30 de outubro de 2012

Motorway (Motorway - Dirigindo sem limites/2012)

motorway‘Need for Speed’ feelings

Motorway é o mais novo filme da Milkyway, produtora do lendário diretor Johnny To. O filme se passa em Hong Kong cuja polícia possui um grupo chamado de “Esquadrão Invisível”, policiais que andam em carros comuns para pegar em flagrante os motoristas que se acham pilotos de corrida.

A trama é a mais genérica possível. Cheung (Shawn Yue) é um dos membros desse esquadrão, e que nas horas vagas é um piloto de racha que tenta fazer justiça com as próprias mãos quando não consegue prender como um agente da lei. Tal vida dupla não traz problemas para ele, inclusive é aceita pelo seu parceiro. O parceiro e mentor do impulsivo Cheung é o veterano policial Lo (Anthony Wong).

Porém tudo muda quando Jiang (Guo Xiaodong) aparece em parceria com o criminoso Wong (Li Hai-To). Jiang é um lendário piloto que nunca foi preso pela polícia. Cheung casualmente tentará prendê-lo, mas no primeiro encontro descobre que sua técnica de pilotagem é muito inferior. Além de preparar com cuidado suas rotas de fuga, Jiang usa técnicas pouco ortodoxas para se livrar de seus perseguidores, como por exemplo criar uma cortina de fumaça queimando os pneus. Apesar de Jiang ser o personagem mais interessante, o papel somente exige de Guo Xiadong uma cara calma de quem tem sempre controle da situação.

No elenco temos nomes familiares em produções da Milkyway. Gordon Lam interpreta o chefe de Cheung e Lo, respectivamente Shawn Yue e Anthony Wong. Assistir o veterano ator é sempre divertido, mesmo sendo clichê dos clichês o seu policial estar contando os dias da aposentadoria. Shawn Yue oferece uma atuação sem falhas, mas nada brilhante por conta de um personagem com desenvolvimento incompleto. O roteiro poderia muito bem explorar a relação ambígua de Cheung com a lei e sua paixão pela velocidade. A relação entre pupilo e mestre funciona graças a boa química que existe entre ambos os atores.

Essa relação entre pupilo e mestre também pode ser estendida a direção. A cada filme que dirige, Soi Cheang mostra nítida evolução nos aspectos técnicos. O diretor parece ter herdado do produtor Johnnie To o talento para filmar cenas visualmente apuradas e impecáveis. Ainda está longe de chegar perto do nível do mestre, precisando evoluir outros aspectos. Mas isso só acontecerá quando aparecer as oportunidades de dirigir projetos mais pessoais.

Do ponto de vista técnico, Motorway é impecável com cenas de perseguição muito bem filmadas, sendo algumas bastante criativas. Porém sendo um filme produzido pela Milkyway, talvez o aspecto decepcionante seja a falta de personagens memoráveis. O personagem mais interessante acaba sendo Jiang, pois sempre ficamos na expectativa do que ele fará para se livrar dos policiais em seu encalço. Ainda que filme recicle várias ideias de filmes, inclusive, da própria produtora, este diverte bastante ao que se propõem.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 車手 (Che Sau)

Diretor: Soi Cheang Pou-Soi

Elenco: Shawn Yue, Anthony Wong Chau-Sang, Guo Xiao-Dong, Barbie Hsu, Michelle Ye, Gordon Lam Ka-Tung, Josie Ho Chiu-Yi, Li Hai-Tao, Li Guagjie, Wilfred Lau Ho-Lung, Anson Leung Chun-Yat.

28 de outubro de 2012

The Untold Story (A história macabra de um restaurante/1993)

untold story Wong afiando o cutelo no esmeril.

Em uma praia de Macau, crianças descobrem uma sacola de feira com diversos membros humanos. Um grupo de policiais liderados pelo Detetive Lee são encarregados por investigar o caso. Uma das mãos pertencia  mãe do ex-dono do restaurante ‘Os Oito Imortais’; ele e a família toda estava desaparecida, assim como vários funcionários do restaurante. The Untold Story é baseado em fatos reais.

As suspeitas caem em cima de Wong, atual dono e um ex-funcionário do próprio restaurante. Apesar dos indícios, os policiais tem um grande problema, pois, não existe provas que incriminem Wong, além dele afirmar veementemente desconhecer o paradeiro do ex-patrão. O que parecia ser um caso simples, se torna complicado pois agora os policiais precisariam ir atrás das provas. Provas que haviam sido transformadas em deliciosos pães recheados e que foram devorados pelos clientes do restaurante. E pelos próprios policiais!

Se alguns filmes de terror acabam sem querer se transformando em filmes de comédia, com The Untold Story não existe tal problema pois o filme abraça com louvor criando uma estranha combinação que por incrível que pareça funciona. O grupo de policiais são retratados como um bando de zero à esquerda. Danny Lee interpreta o detetive playboy que fará de tudo para arrancar uma confissão do Wong.

O serial-killer é interpretado por Anthony Wong. Wong começou sua carreira de ator na televisão, posteriormente entrou para a academia de artes cênicas de Hong Kong. O ator estreou no cinema em 1985, mas o papel em Untold Story foi que catapultou sua carreira. Sua atuação é simplesmente visceral, poucos atores conseguem interpretar o seu nível de psicopatia. Tanto que recebeu o prêmio de melhor ator no Hong Kong Film Awards daquele ano. Um feito e tanto para um filme de baixo orçamento em um gênero pouco conhecido por atuações premiadas.

O filme é perturbador não somente pela atuação de Wong, mas pelo incrível trabalho do diretor Herman Yau. Ao contrário de filmes, como por exemplo ‘O Albergue’, que apelam para uma violência pornográfica, o diretor em nenhum momento mostra de forma explicita as cenas de desmembramento. A câmera, posicionada sempre no limite da ação, é mais do que suficiente para sentirmos repugnância com a situação. Por conta do seu conteúdo extremamente violento, o filme foi classificado na Cat III (Categoria III), indicação que proíbe a exibição para pessoas menores de 18 anos. Essa categoria enquadra a maioria dos filmes B e C produzidos em Hong Kong, além de alguns filmes que o governo julgue conter apologia às tríades.

The Untold Story é filme terror que consegue engajar o expectador com um personagem sensacional interpretado por um doentio Anthony Wong. Ao mesmo tempo que diverte, é necessário ter estômago para conseguir assistir certas cenas.  Uma pena que apesar de algumas tentativas em repetir a fórmula, o cinema de Hong Kong nunca tenha conseguido produzir um filme B com uma qualidade tão boa quanto esta.

Hong Kong feelings: 4/5

Título original: 八仙飯店之人肉叉燒包 (Bat sin fan dim ji yan yuk cha siu bau)

Diretor: Herman Yau Lai-To

Elenco: Anthony Wong Chau-Sang, Danny Lee Sau-Yin, Emily Kwan Bo-Wai, Lau Siu-Ming, Shing Fui-On, Parkman Wong Pak-Man, Yee Fa-Kat, Lam King-Kong, Lee Wah-Yuet, Wong Tin-Fai, Tony Leung Hung-Wah, Cheng Choh-Fai, Lee Yi-Chong, Long Chi, Si Man.

22 de outubro de 2012

PTU (PTU:Unidade de Força Tática/2003)

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Depois de quatro anos fazendo filmes comerciais, principalmente comédia romântica, Johnnie To retorna ao gênero que o consagrou. Para elevar ainda mais a ansiedade dos fãs, entre várias pausas das filmagens o filme levou quase um ano para ser produzido.

O filme começa quando Sargento Lo Sa (Lam Suet) perde sua arma depois de apanhar para um grupo de delinquentes. Um grupo de policiais da PTU se prontificam em ajudar o companheiro à encontrar sua arma. O veterano policial Mike (Simon Yam) lidera o grupo pelas vielas e prédios abandonados de Hong Kong. Já a Inspetora Cheng lidera um grupo de políciais da CID que investiga a morte de Ponytail, chefe do grupo de delinquentes que atacaram Sargento Lo. O método de investigação pouco ortodoxo de ambos os grupos é até certo ponto eficiente, mas questionável. O tom cinza impera entre os personagens, principalmente entre os agentes da lei.

Johnnie To sutilmente discute a disputa de egos que existe entre as facções dentro da polícia de Hong Kong e dentro das tríades. Essas cenas possuem diálogos mínimos como é marca registrada do diretor. Para PTU, Johnny To chamou Lam Suet para interpretar o Sargento Lo, tendo uma das melhores atuações de sua carreira. Simon Yam, outra figura carimbada na filmografia do diretor, imbuí Mike de uma ambiguidade que é fascinante. Ruby Wong e Maggie Siu são adições bem vindas, ao quebrar um pouco o paradigma de um universo tipicamente masculino, apesar de seus personagens não serem tão interessantes assim.

No entanto, o personagem principal do filme sem sombra de dúvidas é uma Hong Kong soturna. Ambientação noturna confere a cidade uma aura completamente diferente da metrópole frenética mundialmente conhecida. E dentro dela acompanhamos as idas e vindas de dois grupos de patrulha da Unidade de Força Tática (PTU), outro grupo da Divisão de Investigação Criminal (CID), duas facções da tríade e o Sargento Lo nadando entre esses tubarões. Nessa longínqua noite, uma espiral de eventos acaba culminando em uma verdadeira guerra.

No entanto, o final é totalmente anticlimático. A cena final de profunda ironia não é o problema, pelo contrário. Mas a reviravolta envolvendo Mike é bem decepcionante, principalmente por apelar para o clichê do novato relembrando o veterano do seu dever como policial. Outro problema do filme é o seu ritmo excessivamente cadenciado. Mas o esmero visual com que Johnnie To filma as cenas compensam em parte os problemas.

PTU não é um filme brilhante, não chega nem perto da obra-prima The Mission.  Porém, o diretor oferece uma visão ímpar de Hong Kong, serena mas igualmente perigosa.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: PTU

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Simon Yan Tat-Wah, Lam Suet, Maggie Siu Mei-Kei, Ruby Wong Cheuk-Ling, Raymond Wong Ho-Yin, Eddie Ko Hung, Wong Tin-lam, Lo Hoi-Pong, Kenneth Cheung.

11 de outubro de 2012

City on Fire (Perigo Extremo/1987)

image Danny Lee (esquerda) e Chow Yun-Fat (direita): amigos ou inimigos?

A parceria entre Chow Yun-Fat e John Woo foi uma das mais vitoriosas do cinema de Hong Kong. Mas outro diretor que teve um papel importante na carreira do ator foi certamente Ringo Lam. Em City on Fire, o diretor preferiu investir no drama, com poucas cenas de tiro e nenhuma chegando perto do nível técnico estabelecido por John Woo.

Neste filme, Chow Yun-Fat é o policial Ko Chow que age infiltrado no submundo do crime. O filme explora o conflito moral de Ko, pois este sabe que a qualquer momento terá que prender aqueles com quem construiu laços de lealdade. Apesar de Ko Chow estar cansado dessa vida dupla, Inspetor Lau (Sun Yueh) sempre insiste em um último trabalho. Além disso sua namorada Hung (Carrie Ng) lhe dá um ultimato. Para a angústia de Ko, ele acaba sempre aceitado colocar o chamado do dever acima de sua felicidade.

Eventualmente Ko Chow se torna amigo de Fu, um ladrão de joalherias, interpretado por Danny Lee. Ambos tem bastante características em comum, aliado à atuação carismática de seus respectivos atores, o que torna o destino dessa amizade bastante trágica.  Ao mesmo tempo, o policial infiltrado tem sob seu encalço um detetive novato e extremamente ambicioso interpretado por Roy Cheung que quer ocupar a posição do Inspetor Lau. A tensão é muito bem construída até o seu clímax, onde Ko deverá fazer sua derradeira escolha entre lealdade e justiça.

Ringo Lam consegue explorar toda a versatilidade de Chow Yun-Fat. Ao lidar com cada vez mais dilemas, o seu personagem vai se tornando mais angustiado. Nos simpatizamos com Ko ainda mais quando Chow transmite um fio de esperança nos momentos que o personagem se permite descontrair por um breve momento antes que a sua vida de policial infiltrado caia como um martelo em sua cabeça.

Para quem já viu Cães de Aluguel, dentre as milhares de referências que o filme de Tarantino faz algumas são em relação à City on Fire. Por exemplo, os eventos após um desastrado assalto à uma joalheria. O próprio diretor estadunidense é um fã assumido deste filme.

City on Fire investe em uma trama rica com diversos choques de interesses entre os vários personagens. Esses diversos personagens, inclusive os secundários, são bens desenvolvidos. Chow Yun-Fat e Danny Lee oferecem sólidas atuações, mesmo não sendo suas melhores. Outro que está acima da média é o subestimado e versátil Roy Cheung que transforma o seu detetive em um personagem extremamente detestável. Com poucos defeitos, City on Fire é um dos melhores filmes de Ringo Lam. Uma pena que o diretor tenha cruzado o Pacífico para ser diretor de Jean Claude Van Damme em filmes, na sua maioria, lançados diretos para o mercado de DVD.

Hong Kong feelings: 4/5

Título orignal: 龍虎風雲 (Lung Fu Fong Wan)

Diretor: Ringo Lam Ling-Tung

Elenco: Chow Yun-Fat, Danny Lee Sau Yin, Roy Cheung Yiu-Yeung, Sun Yueh, Carrie Ng Kai-Lai, Ho Ka-Hui, Tsui Kam-Kong, Lau Kong, Parkman Wong Pak-Man, Tommy Wong Kwong-Leung, Maria Cordero.

16 de setembro de 2012

Drunken Master (O Mestre Bêbado/1978)

drunkenmaster Jackie Chan (direita) e Hwang Jan-Lee (esquerda) brigam por bebida.

Drunken Master conta a história do herói Wong Fei-Hong quando jovem. Interpretado por Jackie Chan, Wong Fei-Hung é retratado como um artista marcial com grande potencial, mas que possui uma arrogância da mesma proporção que seu talento. Isso o leva a arrumar todos os tipos de confusão para o desespero do pai, Wong Kei-Ying. Este último decide mandar seu filho para ser treinado por Beggar So, um velho bebum que nas horas vagas é um grande mestre de kung-fu.

O elenco tem renomados nomes. A destacar Yuen Hsia-Ten, veterano ator da Ópera de Pequim e pai do diretor. Apesar da idade avançada Yuen pai mostra desenvoltura nas cenas que exigem mais de seu físico. A atuação é divertida retratando muito bem um velhinho inofensivo, mas que na verdade é um grande mestre kung-fu do estilo “Os Oito Imortais Bêbados”. Outro destaque do elenco é Hwang Jan-Lee, famoso por ser um especialista em chutes extremamente potentes e violentos tendo a alcunha de Senhor dos super-chutes. No filme Hwang Jan-Lee é o formidável assassino Yan. Claro que Jackie Chan e ele duelam no filme, inclusive duas vezes, e certamente são os pontos altos do filme.

Mesmo com um elenco secundário de peso, Jackie Chan não faz feio. Inclusive a cena impagável do filme é dele ao imitar a Imortal Ho. Desde jovem, Chan já mostrava ser um ator extremamente carismático. Além disso, as cenas de luta que utilizam os objetos do cenário como armas estão no filme. São simples, nada que seja tão complexo como em seus filmes posteriores, mas ainda sim divertem. Com uma boa atuação e sólido desempenho nas cenas de luta, a carreira de Jackie Chan decolou a partir de Drunken Master. Do começo como dublê do Bruce Lee, ele galgou até a posição de astro de Hollywood.

Dirigido pelo lendário coreógrafo Yuen Woo-Ping, infelizmente o filme está anos-luz de ser lendário. Produzido e filmado em menos de três meses, o filme apresenta problemas visíveis de edição em diversas cenas e uma trilha sonora quase inexistente. No entanto, no quesito em que é quase uma divindade no panteão do cinema de Hong Kong, Yuen Woo-Ping mostra todo o seu talento. A coreografia das cenas de luta são boas, sendo as cenas que envolvem o estilo de kung-fu bêbado as melhores.

O filme Drunken Master tem as cenas de luta como ponto positivo e negativo. São bem coreografadas mas sofrem de uma fraca edição. As atuações são boas, mas nada excepcional. No geral Drunken Master é um filme abaixo da média dentro da filmografia de Jackie Chan. Mas ainda sim, o filme foi um marco que direcionou a carreira de Jackie Chan para filmes que misturassem comédia e artes marciais. Vale a pena conferir os malabarismos de um jovem Chan e observar o quanto ele evoluiu na parte técnica e na atuação.

Hong Kong feelings: 2,5/5

Título original: 醉拳 (Jui Keun)

Diretor: Yuen Woo-Ping

Atores: Jackie Chan, Simon Yuen Hsia-Ten, Hwang Jang-Lee, Hsu Hsia, Dean Shek Tin.