20 de maio de 2012

The Killer (The Killer–O Matador/1989)

killer Esta icônica cena entre Chow Yun-Fat e Danny Lee se tornou referência no gênero.

John Woo possui, basicamente, três tipos de fãs. Os que acham que A Better Tomorrow (1 ou 2) é o melhor filme já dirigido pelo diretor. Outros acham que é Hard Boiled. Por último, existem os fãs que acreditam que The Killer seja sua maior obra-prima. Independentemente se é fã ou não, é impossível não admirar este filme.

O gênero Heroic Bloodshed, que o próprio John Woo moldou, nasceu como uma forma de recontar histórias e valores dos filmes de artes marciais chineses da década de 70 em um ambiente urbano. Em ambos os gêneros, os personagens principais são movidos por um estrito código de honra. Nesse contexto urbano, porém, esses personagens ganham uma dimensão extra, pois são espécies em extinção dentro de uma sociedade corrompida pelo dinheiro.

Mas é esse mesmo dinheiro que Jeff busca quase que desesperadamente. Apesar de traído pelo seu agenciador, a vingança não é sua principal motivação. Há elementos batidos como “um último trabalho”, mas que tem um peso dramático essencial para que o enredo funcione.

A história do filme é uma das melhores já contadas pelo diretor, com inesperadas reviravoltas na trama. Atualmente, apesar de todos os elementos do filme terem se tornados clichês do gênero, The Killer não envelheceu nem um pouco. Por mais que a tecnologia atual ofereça cenas de ações incríveis, o filme possui uma intensidade que poucos filmes conseguem alcançar.

Os créditos também devem ser divididos com Chow Yun-Fat. O ator interpreta Jeff com maestria. Seu assassino profissional sempre aparenta frieza, mas as expressões faciais traem o personagem mostrando os conflitos internos que o angustiam. Sua atuação é rivalizada por Danny Lee com seu Inspetor Li cujo código de conduta o conduz a tênue linha entre dever e honra. O policial é tão carismático quanto Jeff. Apesar de estarem em lados opostos da lei, os dois têm pontos bastante em comuns.  

The Killer possui grandiosas cenas de ação que não deve a nenhum arrasa quarteirão hollywoodiano. Apesar do ritmo intenso de um filme de ação, John Woo consegue sempre manter o suspense em alto nível. Lealdade e amizade são forjadas e destruídas com bala. Com estilo e substância, o filme termina com um épico derramamento de sangue.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original: 喋血雙雄 (Dip huet seung hung)

Diretor; John Woo

Elenco: Chow Yun-Fat, Danny Lee Sau-Yin, Sally Yeh, Kenneth Tsang Kong, Shing Fui-On, Paul Chu Kong, Dion Lam Dik-On.

15 de abril de 2012

Protègè (O Protegido/2007)

protege Da direita para esquerda: Louis Koo, Anita Yeun, Andy Lau, Daniel Wu e Zhang Jingchu

O policial Nick está há mais de 7 anos infiltrado nas operações de um mega-traficante de heroína. Nesse meio tempo ele se torna o braço direito de Quin. Acompanhamos o seu dia a dia, quando Nick, ironicamente, conhece Jane, uma usuária de heroína. Ao mesmo tempo que tenta lidar com a problemática vizinha, ele tem que gerenciar os choques de interesse entre seus dois “patrões”.

Além da temática sobre drogas, outras questões são exploradas pelo filme. A principal delas é a relação ambígua de Nick com a polícia e o crime organizado. Ao longo do filme essas intricadas relações que cerceiam ele vão ficando cada vez mais complexa. Ao mesmo tempo que este é o elemento que torna o filme interessantíssimo é também o mais frágil.

O diretor Derek Yee conduz bem a trama, com o filme ganhando ritmo e tensão no seu desenrolar. O diretor lança questões interessantes como a falta de interesse de Quin em entender os seus “consumidores” ao mesmo tempo que se sente frustrado diante de sua filha adolescente fumante e problemática. Outra cena provocante é quando traficante e produtor de ópio fazem uma avaliação econômica do mercado com dados da ONU. Porém o potencial total do enredo não é atingido seja pela falta de profundidade dos temas abordados, seja pelo desenvolvimento incompleto dos personagens.

Assim como o roteiro, as atuações são boas porém nada que seja brilhante. Daniel Wu como Nick lhe falta intensidade para um personagem que deveria estar a beira do abismo. Já Andy Lau consegue interpretar muito bem a fragilidade de Quin, causado por problemas renais, ao mesmo tempo que seu personagem amoral se sente incerto sobre seu futuro por conta da doença. Ora o simpatizamos, ora repudiamos. Zhang Jingchu mostra competência ao interpretar Jane. O destaque negativo é Louis Koo. Apesar do pouco tempo de tela e um personagem secundário destoante, o ator consegue entregar uma péssima atuação. A relação conturbada entre Jane, seu marido, a filha e as drogas acaba sendo mal discutida.

Derek Yee não entrega o que prometeu na cena de prólogo, mas ainda sim é um filme sólido com poucas falhas. Nick se defronta com vários dilemas, mas o personagem parece conseguir lidar com certa tranquilidade a maioria delas. Este detalhe é o que faz o filme ser bom, quando poderia ser excelente. A grande cena fica sendo sua mensagem anti-drogas que desfecha o filme.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 門徒 (Moon to)

Diretor: Derek Yee Tung-Sing

Elenco: Daniel Wu, Andy Lau Tak-Wah, Louis Koo Tin-Lok, Anita Yuen Wing-Wee, Zhang Jingchu, Derek Yee Tung-Sing, Liu Kai-Chi

8 de abril de 2012

A Chinese Odyssey Part 2: Cinderella (Odisseia Chinesa Parte 2: Cinderela/1995)

acoc Hail to the king, baby!

A segunda da parte da odisseia chinesa traz o fim da jornada do Macaco-Rei em busca de redenção. Pode-se dizer que nessa parte é onde a jornada realmente começa. O filme se esforça em consertar os erros do anterior e reforçar os pontos positivos. A comédia não mais dita o ritmo do filme, abrindo espaço para uma história centrada nos elementos budistas da obra.

O filme começa do ponto onde o anterior terminou. Continuando a aventura, Joker usa a Caixa de Pandora e volta 500 atrás onde tudo começou. Ele encontra com o seu destino. O começo é um tanto arrastado, mas bem menos enrolado que o antecessor, com o roteiro sendo desenvolvido de forma lenta. O filme ganha momento quando Joker encontra o seu mestre, o Monge da Longevidade. Law Kar-Ying consegue ser irritantemente hilário, transmitindo bem a capacidade do seu personagem de levar os outros à loucura. A partir desse ponto até a parte final do filme, a escalada é épica.

O roteiro tem alguns problemas, pois algumas informações sobre os personagens ficam faltando. As motivações de Zixia em abandonar o seu posto de Imortal, dentro do universo do filme um ser que atingiu o Nirvana, para buscar um amor carnal não são explicadas em momento nenhum. Zixia deveria servir de contraponto ao Macaco-Rei, pois enquanto um tenta voltar ao Reino Celestial o outro decide abandonar. Outros personagens também sofrem com uma vaga introdução de quem são, sendo necessário conhecê-los previamente de outras adaptações ou do livro original.

No primeiro filme, a rusga entre o Macaco-Rei e Ping Ping foi construída de maneira implícita uma vez que os acontecimentos eram de 500 anos atrás. No segundo filme, fica claro que o personagem de Chow era um mulherengo. Tal elemento é mal explorado, pois o foco é no triângulo amoroso envolvendo Ping Ping, Zixia e Joker. Mas a recusa do diretor em prover motivações, quando revela é de forma indireta, aliena o expectador sobre o porque das escolhas e preferências de Joker. Inclusive, Karen Mok que foi o grande destaque do primeiro filme, só faz uma breve aparição neste apesar de ser o grande motivo por detrás das ações de Joker.

Ainda sim o talento de Anthena Chu e Stephen Chow sustentam o filme, com o romance de Zixia e Joker rivalizando com o de Ping Ping e Joker no primeiro filme. Apesar de sua delicada fisionomia causar indiferença em um primeiro momento, a atriz consegue cativar o expectador com uma excelente atuação. Mas ela não chega a eclipsar o personagem principal, como aconteceu no filme anterior. Pelo contrário, Stephen Chow é o centro das atenções sem sombra de dúvidas. Seu Joker é um personagem mais completo com seus inúmeros dilemas. Mas o ápice da atuação é quando ele se transforma no Macaco-Rei. Chow encarna a figura folclórica com grande paixão. O ator literalmente desaparece na pesada maquiagem dando vida ao personagem mais fascinante do filme. O trejeito, tom de voz, maneirismo, ele construiu uma versão definitiva do Macaco-Rei.

O personagem extrai ainda mais do talento de Chow quando este tem que lidar de forma definitiva os dilemas que o atormentam. Méritos também para o diretor Jeff Lau. Nessa segunda parte fica claro que a decisão dos produtores em dividir em dois filmes por questões mercadológicas prejudicou o trabalho de edição do diretor. Os pontos baixos do filme certamente não são ruins. Os aspectos técnicos são ótimos dentro das limitações orçamentárias e tecnológicas.

Apesar de ter cenas engraçadíssimas, o filme se destaca pelos momentos de romance e drama. As cenas de luta também agradarão os fãs de artes marciais. Stephen Chow oferece uma das melhores atuações de sua carreira, se não a melhor. É triste que Macaco-Rei tenha aparecido em sua forma plena somente nos momentos finais do filme, poucos minutos para um personagem tão memorável. A imersão de Chow dentro do personagem é comparável ao trabalho de Heath Legder com o seu psicótico Coringa em Cavaleiro das Trevas. A Odisseia Chinesa é um clássico do cinema de Hong Kong.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título original: 西遊記 II 仙履奇緣

Diretor: Jeff Lau

Elenco: Stephen Chow Sing-Chi, Ng Man-Tat, Athena Chu Yun, Ada Choi Siu-Fun, Yammie Nam Kit-Ying, Karen Mok Man-Wai, Kong Yeuk, Luk Su-Ming, Ng Yuk-Kan, Jeff Lau Chun-Wai, Law Kar-Ying.

31 de março de 2012

A Chinese Odyssey Part 1: Pandora Box (Odisséia Chinesa Parte 1: A Caixa de Pandora/1995)

copbOs súditos saúdam a volta do Rei!

‘Jornada ao Oeste’ é um dos grandes clássicos da literatura chinesa. No livro o monge budista Xuanzang junto com seus discípulos (o Macaco-Rei, o Porco, o Monge Shaolin e o Príncipe Dragão) partem para o oeste em busca dos sutras, escrituras sagradas budistas. Durante a jornada monstros, fantasmas e demônios tentam devorar Xuanzang, pois sua carne pode garantir a imortalidade para quem a consumir. A obra influenciou profundamente o folclore chinês. Dentre as inúmeras adaptações nas mais variadas mídias, a mais famosa adaptação é a animação japonesa Dragon Ball. Este filme, dirigido por Jeff Lau, tal qual a animação japonesa é levemente baseada na obra original.

Na história do filme o Macaco-Rei é sucumbido pelo mal e tenta devorar o seu próprio mestre com o objetivo de se tornar imortal. A Deusa da Misericórdia tenta matar o Macaco-Rei, porém o compassivo monge intervém e troca a sua vida pelo do seu discípulo. O Macaco-Rei é então banido do reino celestial para reencarnar na forma humana. O prólogo tem um clima épico, tanto que a história foi dividida em duas partes. Nesta primeira parte, duas irmãs demoníacas procuram pelo Monge da Longevidade no local onde o Macaco-Rei reencarnou 500 anos depois do prólogo. Lá encontram  Joker, líder de um bando de bandidos e um zero a esquerda nas horas vagas.

Stephen Chow interpreta Joker mostrando ser, desde o início de sua carreira, um ator com bastante potencial para papéis mais “sérios”. O diretor Jeff Lau consegue extrair o melhor de Chow como ator e também como comediante. É até redundante, mas a química entre Ng Man Tat e Stephen Chow é estupenda. Até em momentos cuja atuação é mais sóbria, quando os dois estão dividindo a mesma cena eles são capazes de arrancar gargalhadas genuínas.

No entanto, quem oferece a melhor atuação é a Karen Mok. Com uma incrível naturalidade, ela dá conta do turbilhão de emoções que assola a sua personagem Jing Jing, conhecida pela alcunha demônio do Osso Branco. Do sadismo inerente a natureza da sua personagem até a desilusão amorosa que comove o espectador, ela ainda consegue ajudar a elevar o nível de interpretação dos seus companheiros de cena. Uma das mais beneficiadas do talento da Karen Mok, é a Yammie Nam Kit-Ying, que interpreta a irmã, também demoníaca, da Osso Branco.

Apesar das cenas de comédia, ação e drama funcionarem bem, o filme tem um ritmo inconsistente. Por mais que as cenas de comédia sejam muito engraçadas, dignas da filmografia de Chow, o filme acaba sendo repetitivo e até cansativo. Problema causado pelo enredo, que só toma uma direção ao final do filme quando prepara a história para a segunda parte.

Essa primeira parte funciona como uma longa introdução antes do início da jornada de redenção do Macaco-Rei. A sequência final é uma das mais inventivas viagens ao tempo. O filme é divertido, apesar de se seus altos e baixos. A sua grande falha é a incapacidade de criar expectativa para a segunda parte.

Hong Kong Feelings: 3,5/5

Título original: 西遊記 I 月光寶盒

Diretor: Jeff Lau

Elenco: Stephen Chow Sing-Chi, Ng Man-Tat,Yammie Nam Kit-Ying, Karen Mok Man-Wai, Kong Yeuk, Luk Su-Ming, Ng Yuk-Kan, Jeff Lau Chun-Wai, Law Kar-Ying.

11 de março de 2012

Infernal Affairs III (Conflitos Internos 3/2003)

infernalaffairs3É complicado a vida de espião: Ming (Andy Lau) à direita e Yan (Tony Leun) à esquerda.

Infernal Afffairs III encerra a trilogia iniciada pelo arrasa-quarteirão Infernal Affairs, seguido da sensacional prequela Infernal Affairs II. Com o destino de Yan, Inspetor Wong e o chefe da tríade selados, neste terceiro ato conheceremos o destino de Ming, o tríade infiltrado na polícia. Os diretores Andrew Lau e Alan Mak retornam para dirigir um intrincada trama que traz todo o elenco do filme original.

A citação budista que dá nome ao título original ganha mais relevância na história do terceiro filme. Aliás, o filme todo se desenvolve em torno do conceito do inferno contínuo, o mais baixo nível do inferno budista. Os flashbacks teoricamente reforçam este movimento cíclico e inexorável, mas na prática são confusos e excessivos, soando mais como desculpa para trazer os atores que morreram no primeiro filme.

Andy Lau volta a interpretar o policial Ming. Apesar de ter se safado dos eventos do primeiro filme, o personagem passa ser atormentado pelo seu passado. O descenso ao inferno é óbvio, tendo que lidar com o fim de um casamento assim como a carreira em declínio. Os personagens femininos do primeiro filme ganham mais destaque na história. E elas estão presentes nas melhores cenas do filme. Tony Leung, Anthony Wong e Eric Tsang retornam com sólidas atuações, mas nada que supere os filmes anteriores. O roteiro também prejudica inclusive a atuação do ator principal. Andy Lau consegue interpretar razoavelmente a paranoia que cerceia Ming, principalmente após a aparição de um novo personagem.

Ming suspeita que o inspetor Yeung está por trás da queima de arquivo contra os infiltrados de Sam para se proteger. O jogo de gato e rato se torna desinteressante, principalmente por conta do ator escalado para interpretar Yeung. A variedade de expressões faciais de Leon Lai é tão impressionante quanto ao de Keanu Reeves. E isso prejudica muito a dinâmica entre Ming e Yeung. Outro problema do filme é a subtrama envolvendo Yan e outro personagem novo. Shen é um chefe do crime da China continental que fez negócios com Sam (Eric Tsang). Poucas informações sobre o personagem interpretado por Chen Dao-Ming são disponibilizadas, o que torna a sua relação com Yan bem confusa. No final das contas, é quase incompreensível como que as subtramas se cruzam para determinar o destino de Ming.

O filme possui ideias boas, mas que foram mal executadas. Para os fãs ardorosos, certamente assistirão para saber o fim que Ming terá. Claramente, os diretores não quiseram escolher o caminho mais fácil para contar essa história, tal esforço foi capaz de gerar boas cenas como a que junta Ming e Yan no consultório da psiquiatra Dra. Lee. Os elementos de drama e suspenses estão presentes nesse filme, mas não foi possível repetir a mesma qualidade do filme original. Infelizmente, Infernal Affairs sofreu do mesmo mal que as trilogias de Hollywood com uma última parte fraquíssima.

Hong Kong feelings: 2,5/5

Título original: 無間道 III (Mou Gaan dou III)

Diretor: Andrew Lau Wai-Keung, Alan Mak Siu-Fai

Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Andy Lau Tak-Wah, Leon Lai Ming, Chen Dao-Ming, Anthony Wong Chau-Sang, Eric Tsang Chi-Wai, Sammi Cheng Sau-Man, Kelly Chen, Elva Hsiao, Chapman To Man-Chat,Gordon Lam Ka-Tung, Edison Chen, Shawn Yue, Ng Ting-Yip, Carina Lau Ka-Ling, Waise Lee Chi-Hung