24 de agosto de 2013

Overheard 2 (Overheard 2–Nos Bastidores do Poder/2011)

hkp_overheard2_03  Déjà vu: Daniel Wu (dir.) e Louis Koo (esq.) reencenam passagem de Infernal Affairs

Overheard foi um sucesso comercial e recebeu várias críticas positivas. Para essa sequência, a dupla de diretores Alan Mak e Felix Chong retornam na direção. O trio de atores principais Louis Koo, Lau Ching-Wan e Daniel Wu também retornaram para a franquia. Overheard 2 é uma sequência só no nome, pois a história e os personagens são novos.

No primeiro filme, acompanhamos um suspense sobre três policiais que durante o trabalho tinham em mãos informações privilegiadas e que poderiam obter uma fortuna com essas. Cada um tinha suas motivações para usar aquelas informações, porém havia um preço bem caro a pagar. Porém desta vez, o trio de personagens estão em lados diferentes.

A história do filme é centrada em um grupo de empresários que manipulam a bolsa de valores de Hong Kong conhecido como Landlord Club. Lau Ching-Wan é Manson Law, um dos integrantes desse misterioso clube. Ficamos sabendo que originalmente o clube foi fundado com o objetivo de impedir que grupos estrangeiros lucrassem de forma parasitárias os empresários locais. Porém, o policial Jack Ho investiga Manson Law com o objetivo de obter mais informações sobre as operações ilegais do grupo, mesmo que não tenha provas de sua existência. Em meio a esse conflito, aparece Joe espionando Manson. A princípio suas intenções não são claras, mas a medida que o filme evolui seu personagem se torna central na trama.

Lau Ching-Wan, Louis Koo e Daniel Wu novamente oferecem sólidas atuações. A dinâmica antagônica entre o trio é interessante. Sempre estamos nos perguntando quais são as reais motivações de cada um. Já o vilão deste filme é bem mais interessante e bem melhor interpretado que o de Michael Wong. Kenneth Tsang interpreta muito bem o líder do Landlord Club. Tony é um personagem embriagado pelo poder e pela ganância. Esse pano de fundo relacionado ao mercado financeiro acaba sendo interessante, principalmente com a crise de 2008 ainda bem recente na memória. Mesmo intercalando cenas de perseguição automobilísticas, o filme demora a engrenar. O meio do filme acaba sendo arrastado demais, com muitos diálogos expositivos na tentativa de construir o suspense acerca da intrincada história.

Se o primeiro filme já se parecia muito com uma produção hollywoodiana, a sequência dá um passo a frente nessa direção ao incluir cenas de perseguição dignas do cinema yankee. Novamente o tom cinza impera na narrativa do filme, exceto pelo final quando os personagens são divididos em mocinhos e vilões. Sem problemas com a censura chinesa, Overheard 2 consegue concertar alguns problemas do primeiro filme, principalmente oferecendo uma cena final que não fosse ridículo mesmo sendo politicamente correta. Nessa sequência os diálogos não são tão afiados, porém o filme mantem as boas atuações e uma boa história de suspense.

Hong Kong feelings: 4/5

Título Original: 竊聽風雲2

Diretor: Alan Mak Siu-Fai, Felix Chong Man-Keung

Elenco: Louis Koo Tin-Lok, Lau Ching-Wan, Daniel Wu, Huang Yi, Michelle Ye, Kenneth Tsang Kong,Wu Fung, Lisa Chiao Chiao, Matthew Chow Hoi-Kwong, Wilfred Lau Ho-Lung,Joman Chiang Cho-Man, Kong Ngai, Felix Lok Ying-Kwan, Samuel Kwok Fung, Ben Yuen Fu-Wah, Dion Lam Dik-On, Alex Fong Chung-Sun

26 de junho de 2013

Sparrow (Sparrow/2008)

sparrow

Na cena que abre Sparrow acompanhamos o grupo de batedores de carteira liderado pelo charmoso Kei. Toda a ação do bando é executada com uma sincronia perfeita e uma precisão absurdamente linda . Com uma cena tão simples, Johnnie To já dita o tom divertido do filme e estabelece aqueles personagens.

No seu tempo livre, Kei aproveita para curtir seu hobby de tirar fotos com uma antiga câmera. Porém uma misteriosa mulher cruza o seu caminho, chamando sua atenção. Mas não é somente ele quem ela enfeitiça com seu charme. Por um motivo inicialmente desconhecido, ela também aborda os outros membros do grupo com o mesmo modus operandi.

Apesar da trama ter vários furos, o filme não exige esforço para entender e acompanhar o enredo. Mesmo que a atitude de alguns personagens não faça muito sentido, o que o filme te exige é saber desfrutar uma narrativa divertida e inteligente. Temas caros ao diretor, como companheirismo e honra, são apresentados, porém não são discutidos.

Esta é a obra mais pessoal do diretor. As cenas foram sendo filmadas ao longo de três anos, quase que uma obra indie e com os atores filmando e refilmando cenas a medida que Johnnie To montava o filme entre um trabalho e outro.

Mesmo com uma forte influência do cinema europeu, Johnnie To mantém sua marca registrada. A trilha sonora, que mistura blues e jazz com um toque oriental, é uma das mais fantásticas e envolventes da filmografia de To. A cena final meticuloso, complexo, belo e caótico é uma homenagem ao musical francês Umbrellas of Cherbourg.

Ademais, as atuações são fantásticas, como sempre o uso de diálogos são mínimos. Rostos conhecidos como o de Simon Yam, Lam Suet, Gordon Lam, Lo-Hoi Pang oferecem atuações simplesmente deliciosas. Mas quem realmente se destaca e surpreende é Kelly Lin. A atriz taiwanesa consegue ser mais do que um colírio para os olhos, sua atuação é imprescindível para que o filme todo funcione.

O filme é uma verdadeira carta de amor de Johnnie To à Hong Kong. Cada quadro é filmado com uma beleza e esmero ímpar. A escolha de filmar em áreas onde ainda se mantém uma arquitetura tradicional dá uma atmosfera completamente diferente da metrópole frenética conhecida pelo mundo inteiro. Sparrow é um delicioso sorbet para qualquer fã do diretor saborear.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título Original: 文雀 (Mah Jeuk)

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Simon Yam Tat-Wah, Kelly Lin, Gordon Lam Ka-Tung, Law Wing-Cheong, Kenneth Cheung, Lo Hoi-Pang, Lam Suet

25 de junho de 2013

Happy Together (Felizes Juntos/1997)

happy-together Ao som de tango, Yiu-Fai e Po-Wing bailam.

Com Happy Together, Wong Kar-Wai conseguiu o reconhecimento internacional ao concorrer a Palma de Ouro e ganhar o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. O filme é uma mistura de todos os temas já discutidos pelo diretor em filmes anteriores como Chungking Express e Days of Being Wild, porém em um arranjo autêntico, além de ter sido bem controverso para a época.

Como em quase todos os seus filmes, não existe uma história que conduza o enredo. Novamente, Wong Kar-Wai nos oferece uma jornada extasiante  construída pelo acaso. Dessa vez acompanhamos um casal homossexual tentando reconstruir a relação em um outro lugar, longe de Hong Kong. A cidade escolhida foi Buenos Aires, alimentado pelo sonho de conhecer as Cataratas do Iguaçu.

O que observamos é o amor incompleto e destrutivo que Yiu-Fai (Tony Leung Chi-Wai) nutre por Po-Wing (Leslie Cheung). Yiu-Fai, uma pessoa de caráter controlador, se ressente de Po-Wing ser uma pessoa boêmia e egoísta. Apesar do relacionamento ser fadado ao fracasso, ambos acabam, de tempo em tempo, suprimindo a desconfiança em prol da realização do sonho.

Geralmente, Wong Kar-Wai concebe múltiplos personagens principais. Porém Happy Together é uma exceção, pois o enredo do filme é claramente centrado em Yiu-Fai. A atuação de Tony Leung é surpreendente pela naturalidade com que interpreta seu único personagem homossexual de sua carreira. De emprego em emprego, seu Yiu-Fai está sempre recomeçando. O que ele não consegue é recomeçar um relacionamento. Mas quem se destaca mesmo é Leslie Cheung. Se em Days  of Being Wild, ele havia arrebatado o coração de todas as damas com seu personagem incapaz de amar. Dessa vez, ele rouba a cena com seu personagem incapaz de amar somente a um homem.

A parceria entre Wong Kar-Wai e Christopher Doyle, seu fiel diretor de fotografia, atinge uma maturidade e elegância que só seria superada em In the Mood for Love. O jogo de cores, os enquadramentos, efeitos de câmera buscam amplificar os sentimentos dos personagens, suas angústias, paixões, tristezas, etc.  Além disso, as cenas onde a cidade de Buenos Aires serve de pano de fundo são belíssimas. Uma das cenas mais belas do filme é uma tomada aérea do Obelisco de Buenos Aires em stop motion.

A escolha de Buenos Aires é mais do que justificado e extremamente ressonante com a temática do filme. O tango é um estilo recorrente nas trilhas sonoras dos filmes do diretor, e filmar na Argentina certamente foi um sonho realizado. Outro fato é a cultura liberal de tolerância e respeito aos homossexuais do povo argentino, mesmo que o diretor não abra espaço para uma discussão desse tipo. O que Happy Together realmente é uma exilariante jornada sobre amor e recomeço.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original:春光乍洩 (Chun gwong cha sit)

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Leslie Cheung Kwok-Wing, Tony Leung Chiu-Wai, Chang Chen

23 de junho de 2013

A Better Tomorrow 3: Love & Death in Saigon (Um Dia Melhor 3: Réquiem de Saigon/1989)

abt3 Amor e morte em Saigon.

Uma divergência criativa entre Tsui Hark e John Woo sobre o enredo de A Better Tomorrow 3 levou os dois cineastas a caminhos separados. John Woo ficou com o roteiro e foi filmar Bullet in the Head. Tsui Hark ficou com os direitos de A Better Tomorrow e foi filmar sua visão própria sobre a guerra do Vietnã. Se Bullet in the Head está para Apocalipse Now, A Better Tomorrow 3 está mais para Platoon.

A Better Tomorrow 3 é um prequela do primeiro filme que conta o passado de Mark. O pano de fundo é a guerra do Vietnã e ao longo da projeção acompanhamos as idas e vindas de Mark e suas complexas relações com seu melhor amigo Mun e com a female fatale Ying-Kit. Tsui Hark investe bastante no triângulo amoroso, sendo o elemento primordial que faz mover a história do filme. O contexto da Guerra do Vietnã é muito mal utilizado, mas faz sentido dentro da cronologia da série.

A atuação de Chow Yun-Fat não é tão poderosa quanto nos filmes anteriores, mas ainda sim seu Mark continua sendo um personagem absurdamente carismático. Ver Ying-Kit como uma espécie de tutora de Mark é um deleite para os olhos. Foi uma excelente sacada de Tsui Hark fazer a Chiu-Sing repetir as mesmas acrobacias de Mark. A dinâmica entre Ying-Kit e Mark é o ponto alto do filme. Completando o triângulo temos Tony Leung Ka-Fai interpretando Mun.

Em termos de narrativa e história, o terceiro filme é superior a A Better Tomorrow 2. A narrativa mais fluída nos permite observar com mais profundidade cada uma das faces do triângulo amoroso formado por Mark, Mun e Ying-Kit. Os sentimentos que cada um nutrem pelos outros é muito bem trabalhado pelo diretor e fica ainda mais complicado quando aparece um quarto indivíduo. Mas ao contrário de John Woo, Tsui Hark não transforma essas intricadas relações num turbilhão de emoções, preferindo disseca-las.

Porém, ao fim do primeiro ato, a sensação é de que o filme terminou ali. O segundo ato estranhamente parece mais um epílogo, com os personagens vagando sem um rumo definido. É necessário o terceiro ato para preparar o esperado derramamento de sangue. Porém, Tsui Hark não é John Woo, muito menos tentou imita-lo. O tiroteio final não tem a mesma epicidade e carga dramática, apesar do diretor investir forte no melodrama.

A mudança de direção teve pontos positivos e negativos. De negativo as cenas de tiro medianas. As atuações não são tão viscerais. Porém o filme não recicla o enredo do primeiro filme como foi o segundo, mesmo não aprofundando tanto  a temática da série que sempre buscou discutir qual a essência de um herói. Tsui Hark nos oferece um filme romântico onde exalta o companheirismo entre Mark e Mun. A Better Tomorrow 3 pode não ser um filme que muitos fãs da série esperavam, mas certamente é satisfatório.

Hong Kong feelings: 3/5

Título original:英雄本色III -夕陽之歌(Jing Hung Bun Sik Saam – Zik Joeng Zi Go)

Diretor: Tsui Hark

Elenco: Chow Yun-Fat, Anita Mui Yim-Fong,Tony Leung Ka-Fai, Shih Kien, Tokito Saburo, Maggie Cheung Ho-Yi, Nam Yin

22 de junho de 2013

Return to 36th Chamber (Retorno a 36ª Câmara do Templo Shaolin/1980)

return Chun Jen-Chieh se perfazendo de San Te.

Return to 36th Chamber é uma sequência do excelente The 36th Chamber of Shaolin. Neste filme somos apresentado a um novo personagem principal, porém com uma cara familiar. Chun Jen-Chieh é um artista de rua que tenta enganar os outros como forma de ganha pão. Quando os trabalhadores da tinturaria onde seu irmão trabalha começam a ser oprimidos pelos Machúrios, seus colegas o convencem a se perfazer como lendário monge shaolin San Te para intimidar os opressores.

Claro que tudo dá errado e Chun Jen-Chieh jura aprender kung fu shaolin com o verdadeiro San Te e livrar seus amigos da opressão. Gordon Liu volta a interpretar o papel principal. A princípio é meio confuso essa questão de Gordon Liu de ao mesmo tempo interpretar e não interpretar o seu personagem do filme anterior. Mas sua atuação neste filme mesmo com outro personagem continua igualmente prazeroso e divertido. O monge San Te continua fazendo parte do universo do filme porém interpretado por outro ator e com o status de um respeitado mestre de kung fu shaolin.

O filme tem um ritmo mais cadenciado e adiciona um humor que não havia no original, porém mantendo o elemento forte da série: o nosso herói deverá dominar os desafios da câmara do templo shaolin. No entanto, somente a 36ª Câmara comandada pelo Monge San Te é apresentada ao nosso herói Chu Jen-Chieh. Apesar do tempo de filme menor dedicado ao treinamento e do risco de cair na mesmice, Return to 36th Shaolin Chamber consegue entreter muito com os criativos treinos improvisado.

Return to 36th Chamber,ao invés de seguir a história do monge San Te, busca reaproveitar o mesmo enredo do seu antecessor mas com personagens principais novos. O grande barato do filme era ver justamente o personagem principal superando os desafios de cada câmara do templo shaolin. Dessa vez somos apresentados somente a 36º câmara criada por San Te no filme anterior, mas essa parte do treinamento continua sendo muito divertido. Além disso, o principal “defeito” do primeiro filme é corrigido para a alegria dos puristas que criticavam a falta do embate final entre o herói e o vilão. Vemos Chu Jen-Chieh usar todo o seu kung-fu shaolin improvisado para chutar a bunda do chefe manchúrio, sendo a luta ao mesmo tempo cômico e muito bem coreografado.

Hong Kong feelings: 4/5

Título original: 少林搭棚大師 (Siu Lam Ta Pung Tai Si)

Diretor: Lau-Kar-Leung

Elenco: Gordon Liu Chia-Hui, Johnny Wang Lung-Wei, Chen Szu-Chia, Kara Hui Ying-Hung, Hsiao Hou, Wong Gam-Fung, Cheng Wai-Ho, Wong Ching-Ho, Wa Lun, Lee King Chue, Yau Chiu-Ling, Cheng Miu, Kong Do