22 de outubro de 2012

PTU (PTU:Unidade de Força Tática/2003)

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Depois de quatro anos fazendo filmes comerciais, principalmente comédia romântica, Johnnie To retorna ao gênero que o consagrou. Para elevar ainda mais a ansiedade dos fãs, entre várias pausas das filmagens o filme levou quase um ano para ser produzido.

O filme começa quando Sargento Lo Sa (Lam Suet) perde sua arma depois de apanhar para um grupo de delinquentes. Um grupo de policiais da PTU se prontificam em ajudar o companheiro à encontrar sua arma. O veterano policial Mike (Simon Yam) lidera o grupo pelas vielas e prédios abandonados de Hong Kong. Já a Inspetora Cheng lidera um grupo de políciais da CID que investiga a morte de Ponytail, chefe do grupo de delinquentes que atacaram Sargento Lo. O método de investigação pouco ortodoxo de ambos os grupos é até certo ponto eficiente, mas questionável. O tom cinza impera entre os personagens, principalmente entre os agentes da lei.

Johnnie To sutilmente discute a disputa de egos que existe entre as facções dentro da polícia de Hong Kong e dentro das tríades. Essas cenas possuem diálogos mínimos como é marca registrada do diretor. Para PTU, Johnny To chamou Lam Suet para interpretar o Sargento Lo, tendo uma das melhores atuações de sua carreira. Simon Yam, outra figura carimbada na filmografia do diretor, imbuí Mike de uma ambiguidade que é fascinante. Ruby Wong e Maggie Siu são adições bem vindas, ao quebrar um pouco o paradigma de um universo tipicamente masculino, apesar de seus personagens não serem tão interessantes assim.

No entanto, o personagem principal do filme sem sombra de dúvidas é uma Hong Kong soturna. Ambientação noturna confere a cidade uma aura completamente diferente da metrópole frenética mundialmente conhecida. E dentro dela acompanhamos as idas e vindas de dois grupos de patrulha da Unidade de Força Tática (PTU), outro grupo da Divisão de Investigação Criminal (CID), duas facções da tríade e o Sargento Lo nadando entre esses tubarões. Nessa longínqua noite, uma espiral de eventos acaba culminando em uma verdadeira guerra.

No entanto, o final é totalmente anticlimático. A cena final de profunda ironia não é o problema, pelo contrário. Mas a reviravolta envolvendo Mike é bem decepcionante, principalmente por apelar para o clichê do novato relembrando o veterano do seu dever como policial. Outro problema do filme é o seu ritmo excessivamente cadenciado. Mas o esmero visual com que Johnnie To filma as cenas compensam em parte os problemas.

PTU não é um filme brilhante, não chega nem perto da obra-prima The Mission.  Porém, o diretor oferece uma visão ímpar de Hong Kong, serena mas igualmente perigosa.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: PTU

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Simon Yan Tat-Wah, Lam Suet, Maggie Siu Mei-Kei, Ruby Wong Cheuk-Ling, Raymond Wong Ho-Yin, Eddie Ko Hung, Wong Tin-lam, Lo Hoi-Pong, Kenneth Cheung.

11 de outubro de 2012

City on Fire (Perigo Extremo/1987)

image Danny Lee (esquerda) e Chow Yun-Fat (direita): amigos ou inimigos?

A parceria entre Chow Yun-Fat e John Woo foi uma das mais vitoriosas do cinema de Hong Kong. Mas outro diretor que teve um papel importante na carreira do ator foi certamente Ringo Lam. Em City on Fire, o diretor preferiu investir no drama, com poucas cenas de tiro e nenhuma chegando perto do nível técnico estabelecido por John Woo.

Neste filme, Chow Yun-Fat é o policial Ko Chow que age infiltrado no submundo do crime. O filme explora o conflito moral de Ko, pois este sabe que a qualquer momento terá que prender aqueles com quem construiu laços de lealdade. Apesar de Ko Chow estar cansado dessa vida dupla, Inspetor Lau (Sun Yueh) sempre insiste em um último trabalho. Além disso sua namorada Hung (Carrie Ng) lhe dá um ultimato. Para a angústia de Ko, ele acaba sempre aceitado colocar o chamado do dever acima de sua felicidade.

Eventualmente Ko Chow se torna amigo de Fu, um ladrão de joalherias, interpretado por Danny Lee. Ambos tem bastante características em comum, aliado à atuação carismática de seus respectivos atores, o que torna o destino dessa amizade bastante trágica.  Ao mesmo tempo, o policial infiltrado tem sob seu encalço um detetive novato e extremamente ambicioso interpretado por Roy Cheung que quer ocupar a posição do Inspetor Lau. A tensão é muito bem construída até o seu clímax, onde Ko deverá fazer sua derradeira escolha entre lealdade e justiça.

Ringo Lam consegue explorar toda a versatilidade de Chow Yun-Fat. Ao lidar com cada vez mais dilemas, o seu personagem vai se tornando mais angustiado. Nos simpatizamos com Ko ainda mais quando Chow transmite um fio de esperança nos momentos que o personagem se permite descontrair por um breve momento antes que a sua vida de policial infiltrado caia como um martelo em sua cabeça.

Para quem já viu Cães de Aluguel, dentre as milhares de referências que o filme de Tarantino faz algumas são em relação à City on Fire. Por exemplo, os eventos após um desastrado assalto à uma joalheria. O próprio diretor estadunidense é um fã assumido deste filme.

City on Fire investe em uma trama rica com diversos choques de interesses entre os vários personagens. Esses diversos personagens, inclusive os secundários, são bens desenvolvidos. Chow Yun-Fat e Danny Lee oferecem sólidas atuações, mesmo não sendo suas melhores. Outro que está acima da média é o subestimado e versátil Roy Cheung que transforma o seu detetive em um personagem extremamente detestável. Com poucos defeitos, City on Fire é um dos melhores filmes de Ringo Lam. Uma pena que o diretor tenha cruzado o Pacífico para ser diretor de Jean Claude Van Damme em filmes, na sua maioria, lançados diretos para o mercado de DVD.

Hong Kong feelings: 4/5

Título orignal: 龍虎風雲 (Lung Fu Fong Wan)

Diretor: Ringo Lam Ling-Tung

Elenco: Chow Yun-Fat, Danny Lee Sau Yin, Roy Cheung Yiu-Yeung, Sun Yueh, Carrie Ng Kai-Lai, Ho Ka-Hui, Tsui Kam-Kong, Lau Kong, Parkman Wong Pak-Man, Tommy Wong Kwong-Leung, Maria Cordero.

16 de setembro de 2012

Drunken Master (O Mestre Bêbado/1978)

drunkenmaster Jackie Chan (direita) e Hwang Jan-Lee (esquerda) brigam por bebida.

Drunken Master conta a história do herói Wong Fei-Hong quando jovem. Interpretado por Jackie Chan, Wong Fei-Hung é retratado como um artista marcial com grande potencial, mas que possui uma arrogância da mesma proporção que seu talento. Isso o leva a arrumar todos os tipos de confusão para o desespero do pai, Wong Kei-Ying. Este último decide mandar seu filho para ser treinado por Beggar So, um velho bebum que nas horas vagas é um grande mestre de kung-fu.

O elenco tem renomados nomes. A destacar Yuen Hsia-Ten, veterano ator da Ópera de Pequim e pai do diretor. Apesar da idade avançada Yuen pai mostra desenvoltura nas cenas que exigem mais de seu físico. A atuação é divertida retratando muito bem um velhinho inofensivo, mas que na verdade é um grande mestre kung-fu do estilo “Os Oito Imortais Bêbados”. Outro destaque do elenco é Hwang Jan-Lee, famoso por ser um especialista em chutes extremamente potentes e violentos tendo a alcunha de Senhor dos super-chutes. No filme Hwang Jan-Lee é o formidável assassino Yan. Claro que Jackie Chan e ele duelam no filme, inclusive duas vezes, e certamente são os pontos altos do filme.

Mesmo com um elenco secundário de peso, Jackie Chan não faz feio. Inclusive a cena impagável do filme é dele ao imitar a Imortal Ho. Desde jovem, Chan já mostrava ser um ator extremamente carismático. Além disso, as cenas de luta que utilizam os objetos do cenário como armas estão no filme. São simples, nada que seja tão complexo como em seus filmes posteriores, mas ainda sim divertem. Com uma boa atuação e sólido desempenho nas cenas de luta, a carreira de Jackie Chan decolou a partir de Drunken Master. Do começo como dublê do Bruce Lee, ele galgou até a posição de astro de Hollywood.

Dirigido pelo lendário coreógrafo Yuen Woo-Ping, infelizmente o filme está anos-luz de ser lendário. Produzido e filmado em menos de três meses, o filme apresenta problemas visíveis de edição em diversas cenas e uma trilha sonora quase inexistente. No entanto, no quesito em que é quase uma divindade no panteão do cinema de Hong Kong, Yuen Woo-Ping mostra todo o seu talento. A coreografia das cenas de luta são boas, sendo as cenas que envolvem o estilo de kung-fu bêbado as melhores.

O filme Drunken Master tem as cenas de luta como ponto positivo e negativo. São bem coreografadas mas sofrem de uma fraca edição. As atuações são boas, mas nada excepcional. No geral Drunken Master é um filme abaixo da média dentro da filmografia de Jackie Chan. Mas ainda sim, o filme foi um marco que direcionou a carreira de Jackie Chan para filmes que misturassem comédia e artes marciais. Vale a pena conferir os malabarismos de um jovem Chan e observar o quanto ele evoluiu na parte técnica e na atuação.

Hong Kong feelings: 2,5/5

Título original: 醉拳 (Jui Keun)

Diretor: Yuen Woo-Ping

Atores: Jackie Chan, Simon Yuen Hsia-Ten, Hwang Jang-Lee, Hsu Hsia, Dean Shek Tin.

27 de agosto de 2012

Initial D (Initial D–Velocidade sem limite/2005)

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Initial D é a adaptação live-action do mangá/anime homônimo. A adaptação foi filmada toda no Japão, o que revela um esforço dos produtores em se manter o mais fiel possível à obra original. O filme marca a estreia da estrela pop taiwanesa Jay Chou como ator. Além disso é dirigido pela dupla Andrew Lau e Alan Mak, diretores de Infernal Affairs.

O filme conta a história de Takumi (Jay Chou), um estudante colegial japonês que gasta seu tempo livre trabalhando no posto de gasolina. Seu melhor amigo Itsuki (Chapman To) é filho do dono do posto, além de ser o alívio cômico. Takumi tem uma queda pela colega de classe Natsuki (Anne Suzuki), mas sua grande paixão é mesmo descer pelas sinuosas estradas do monte Akina. Porém o seu talento não foi talhado pela vontade de superar seus limites competindo com outros, mas sim pela cruel rotina imposta por seu pai Bunta (Anthony Wong) de entregar tofu sempre às quatro da matina. Tal fato justifica a ignorância dos corredores locais sobre o seu grande talento para o drift.

Em um certo momento, seu talento acima do normal é descoberto e diversos corredores de outras vizinhanças começam a aparecer para desafiá-lo. E assim Takumi é introduzido nos rachas. O filme gasta bastante tempo desenvolvendo os pontos que fazem Takumi ser um exímio piloto de drift. Se a história sobre Takumi consegue ser interessante, o mesmo não se pode dizer do personagem em si. Um dos grandes problemas do filme é a impossibilidade de simpatizarmos com o personagem pela sua personalidade totalmente apática. Também não colabora a escolha do ator para interpretá-lo, pois Jay Chou se encaixa bem até demais. A falta de expressividade escancara as limitações do astro pop. E para piorar, Chou não é fluente em cantonês o que compromete ainda mais sua atuação, inclusive muitas de suas falas foram dubladas posteriormente,. Para não ser injusto, sua atuação evolui ao longo do filme, passa de insuportável para indiferente no final.

Outro personagem que tem sua quota de problemas é Ryosuke Takahashi. Ele é peça fundamental para o desenvolvimento de Takumi como piloto, mas poucas informações sobre ele são informadas. Além disso seu tempo em cena é um dos menores dentre os personagens secundários, apesar de ser um dos mais importantes. Quanto ao ator, Edison Chen faz um trabalho satisfatório.

Apesar dos pontos negativos, o filme tem carisma suficiente para que possamos nos engajar com as situações desenroladas. Méritos dos diretores que não transformaram o filme em um desfile de carros alegóricos dirigidos por personagens caricatos. O desenvolvimento da trama vai ficando interessante cada vez que descobrimos o que faz de Takumi um exímio piloto mesmo sendo somente um simples entregador de tofus. Além de tornar completamente plausível o fato dele reinar soberano mesmo com um carro muito mais limitado e nunca ter competido antes com outros pilotos. Também divertido é a atuação de Anthony Wong que interpreta interpreta Bunta, o pai de Takumi e dono de uma loja que vende tofu. A atuação de Wong com um sotaque japonês bizarro está impagável. Kenny Bee também se destaca como dono do posto de gasolina onde Takumi trabalha, além de ser rival e camarada de Bunta. Parte da graça do filme está exatamente nessa dupla de veteranos. Mas ainda sim suas atuações não são capazes de elevar o nível do filme.

O grande atrativo mesmo do filme são as cenas de drift. São muito bem montadas ainda mais considerando-se a limitação orçamentária, mas não chegam a ser espetaculares. As cenas tem algumas sacadas interessantes ao explicar a dinâmica das estratégias em vários momentos chaves das disputas. Enfim, o filme consegue ser divertido com sua trama simples e linear, porém completamente esquecível.

Hong Kong feelings: 3/5

Título original: 頭文字 D (Tau Man Ji D)

Diretores: Andrew Lau Wai-Keung, Alan Mak Siu-Fai

Elenco: Jay Chou, Edison Chen, Anne Suzuki, Anthony Wong Chau-Song, Chapman To Man-Chat, Shawn Yue, Jordan Chan Siu-Chun, Kenny Bee, Liu Genghong, Chie Tanaka, Tsuyoshi Abe.

16 de julho de 2012

Eighth Happiness (A derradeira felicidade/1988)

8happinness Chow Yun-Fat jogando todo o seu charme na colega de classe.

O festival lunar, conhecido como o ano novo chinês, é um período de festejos com muita comida e reuniões familiares. Um período também muito auspicioso para encontrar o amor da sua vida. Para aproveitar esse clima auspicioso, é tradição do cinema de Hong Kong sempre lançar filmes de comédia românticas nesse período. Em 1988, Eighth Happiness foi certamente o grande filme de comédia romântica.

Eight Happiness segue a fórmula padrão de comédia romântica. O mocinho principal conhece a mocinha de forma atípica. Os dois saem para se conhecer melhor. Algumas confusões acontecem que os fazem se separar, até que no final o casal acerta as arestas. Mas impossível detestar o filme, pois ele é muito bem filmado. Além disso o filme consegue surpreender em alguns pontos, principalmente o personagem de Chow Yun-Fat. Long tem um jeito pouco ortodoxo de se aproximar das mulheres. Chow Yun-Fat interpreta muito bem os trejeitos afeminados sem descambar totalmente para o ridículo. Além disso o personagem é o maior mulherengo da área, mesmo estando noivo da linda Do-Do (Carol Cheung).

Long possui um irmão mais velho e outro mais novo, com os três morando no mesmo teto. Fong (Raymond Wong) é uma espécie de patriarca e apresentador de um programa de culinária. Ele é um trintão que nunca namorou e um tanto desajeitado socialmente. Ele acaba se apaixonando pela cantora de ópera chinesa Hu Hsiu-Fang (Fung BoBo).  Ela tem um filho que não faz nenhuma cerimônia na hora de mostrar toda a falta de afeição pelo novo pretendente da mãe.

O diretor do filme é Johnnie To. Muito antes de fundar sua produtora Milkaway e se tornar um mestre de filmes de tríades, Johnnie To ainda dava seus primeiros passos como diretor em filmes comerciais. Mas sua habilidade em extrair o melhor dos atores é notório, mesmos em projetos mais limitados como esse. Jacky Cheung é o maior exemplo. Um ator que tende sempre ao exagero, oferece uma equilibrada interpretação de San, o irmão mais novo da trupe. Outra que se beneficia de um competente diretor é Cherie Chung que interpreta a beldade da loja departamental que nas horas vagas é tão louca quanto Long.

Entre indas e vindas, os três irmãos passarão por ilusões e desilusões amorosas, recheada de muitas risadas. Apesar dos vários personagens, as sub-tramas são simples, mas nada memorável. O filme todo não é memorável, de forma alguma chega perto dos filmes de Stephen Chow. No entanto, ainda sim é capaz de entreter e render boas risadas. Quem rouba a cena é certamente Chow Yun-Fat, seu personagem mulherengo e afeminado é simplesmente impagável. Para quem estiver atento, o filme tem algumas referências a A Better Tomorrow, inclusive com uma aparição mais do que especial no fim da última cena.

Hong Kong feelings: 3,5/5 

Título original:八星報喜 (Baat Seng Bou Hei)

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Chow Yun-Fat, Raymond Wong Bak-Ming, Jacky Cheung Hok-Yau, Carol Cheng Yu-Ling, Cherie Chung Cho-Hung, Fung Bo-Bo, Michael Chow Man-Kin, Fennie Yuen Kit-Ying, Lawrence Cheng Tan-Shui, Karl Maka, Kwan Yuen Wong.