21 de setembro de 2013

God of Gamblers (Deus da Jogatina/1989)

God of Gamblers Ko Chun (dir.) aka God of Gamblers desafia a lógica, a probabilidade e a astrologia.

God of Gamblers é um clássico do cinema de Hong Kong da década de 80. O filme é estralado por Chow Yun-Fat, em mais um papel marcante. Ele interpreta Ko Chun, um lendário apostador profissional que possui a alcunha de God of Gamblers graças à sua capacidade quase que divina de desafiar as probabilidades na arte da jogatina.

O filme é extremamente formulaico. Além de Ko Chun temos Knife, um apostador amador que é um completo zero a esquerda. A vida dos dois acabam se cruzando quando Ko Chun despenca de um barranco, bate a cabeça e perde a memória. A partir daí o filme explora situações onde o personagem de Andy Lau tem que fazer de babá do personagem de Chow Yun-Fat, além de tentar aproveitar os poderes quase que sobrenaturais do último para conseguir um dinheiro fácil.

Wong Jing consegue imprimir um ritmo muito bom, mesmo que algumas piadas sejam estúpidas. O filme se sustenta graças a atuação sensacional de Chow Yun-Fat. O ator esbanja carisma seja como o invencível Deus da Jogatina ou como um menino de 5 anos de idade mimado que adora comer chocolate. A dinâmica com Andy Lau também funciona, apesar do último mostrar limitações não conseguindo chegar nem perto do talento de Chow Yun-Fat. No elenco de suporte temos ainda Joey Wong como a namorada de Knife e Ng Man-Tat como um agiota.

Se Michael Bay está para os filmes de ação, Wong Jing está para os filmes de comédia. O seu talento é comparável ao de Uwe Boll. O diretor tem em seu currículo atrocidades como Future Cops, um filme que parodia Street Fighter, porém sem os direitos de licença. Em sua defesa, ele dirigiu alguns filmes que são clássicos do cinema de Hong Kong. God of Gamblers é certamente o melhor filme de sua carreira. Com uma excelente atuação de Chow Yun-Fat e um elenco de suporte que não compromete, God of Gamblers arranca muitas risadas.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título original: 賭神 (Dou San)

Diretor: Wong Jing

Elenco: Chow Yun-Fat, Andy Lau Tak-Wah, Joey Wong Cho-Yin, Charles Heung Wah-Keung, Cheung Man, Ronald Wong Ban, Shing Fui-On, Lung Fong,Ng Man-Tat, Michiko Nishiwaka,Dennis Chan Kwok-San

24 de agosto de 2013

Overheard 2 (Overheard 2–Nos Bastidores do Poder/2011)

hkp_overheard2_03  Déjà vu: Daniel Wu (dir.) e Louis Koo (esq.) reencenam passagem de Infernal Affairs

Overheard foi um sucesso comercial e recebeu várias críticas positivas. Para essa sequência, a dupla de diretores Alan Mak e Felix Chong retornam na direção. O trio de atores principais Louis Koo, Lau Ching-Wan e Daniel Wu também retornaram para a franquia. Overheard 2 é uma sequência só no nome, pois a história e os personagens são novos.

No primeiro filme, acompanhamos um suspense sobre três policiais que durante o trabalho tinham em mãos informações privilegiadas e que poderiam obter uma fortuna com essas. Cada um tinha suas motivações para usar aquelas informações, porém havia um preço bem caro a pagar. Porém desta vez, o trio de personagens estão em lados diferentes.

A história do filme é centrada em um grupo de empresários que manipulam a bolsa de valores de Hong Kong conhecido como Landlord Club. Lau Ching-Wan é Manson Law, um dos integrantes desse misterioso clube. Ficamos sabendo que originalmente o clube foi fundado com o objetivo de impedir que grupos estrangeiros lucrassem de forma parasitárias os empresários locais. Porém, o policial Jack Ho investiga Manson Law com o objetivo de obter mais informações sobre as operações ilegais do grupo, mesmo que não tenha provas de sua existência. Em meio a esse conflito, aparece Joe espionando Manson. A princípio suas intenções não são claras, mas a medida que o filme evolui seu personagem se torna central na trama.

Lau Ching-Wan, Louis Koo e Daniel Wu novamente oferecem sólidas atuações. A dinâmica antagônica entre o trio é interessante. Sempre estamos nos perguntando quais são as reais motivações de cada um. Já o vilão deste filme é bem mais interessante e bem melhor interpretado que o de Michael Wong. Kenneth Tsang interpreta muito bem o líder do Landlord Club. Tony é um personagem embriagado pelo poder e pela ganância. Esse pano de fundo relacionado ao mercado financeiro acaba sendo interessante, principalmente com a crise de 2008 ainda bem recente na memória. Mesmo intercalando cenas de perseguição automobilísticas, o filme demora a engrenar. O meio do filme acaba sendo arrastado demais, com muitos diálogos expositivos na tentativa de construir o suspense acerca da intrincada história.

Se o primeiro filme já se parecia muito com uma produção hollywoodiana, a sequência dá um passo a frente nessa direção ao incluir cenas de perseguição dignas do cinema yankee. Novamente o tom cinza impera na narrativa do filme, exceto pelo final quando os personagens são divididos em mocinhos e vilões. Sem problemas com a censura chinesa, Overheard 2 consegue concertar alguns problemas do primeiro filme, principalmente oferecendo uma cena final que não fosse ridículo mesmo sendo politicamente correta. Nessa sequência os diálogos não são tão afiados, porém o filme mantem as boas atuações e uma boa história de suspense.

Hong Kong feelings: 4/5

Título Original: 竊聽風雲2

Diretor: Alan Mak Siu-Fai, Felix Chong Man-Keung

Elenco: Louis Koo Tin-Lok, Lau Ching-Wan, Daniel Wu, Huang Yi, Michelle Ye, Kenneth Tsang Kong,Wu Fung, Lisa Chiao Chiao, Matthew Chow Hoi-Kwong, Wilfred Lau Ho-Lung,Joman Chiang Cho-Man, Kong Ngai, Felix Lok Ying-Kwan, Samuel Kwok Fung, Ben Yuen Fu-Wah, Dion Lam Dik-On, Alex Fong Chung-Sun

26 de junho de 2013

Sparrow (Sparrow/2008)

sparrow

Na cena que abre Sparrow acompanhamos o grupo de batedores de carteira liderado pelo charmoso Kei. Toda a ação do bando é executada com uma sincronia perfeita e uma precisão absurdamente linda . Com uma cena tão simples, Johnnie To já dita o tom divertido do filme e estabelece aqueles personagens.

No seu tempo livre, Kei aproveita para curtir seu hobby de tirar fotos com uma antiga câmera. Porém uma misteriosa mulher cruza o seu caminho, chamando sua atenção. Mas não é somente ele quem ela enfeitiça com seu charme. Por um motivo inicialmente desconhecido, ela também aborda os outros membros do grupo com o mesmo modus operandi.

Apesar da trama ter vários furos, o filme não exige esforço para entender e acompanhar o enredo. Mesmo que a atitude de alguns personagens não faça muito sentido, o que o filme te exige é saber desfrutar uma narrativa divertida e inteligente. Temas caros ao diretor, como companheirismo e honra, são apresentados, porém não são discutidos.

Esta é a obra mais pessoal do diretor. As cenas foram sendo filmadas ao longo de três anos, quase que uma obra indie e com os atores filmando e refilmando cenas a medida que Johnnie To montava o filme entre um trabalho e outro.

Mesmo com uma forte influência do cinema europeu, Johnnie To mantém sua marca registrada. A trilha sonora, que mistura blues e jazz com um toque oriental, é uma das mais fantásticas e envolventes da filmografia de To. A cena final meticuloso, complexo, belo e caótico é uma homenagem ao musical francês Umbrellas of Cherbourg.

Ademais, as atuações são fantásticas, como sempre o uso de diálogos são mínimos. Rostos conhecidos como o de Simon Yam, Lam Suet, Gordon Lam, Lo-Hoi Pang oferecem atuações simplesmente deliciosas. Mas quem realmente se destaca e surpreende é Kelly Lin. A atriz taiwanesa consegue ser mais do que um colírio para os olhos, sua atuação é imprescindível para que o filme todo funcione.

O filme é uma verdadeira carta de amor de Johnnie To à Hong Kong. Cada quadro é filmado com uma beleza e esmero ímpar. A escolha de filmar em áreas onde ainda se mantém uma arquitetura tradicional dá uma atmosfera completamente diferente da metrópole frenética conhecida pelo mundo inteiro. Sparrow é um delicioso sorbet para qualquer fã do diretor saborear.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título Original: 文雀 (Mah Jeuk)

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Simon Yam Tat-Wah, Kelly Lin, Gordon Lam Ka-Tung, Law Wing-Cheong, Kenneth Cheung, Lo Hoi-Pang, Lam Suet

25 de junho de 2013

Happy Together (Felizes Juntos/1997)

happy-together Ao som de tango, Yiu-Fai e Po-Wing bailam.

Com Happy Together, Wong Kar-Wai conseguiu o reconhecimento internacional ao concorrer a Palma de Ouro e ganhar o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. O filme é uma mistura de todos os temas já discutidos pelo diretor em filmes anteriores como Chungking Express e Days of Being Wild, porém em um arranjo autêntico, além de ter sido bem controverso para a época.

Como em quase todos os seus filmes, não existe uma história que conduza o enredo. Novamente, Wong Kar-Wai nos oferece uma jornada extasiante  construída pelo acaso. Dessa vez acompanhamos um casal homossexual tentando reconstruir a relação em um outro lugar, longe de Hong Kong. A cidade escolhida foi Buenos Aires, alimentado pelo sonho de conhecer as Cataratas do Iguaçu.

O que observamos é o amor incompleto e destrutivo que Yiu-Fai (Tony Leung Chi-Wai) nutre por Po-Wing (Leslie Cheung). Yiu-Fai, uma pessoa de caráter controlador, se ressente de Po-Wing ser uma pessoa boêmia e egoísta. Apesar do relacionamento ser fadado ao fracasso, ambos acabam, de tempo em tempo, suprimindo a desconfiança em prol da realização do sonho.

Geralmente, Wong Kar-Wai concebe múltiplos personagens principais. Porém Happy Together é uma exceção, pois o enredo do filme é claramente centrado em Yiu-Fai. A atuação de Tony Leung é surpreendente pela naturalidade com que interpreta seu único personagem homossexual de sua carreira. De emprego em emprego, seu Yiu-Fai está sempre recomeçando. O que ele não consegue é recomeçar um relacionamento. Mas quem se destaca mesmo é Leslie Cheung. Se em Days  of Being Wild, ele havia arrebatado o coração de todas as damas com seu personagem incapaz de amar. Dessa vez, ele rouba a cena com seu personagem incapaz de amar somente a um homem.

A parceria entre Wong Kar-Wai e Christopher Doyle, seu fiel diretor de fotografia, atinge uma maturidade e elegância que só seria superada em In the Mood for Love. O jogo de cores, os enquadramentos, efeitos de câmera buscam amplificar os sentimentos dos personagens, suas angústias, paixões, tristezas, etc.  Além disso, as cenas onde a cidade de Buenos Aires serve de pano de fundo são belíssimas. Uma das cenas mais belas do filme é uma tomada aérea do Obelisco de Buenos Aires em stop motion.

A escolha de Buenos Aires é mais do que justificado e extremamente ressonante com a temática do filme. O tango é um estilo recorrente nas trilhas sonoras dos filmes do diretor, e filmar na Argentina certamente foi um sonho realizado. Outro fato é a cultura liberal de tolerância e respeito aos homossexuais do povo argentino, mesmo que o diretor não abra espaço para uma discussão desse tipo. O que Happy Together realmente é uma exilariante jornada sobre amor e recomeço.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original:春光乍洩 (Chun gwong cha sit)

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Leslie Cheung Kwok-Wing, Tony Leung Chiu-Wai, Chang Chen

23 de junho de 2013

A Better Tomorrow 3: Love & Death in Saigon (Um Dia Melhor 3: Réquiem de Saigon/1989)

abt3 Amor e morte em Saigon.

Uma divergência criativa entre Tsui Hark e John Woo sobre o enredo de A Better Tomorrow 3 levou os dois cineastas a caminhos separados. John Woo ficou com o roteiro e foi filmar Bullet in the Head. Tsui Hark ficou com os direitos de A Better Tomorrow e foi filmar sua visão própria sobre a guerra do Vietnã. Se Bullet in the Head está para Apocalipse Now, A Better Tomorrow 3 está mais para Platoon.

A Better Tomorrow 3 é um prequela do primeiro filme que conta o passado de Mark. O pano de fundo é a guerra do Vietnã e ao longo da projeção acompanhamos as idas e vindas de Mark e suas complexas relações com seu melhor amigo Mun e com a female fatale Ying-Kit. Tsui Hark investe bastante no triângulo amoroso, sendo o elemento primordial que faz mover a história do filme. O contexto da Guerra do Vietnã é muito mal utilizado, mas faz sentido dentro da cronologia da série.

A atuação de Chow Yun-Fat não é tão poderosa quanto nos filmes anteriores, mas ainda sim seu Mark continua sendo um personagem absurdamente carismático. Ver Ying-Kit como uma espécie de tutora de Mark é um deleite para os olhos. Foi uma excelente sacada de Tsui Hark fazer a Chiu-Sing repetir as mesmas acrobacias de Mark. A dinâmica entre Ying-Kit e Mark é o ponto alto do filme. Completando o triângulo temos Tony Leung Ka-Fai interpretando Mun.

Em termos de narrativa e história, o terceiro filme é superior a A Better Tomorrow 2. A narrativa mais fluída nos permite observar com mais profundidade cada uma das faces do triângulo amoroso formado por Mark, Mun e Ying-Kit. Os sentimentos que cada um nutrem pelos outros é muito bem trabalhado pelo diretor e fica ainda mais complicado quando aparece um quarto indivíduo. Mas ao contrário de John Woo, Tsui Hark não transforma essas intricadas relações num turbilhão de emoções, preferindo disseca-las.

Porém, ao fim do primeiro ato, a sensação é de que o filme terminou ali. O segundo ato estranhamente parece mais um epílogo, com os personagens vagando sem um rumo definido. É necessário o terceiro ato para preparar o esperado derramamento de sangue. Porém, Tsui Hark não é John Woo, muito menos tentou imita-lo. O tiroteio final não tem a mesma epicidade e carga dramática, apesar do diretor investir forte no melodrama.

A mudança de direção teve pontos positivos e negativos. De negativo as cenas de tiro medianas. As atuações não são tão viscerais. Porém o filme não recicla o enredo do primeiro filme como foi o segundo, mesmo não aprofundando tanto  a temática da série que sempre buscou discutir qual a essência de um herói. Tsui Hark nos oferece um filme romântico onde exalta o companheirismo entre Mark e Mun. A Better Tomorrow 3 pode não ser um filme que muitos fãs da série esperavam, mas certamente é satisfatório.

Hong Kong feelings: 3/5

Título original:英雄本色III -夕陽之歌(Jing Hung Bun Sik Saam – Zik Joeng Zi Go)

Diretor: Tsui Hark

Elenco: Chow Yun-Fat, Anita Mui Yim-Fong,Tony Leung Ka-Fai, Shih Kien, Tokito Saburo, Maggie Cheung Ho-Yi, Nam Yin