16 de janeiro de 2012

Shaolin Soccer (Kung-Fu Futebol Clube/2001)

shaolin_soccer2 De acordo com Stephen Chow, Super Campões foi uma inspiração para o filme. Bola dentro!

Shaolin Soccer detém o recorde de maior bilheteria de um filme produzido em Hong Kong. E também é o filme de maior sucesso internacional, inclusive foi exibido nas salas de cinema brasileiras. Tamanho sucesso é precedido de um dos melhores filmes de Stephen Chow.

Para os fãs de Chow, Shaolin Soccer navega em águas conhecidas, ou seja, é certo risadas do começo até o fim. O personagem principal já foi tantas vezes interpretado por Chow que ele encarna com naturalidade o herói ingênuo mas determinado em alcançar seus objetivos. Outro elemento tradicional em sua filmografia é Ng Man-Tat que dessa vez interpreta um técnico em busca de redenção.

Mas o filme também tem novidades e a maior delas é a utilização de cenas em computação gráfica. Não são realistas, mas na maior parte das vezes são bem feitas ocasionando mínima distração. Stephen Chow, que também é o diretor do longa metragem, consegue fazer bom uso da tecnologia criando cenas hilárias que remetem às animações japonesas. No entanto o que sempre torna os filmes de Stephen Chow únicos é a temática que nunca se repete.

Pelo título é obvio que o tema do filme é uma mistura de futebol e kung-fu. Stephen Chow interpreta Sing cuja meta é tornar o kung-fu relevante novamente na sociedade moderna. No começo do filme ele encontra Fung, um ex-jogador de futebol que teve sua carreira finalizada ao perder um pênalti, pois torcedores enraivecidos quebraram sua perna. Porém a primeira meia-hora é um tanto quanto arrastado pois o filme gasta esse tempo para apresentar os personagens sem nenhum desenvolvimento da trama. O filme é mais cadenciado se comparado com os filmes anteriores de Chow, mas ainda sim suas uma hora e cinquenta de duração passa rápido.

Stephen Chow é o centro das atenções neste filme, mas permite que o elenco de suporte possa também se destacar. É legal assistir o desenvolvimento de Sing e seus companheiros de shaolin como um time de futebol. Também há de se destacar as homenagens ao Bruce Lee. Como diretor, Chow consegue mesclar perfeitamente elementos do humor norte-americano e do humor cantonês. Shaolin Soccer é um golaço com uma diversão descompromissada.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título original: 少林足球 (Siu Lam Juk Kau)

Diretor: Stephen Chow Sing-Chi

Elenco: Stephen Chow Sing-Chi, Vicki Zhao Wei, Ng Man-Tat, Patrick Tse Yin, Wong Yat-Fei, Tin Kai-Man, Lam Chin-Sin, Lam Chi-Chung, Chan Kowk-Kwan

9 de janeiro de 2012

A Better Tomorrow (Um dia melhor/1986)

better_tomorow_1 Icônica cena de Chow Yun-Fat acendendo um cigarro com uma nota falsa de cem dólares

Existe um seleto grupo de filmes que marca uma geração inteira. Selam uma longínqua parceria entre diretor e ator. Capaz de revitalizar a carreira do diretor e elevar o ator para o estrelato. O filme é A Better Tomorrow, dirigido por John Woo e estrelado por Chow Yun-Fat. Além disso, pode-se afirma que foi o percussor de um gênero, o heroic bloodshed. Em tradução literal para o português: derramamento de sangue heróico.

O filme conta a história de dois gangsteres de Hong Kong. Ho (Ti Lung) e Mark (Chow Yun-Fat) possuem um próspero negócio de falsificação de dinheiro. Ho possui um irmão mais novo chamado Kit (Leslie Cheung) e que está prestes a graduar na academia de polícia. Apesar de estarem em lados opostos da lei, Kit desconhece das atividades ilícitas do irmão, inclusive o adora. O pai preocupado que um dia ambos os filhos sejam obrigados a defenderem seus respectivos interesses pede a Ho que abandone a vida criminosa. Ho decide então por um último golpe.

O que se sucede é Ho, Mark e Kit caindo em desgraça em diferentes níveis, abalando a relação do trio. Temos Chow Yun-Fat interpretando brilhantemente Mark no topo do poder assim como no fundo do poço. Seu personagem segue um inabalável código de honra mesmo tendo o pior dos destinos. Ho se vê atormentado pelos vários fantasmas do passado enquanto tenta lidar com os problemas presentes. Não há como não simpatizar pelo personagem interpretado por Li Tung. Leslie Cheung é um ator com limitações e que são expostas nos momentos mais melodramáticos, mas isso não compromete o filme pelo contrário. Sua atuação é boa, mas incapaz de se equiparar ao nível de outros dois protagonistas.

Infelizmente, o filme tem seus problemas. O tiroteio final acaba decepcionando. Apesar de ser tão bem executado quanto a magistral sequência no restaurante, a cena é pálida quando comparado com suas obras posteriores. Outra questão diz respeito ao vilão do filme. Suas ações são suficientemente efetivas para colocá-lo como uma antítese de Mark e Ho, mas em nenhum momento o filme discute suas motivações por detrás de seus atos. São problemas perceptíveis que impedem que o filme seja perfeito.

Mas ainda sim é indiscutível a genialidade de John Woo ao transportar a temática muito explorada em filmes de artes marciais para a sociedade moderna. No lugar das espadas, pistolas são empunhadas. O título em chinês significa essência de um herói. E o heroico aqui não é se reerguer depois um tombo. O filme busca um caminho mais tortuoso. A essência é não deixar que seus valores e princípios serem destruídos qualquer que seja a circunstância imposta. É colocar a amizade e família acima de tudo. Mesmo que seja necessário o uso de violência.

A Better Tomorrow possui temas ressonantes e uma boa narrativa. O produto final não é tão polido, assim como, as emoções são cruas demais. Mas o seu grande trunfo é as cenas de ações não sobrepujarem os outros elementos do filme. Esta possui um importante papel no desenrolar da trama. O filme emerge vitorioso com bons personagens e uma boa história.

Hong Kong Feelings: 4/5

Título original: 英雄本色 (Ying Hung Boon Sik)

Diretor: John Woo

Elenco: Chow Yun-Fat, Ti Lung, Leslie Cheung Kwok-Wing, Waise Lee Chi-Hung, Shing Fui-On, Emily Chu Bo-Yee

1 de janeiro de 2012

Running Out of Time (Jogo da Vingança/1999)

running_out_of_time_1 (1)  Andy Lau e Lau Ching-Wan duelam no filme dirigido por Johnny To.

Um misterioso ladrão rouba diamantes de uma companhia financeira. Porém a ação é executada de forma extravagante, chamando atenção de um inteligente policial. Este último então é atraído para um jogo de gato e rato pelo próprio ladrão. Nas próximas 72 horas o policial tentará descobrir suas motivações e seus objetivos.

O enredo intriga o expectador, mas o núcleo do filme está nos dois atores principais. Lau Ching-Wan interpreta inspetor Ho. O carismático ator personifica um inteligente policial que prefere usar o cérebro a portar uma arma. O seu personagem é viciado em trabalho, mas é visível o tédio com as tarefas cotidianas. Porém a monotonia é quebrada com a aparição do ladrão Cheung.

Apesar de ser um oponente de Ho, Cheung não é o vilão do filme. Este papel cabe ao personagem de Waise Lee, Baldy. Na verdade Cheung pode ser retratado como um rival do policial, alguém que é capaz de rivalizar com a inteligência deste último. Interpretado convincentemente por Andy Lau, este personagem também foi um ponto de inflexão em sua carreira. A partir deste filme Andy Lau ganhou o respeito dos críticos e construiu sólidas atuações em filmes posteriores. Com uma excelente atuação, o pop star conseguiu o prêmio de melhor ator. Se antes era criticado pelo exagero, neste filme ele consegue equilibrar charme e perspicácia.

A química entre Andy Lau e Lau Ching-Wan é fantástica, construindo de forma perfeita o respeito mútuo e a rivalidade. Ambos conseguem cativar o expectador a ponto de criar dúvida para quem torcer a cada embate. Já os personagens secundários muita das vezes servem somente como figurantes. Hiu Sing-Hung interpreta o inspetor-chefe Wong. Devido a lerdeza, para não dizer estupidez, o superior é incapaz de obter o respeito de seu inteligente subordinado. Do outro lado, temos YoYo Mung fazendo par romântico com Andy Lau. As cenas são singelas e poucas, mas o romance é tocante. Como mencionado anteriormente, o filme tem um vilão, mas, que ganha importância somente no ato final. É só uma necessidade criada pelo roteiro, tanto que o capanga interpretado por Lam Suet tem mais personalidade que ele.

Se a utilização dos personagens secundários é econômica, o mesmo pode ser dito para a direção de Johnny To. Apesar disso o filme é visualmente impecável. A trilha sonora é efetiva para cada situação, mas não é memorável.

Running Out of Time, com uma trama inteligente, é um divertido exercício do gênero. Apesar da história e personagens serem enxutos, tudo isso permite que dois atores principais possam brilhar soberanos em seus respectivos papéis. Além disso, o romance entre os personagens de Andy Lau e YoYo Mung consegue ser muito mais efetivo que muitos filmes românticos. O filme tem seus defeitos, principalmente furos no roteiro. Mas não há como terminar de assistir a cena final sem um sorriso de satisfação.

Hong Kong feelings: 4/5

Título original: 暗戰 (Am Zin)

Diretor: Johnny To

Elenco: Lau Ching-Wan, Andy Lau Tak-Wah, YoYo Mung, Hui Siu-Hung, Waise Lee Chi-Hung, Lam Suet, Ruby Wong Cheuk-Ling.

16 de dezembro de 2011

Infernal Affairs II (Conflitos Internos II/2003)

IA2  Shawn Yue (esquerda) e Anthony Wong (direita). Nesse cemitério faltam três lápides.

Infernal Affairs II é uma prequela do aclamado Infernal Affairs. A história começa dez anos antes dos eventos do primeiro filme. Vemos os primeiros anos de Ming como cadete e Yan como espião infiltrado na tríade. O passado dos dois são explorados com mais profundidade.

Descobre-se que inicialmente Yan não foi enviado para espionar Sam mas sim seu meio-irmão Hau, patriarca da poderosa família Ngai. Aliás Sam é somente um sub-chefe da tríade comandada por Hau. Este último assume a cabeça da organização após o seu antecessor, pai dele  e de Yan, ser assassinado por Ming a mando de Mary, esposa de Sam.

Dessa trama emerge uma envolvente história de lealdade e ambição. Porém o foco do filme não é nos dois protagonistas do filme anterior, mas sim em Sam e superintendente Wong. Eric Tsang e Anthony Wong retornam para interpretar seus personagens. Os dois entregam atuações ainda melhores graças a trama que adiciona elementos que tornam os dois personagens ainda mais interessantes. Eles têm o suporte de novos personagens. Francis Ng interpreta Hau com grande intensidade, apesar do personagem demonstrar serenidade na maior parte do tempo. Somado a sua astúcia, se revela uma mistura perigosa. Mary, interpretada por Carina Lau, usa todo o seu charme para manipular as pessoas ao seu redor. Inteligente, ela tenta colocar Sam no topo da organização. Ainda há Hun Jun que interpreta o antecessor e amigo do superintendente Wong. Carismático, o ator imbuí Luk de uma moralidade e retidão capaz de inspirar a todos, principalmente a Wong e Yan.

Shawn Yue e Edison Chen voltam a interpretar, respectivamente, as versões jovens de Yan e Ming. Dessa vez não se restringem a aparições em flashbacks. Shawn Yue se destaca inclusive ao incorporar alguns maneirismos do personagem interpretado por Tony Leung. Já Edison Chen entrega uma atuação apática, porém não compromete o filme nem o personagem estabelecido por Andy Lau.

O filme é dividido em três arcos, cada arco se passando em um ano. A disputa pelo poder no submundo vai se acirrando com intervenções diretas e indiretas da polícia de Hong Kong. Inclusive, o filme possui várias referências e elementos semelhantes à trilogia ‘O Poderoso Chefão’. Porém isso não distorce o filme ou o deixe menos interessante, pelo contrário.

Uma sequência que iguala e em alguns momentos supera seu antecessor, este é Infernal Affairs 2. Diversas pontas que ficaram soltas no filme original são amarradas. Assim como no primeiro, o sucesso deste apoia-se no drama e desenvolvimento dos personagens. Do universo estabelecido no primeiro filme da série, sua sequência consegue construir uma história nova e que enriquece o original.

Hong Kong Feelings: 5/5

Título original:無間道 II (Moou Gan Dou II)

Diretor: Andrew Lau, Alan Mark

Elenco: Anthony Wong Cha-Sang, Eric Tsang Chi-Wai, Francis Ng Chun-Yu, Carina Lau Ka-Ling, Shawn Yue, Edison Chen, Hu Jun, Champ To Man-Chat, Roy Cheung Yiu-Yueng, Liu Kai-Chi

14 de dezembro de 2011

Exiled (Exilados/2006)

exiled     Vai encarar? Esquerda para direita: Lam Suet, Francis Ng, Roy Cheung e Anthony Wong

O diretor Johnnie To é o maior expoente do cinema de Hong Kong, graças ao fato de não ter sucumbido o lado negro da força de Hollywood. Ao contrário de vários outros renomados diretores que decidiram cruzar o oceano Pacífico, Johnnie To preferiu continuar em Hong Kong.

Exiled é um faroeste situado em Macau de 1999. A história se passa dias antes da devolução da ex-colônia portuguesa a China. Por conta disso contas pendentes são acertadas.

Boss Fay (Simon Yam) aproveita para ganhar poder e territórios nessa cidade sem lei. De quebra ele descobre que um assassino que tentou matá-lo refugiou ali. Ele manda Blaze (Anthony Wong) e Fat (Lam Suet) para matar Wo (Nick Cheung). Porém Tai (Francis Ng) e Cat (Roy Cheung) aparecem para protegê-lo. Depois de um impressionante duelo de dois contra um, descobre-se que na verdade os cinco são companheiros de longínqua data.

Temas como amizade, companheirismo e lealdade são abordados ao longo do filme. E os laços que unem o quinteto serão testados. Durante essa jornada muita bala será atirada e sangue será derramado. As cenas de tiroteio são simplesmente espetaculares. Com coreografias perfeitas e complexas, elas transmitem uma grande sensação de caos e tensão. Mas graças ao estilo meticuloso e o esmero visual do diretor, em nenhum momento as cenas são confusas ou irritantemente frenéticas.

O estilo de direção também se faz presente nos diálogos. Mínimos, eles reforçam a características dos personagens.que preferem deixar suas ações falarem por si mesmo. As atuações são sólidas, apesar de que na maior parte das cenas os atores se limitam a poses marrentas. Mas ainda sim podemos ver o talento de cada ator, principalmente na última cena que é absolutamente fantástica. O personagem mais complexo acaba sendo a mulher de Wo. Apesar de Jin (Josie Ho) ser retratada como alguém que não compreende aquele universo masculino, é ela quem traz uma inesperada reviravolta na trama.

Exiled é um presente do diretor para os seu fãs e um bom filme para os principiantes se familiarizarem com os seus temas e estilo de direção. E um filme que reúne Anthony Wong e Francis Ng é garantia de qualidade.

Hong Kong Feelings: 5/5

Título original: 放逐 (Fong Juk)

Diretor: Johnnie To

Elenco: Anthony Wong Chau-Sing, Francis Ng Chun-Yu, Nick Cheung Ka-Fai, Josie Ho Chiu-Yi, Lam Suet, Roy Cheung Yiu-Yeung, Simon Yam Tat-Wah, Richie Jen, Gordon Lam Ka-Tung, Hui Siu-Hung