticado pelo exagero, neste filme ele consegue equilibrar charme e perspicácia.

A química entre Andy Lau e Lau Ching-Wan é fantástica, construindo de forma perfeita o respeito mútuo e a rivalidade. Ambos conseguem cativar o expectador a ponto de criar dúvida para quem torcer a cada embate. Já os personagens secundários muita das vezes servem somente como figurantes. Hiu Sing-Hung interpreta o inspetor-chefe Wong. Devido a lerdeza, para não dizer estupidez, o superior é incapaz de obter o respeito de seu inteligente subordinado. Do outro lado, temos YoYo Mung fazendo par romântico com Andy Lau. As cenas são singelas e poucas, mas o romance é tocante. Como mencionado anteriormente, o filme tem um vilão, mas, que ganha importância somente no ato final. É só uma necessidade criada pelo roteiro, tanto que o capanga interpretado por Lam Suet tem mais personalidade que ele.

Se a utilização dos personagens secundários é econômica, o mesmo pode ser dito para a direção de Johnny To. Apesar disso o filme é visualmente impecável. A trilha sonora é efetiva para cada situação, mas não é memorável.

Running Out of Time, com uma trama inteligente, é um divertido exercício do gênero. Apesar da história e personagens serem enxutos, tudo isso permite que dois atores principais possam brilhar soberanos em seus respectivos papéis. Além disso, o romance entre os personagens de Andy Lau e YoYo Mung consegue ser muito mais efetivo que muitos filmes românticos. O filme tem seus defeitos, principalmente furos no roteiro. Mas não há como terminar de assistir a cena final sem um sorriso de satisfação.

Hong Kong feelings: 4/5

Título original: 暗戰 (Am Zin)

Diretor: Johnny To

Elenco: Lau Ching-Wan, Andy Lau Tak-Wah, YoYo Mung, Hui Siu-Hung, Waise Lee Chi-Hung, Lam Suet, Ruby Wong Cheuk-Ling.