16 de setembro de 2012

Drunken Master (O Mestre Bêbado/1978)

drunkenmaster Jackie Chan (direita) e Hwang Jan-Lee (esquerda) brigam por bebida.

Drunken Master conta a história do herói Wong Fei-Hong quando jovem. Interpretado por Jackie Chan, Wong Fei-Hung é retratado como um artista marcial com grande potencial, mas que possui uma arrogância da mesma proporção que seu talento. Isso o leva a arrumar todos os tipos de confusão para o desespero do pai, Wong Kei-Ying. Este último decide mandar seu filho para ser treinado por Beggar So, um velho bebum que nas horas vagas é um grande mestre de kung-fu.

O elenco tem renomados nomes. A destacar Yuen Hsia-Ten, veterano ator da Ópera de Pequim e pai do diretor. Apesar da idade avançada Yuen pai mostra desenvoltura nas cenas que exigem mais de seu físico. A atuação é divertida retratando muito bem um velhinho inofensivo, mas que na verdade é um grande mestre kung-fu do estilo “Os Oito Imortais Bêbados”. Outro destaque do elenco é Hwang Jan-Lee, famoso por ser um especialista em chutes extremamente potentes e violentos tendo a alcunha de Senhor dos super-chutes. No filme Hwang Jan-Lee é o formidável assassino Yan. Claro que Jackie Chan e ele duelam no filme, inclusive duas vezes, e certamente são os pontos altos do filme.

Mesmo com um elenco secundário de peso, Jackie Chan não faz feio. Inclusive a cena impagável do filme é dele ao imitar a Imortal Ho. Desde jovem, Chan já mostrava ser um ator extremamente carismático. Além disso, as cenas de luta que utilizam os objetos do cenário como armas estão no filme. São simples, nada que seja tão complexo como em seus filmes posteriores, mas ainda sim divertem. Com uma boa atuação e sólido desempenho nas cenas de luta, a carreira de Jackie Chan decolou a partir de Drunken Master. Do começo como dublê do Bruce Lee, ele galgou até a posição de astro de Hollywood.

Dirigido pelo lendário coreógrafo Yuen Woo-Ping, infelizmente o filme está anos-luz de ser lendário. Produzido e filmado em menos de três meses, o filme apresenta problemas visíveis de edição em diversas cenas e uma trilha sonora quase inexistente. No entanto, no quesito em que é quase uma divindade no panteão do cinema de Hong Kong, Yuen Woo-Ping mostra todo o seu talento. A coreografia das cenas de luta são boas, sendo as cenas que envolvem o estilo de kung-fu bêbado as melhores.

O filme Drunken Master tem as cenas de luta como ponto positivo e negativo. São bem coreografadas mas sofrem de uma fraca edição. As atuações são boas, mas nada excepcional. No geral Drunken Master é um filme abaixo da média dentro da filmografia de Jackie Chan. Mas ainda sim, o filme foi um marco que direcionou a carreira de Jackie Chan para filmes que misturassem comédia e artes marciais. Vale a pena conferir os malabarismos de um jovem Chan e observar o quanto ele evoluiu na parte técnica e na atuação.

Hong Kong feelings: 2,5/5

Título original: 醉拳 (Jui Keun)

Diretor: Yuen Woo-Ping

Atores: Jackie Chan, Simon Yuen Hsia-Ten, Hwang Jang-Lee, Hsu Hsia, Dean Shek Tin.

27 de agosto de 2012

Initial D (Initial D–Velocidade sem limite/2005)

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Initial D é a adaptação live-action do mangá/anime homônimo. A adaptação foi filmada toda no Japão, o que revela um esforço dos produtores em se manter o mais fiel possível à obra original. O filme marca a estreia da estrela pop taiwanesa Jay Chou como ator. Além disso é dirigido pela dupla Andrew Lau e Alan Mak, diretores de Infernal Affairs.

O filme conta a história de Takumi (Jay Chou), um estudante colegial japonês que gasta seu tempo livre trabalhando no posto de gasolina. Seu melhor amigo Itsuki (Chapman To) é filho do dono do posto, além de ser o alívio cômico. Takumi tem uma queda pela colega de classe Natsuki (Anne Suzuki), mas sua grande paixão é mesmo descer pelas sinuosas estradas do monte Akina. Porém o seu talento não foi talhado pela vontade de superar seus limites competindo com outros, mas sim pela cruel rotina imposta por seu pai Bunta (Anthony Wong) de entregar tofu sempre às quatro da matina. Tal fato justifica a ignorância dos corredores locais sobre o seu grande talento para o drift.

Em um certo momento, seu talento acima do normal é descoberto e diversos corredores de outras vizinhanças começam a aparecer para desafiá-lo. E assim Takumi é introduzido nos rachas. O filme gasta bastante tempo desenvolvendo os pontos que fazem Takumi ser um exímio piloto de drift. Se a história sobre Takumi consegue ser interessante, o mesmo não se pode dizer do personagem em si. Um dos grandes problemas do filme é a impossibilidade de simpatizarmos com o personagem pela sua personalidade totalmente apática. Também não colabora a escolha do ator para interpretá-lo, pois Jay Chou se encaixa bem até demais. A falta de expressividade escancara as limitações do astro pop. E para piorar, Chou não é fluente em cantonês o que compromete ainda mais sua atuação, inclusive muitas de suas falas foram dubladas posteriormente,. Para não ser injusto, sua atuação evolui ao longo do filme, passa de insuportável para indiferente no final.

Outro personagem que tem sua quota de problemas é Ryosuke Takahashi. Ele é peça fundamental para o desenvolvimento de Takumi como piloto, mas poucas informações sobre ele são informadas. Além disso seu tempo em cena é um dos menores dentre os personagens secundários, apesar de ser um dos mais importantes. Quanto ao ator, Edison Chen faz um trabalho satisfatório.

Apesar dos pontos negativos, o filme tem carisma suficiente para que possamos nos engajar com as situações desenroladas. Méritos dos diretores que não transformaram o filme em um desfile de carros alegóricos dirigidos por personagens caricatos. O desenvolvimento da trama vai ficando interessante cada vez que descobrimos o que faz de Takumi um exímio piloto mesmo sendo somente um simples entregador de tofus. Além de tornar completamente plausível o fato dele reinar soberano mesmo com um carro muito mais limitado e nunca ter competido antes com outros pilotos. Também divertido é a atuação de Anthony Wong que interpreta interpreta Bunta, o pai de Takumi e dono de uma loja que vende tofu. A atuação de Wong com um sotaque japonês bizarro está impagável. Kenny Bee também se destaca como dono do posto de gasolina onde Takumi trabalha, além de ser rival e camarada de Bunta. Parte da graça do filme está exatamente nessa dupla de veteranos. Mas ainda sim suas atuações não são capazes de elevar o nível do filme.

O grande atrativo mesmo do filme são as cenas de drift. São muito bem montadas ainda mais considerando-se a limitação orçamentária, mas não chegam a ser espetaculares. As cenas tem algumas sacadas interessantes ao explicar a dinâmica das estratégias em vários momentos chaves das disputas. Enfim, o filme consegue ser divertido com sua trama simples e linear, porém completamente esquecível.

Hong Kong feelings: 3/5

Título original: 頭文字 D (Tau Man Ji D)

Diretores: Andrew Lau Wai-Keung, Alan Mak Siu-Fai

Elenco: Jay Chou, Edison Chen, Anne Suzuki, Anthony Wong Chau-Song, Chapman To Man-Chat, Shawn Yue, Jordan Chan Siu-Chun, Kenny Bee, Liu Genghong, Chie Tanaka, Tsuyoshi Abe.

16 de julho de 2012

Eighth Happiness (A derradeira felicidade/1988)

8happinness Chow Yun-Fat jogando todo o seu charme na colega de classe.

O festival lunar, conhecido como o ano novo chinês, é um período de festejos com muita comida e reuniões familiares. Um período também muito auspicioso para encontrar o amor da sua vida. Para aproveitar esse clima auspicioso, é tradição do cinema de Hong Kong sempre lançar filmes de comédia românticas nesse período. Em 1988, Eighth Happiness foi certamente o grande filme de comédia romântica.

Eight Happiness segue a fórmula padrão de comédia romântica. O mocinho principal conhece a mocinha de forma atípica. Os dois saem para se conhecer melhor. Algumas confusões acontecem que os fazem se separar, até que no final o casal acerta as arestas. Mas impossível detestar o filme, pois ele é muito bem filmado. Além disso o filme consegue surpreender em alguns pontos, principalmente o personagem de Chow Yun-Fat. Long tem um jeito pouco ortodoxo de se aproximar das mulheres. Chow Yun-Fat interpreta muito bem os trejeitos afeminados sem descambar totalmente para o ridículo. Além disso o personagem é o maior mulherengo da área, mesmo estando noivo da linda Do-Do (Carol Cheung).

Long possui um irmão mais velho e outro mais novo, com os três morando no mesmo teto. Fong (Raymond Wong) é uma espécie de patriarca e apresentador de um programa de culinária. Ele é um trintão que nunca namorou e um tanto desajeitado socialmente. Ele acaba se apaixonando pela cantora de ópera chinesa Hu Hsiu-Fang (Fung BoBo).  Ela tem um filho que não faz nenhuma cerimônia na hora de mostrar toda a falta de afeição pelo novo pretendente da mãe.

O diretor do filme é Johnnie To. Muito antes de fundar sua produtora Milkaway e se tornar um mestre de filmes de tríades, Johnnie To ainda dava seus primeiros passos como diretor em filmes comerciais. Mas sua habilidade em extrair o melhor dos atores é notório, mesmos em projetos mais limitados como esse. Jacky Cheung é o maior exemplo. Um ator que tende sempre ao exagero, oferece uma equilibrada interpretação de San, o irmão mais novo da trupe. Outra que se beneficia de um competente diretor é Cherie Chung que interpreta a beldade da loja departamental que nas horas vagas é tão louca quanto Long.

Entre indas e vindas, os três irmãos passarão por ilusões e desilusões amorosas, recheada de muitas risadas. Apesar dos vários personagens, as sub-tramas são simples, mas nada memorável. O filme todo não é memorável, de forma alguma chega perto dos filmes de Stephen Chow. No entanto, ainda sim é capaz de entreter e render boas risadas. Quem rouba a cena é certamente Chow Yun-Fat, seu personagem mulherengo e afeminado é simplesmente impagável. Para quem estiver atento, o filme tem algumas referências a A Better Tomorrow, inclusive com uma aparição mais do que especial no fim da última cena.

Hong Kong feelings: 3,5/5 

Título original:八星報喜 (Baat Seng Bou Hei)

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Chow Yun-Fat, Raymond Wong Bak-Ming, Jacky Cheung Hok-Yau, Carol Cheng Yu-Ling, Cherie Chung Cho-Hung, Fung Bo-Bo, Michael Chow Man-Kin, Fennie Yuen Kit-Ying, Lawrence Cheng Tan-Shui, Karl Maka, Kwan Yuen Wong.

The 36th Chamber of Shaolin (A 36ª Câmara do Templo Shaolin/1978)

shaolinchamber Old but gold: Gordon Liu é Liu YangDe/San Te.

Shaw Brothers Studio foi a principal produtora de filmes em Hong Kong no século passado. Fundada em 1930, a produtora já produziu centenas de filmes, apesar de que atualmente esta está em franca decadência não chegando nem perto do seu glamour de outrora. Porém, a sua importância para o gênero de artes marciais pode-se dizer que é maior até mesmo que o grande ícone Bruce Lee. The 36th Chamber of Shaolin representa uma de suas principais joias que redefiniu o gênero.

Se passando no período que a China era controlada pela Manchúria, o jovem Liu YingDe (Gordon Liu) é filho de um humilde vendedor de frutos do mar. Durante o dia ele estuda no Colégio Chong Wen sob a tutela do Senhor Ho (Wai Wang). Vendo o seu povo oprimido pelo Império Qin, Liu decide se aliar aos rebeldes, sendo o próprio Senhor Ho um deles. Porém as forças imperiais logo descobrem as atividades clandestinas e massacram os rebeldes. O único sobrevivente é Liu que se refugia em um templo Shaolin.

Ao ser admitido no templo, Liu recebe um novo nome, San Te. Para se tornar um mestre de kung fu shaolin, ele deve passar pelas 35 câmaras do templo. Cada uma das câmaras possui um desafio diferente, sendo um mais inventivo que o outro. Ver Liu completando cada desafio é extremamente empolgante.

O filme gastar bastante tempo com a introdução, mas ela é tão importante quanto a parte do treinamento nas câmaras. As suas motivações para aprender a luta shaolin são bem claras, mas não são exatamente alinhadas com os preceitos budistas desse estilo de kung fu. O diretor soube explorar muito bem esse conflito moral que existe dentro de Liu YingDe/San Te, mas sem tornar o filme pesado demais com uma discussão filosófica que poderia mais distrair do que contribuir para o desenvolvimento do herói. Além disso é um importante elemento para explicar o título do filme.

A riqueza do personagem principal e uma trama bem trabalhada fizeram o filme uma verdadeira referência no gênero de artes marciais. O final do filme é bem polêmico e pode ser frustrante. Mas é preciso saber que essa decisão dos produtores e do diretor foi tomada diante das críticas da época que questionavam a qualidade dos filmes de artes marciais. Eles criticavam que as tramas eram quase sempre recicladas e soavam mais como uma (péssima) desculpa para o embate final entre o herói e o vilão. O final de The 36th Chamber of Shaolin tem como objetivo reforçar o que é mais importante do filme, a jornada de Liu e não o seu destino. O filme é fantástico do começo ao fim, com uma ótima trama e sequências de lutas sensacionais.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título original: 少林三十六房 (Siu lam san sap lok fong)

Diretor: Lau Kar-Leung

Elenco: Gordon Liu Chia-Hui, Lo Lieh, Lau Kar-Wing, Wilson Tong Wai-Shing, Wong Yue, Lee Hoi-Sang, Henry Yu Yang, Austin Wai Tin-Chi, Wai Wang.

9 de julho de 2012

In the Mood for Love (Amor à flor da pele/2000)

inthemoodforlove Quizas, quizas, quizas: Maggie Cheung e Tony Leung.

Um olhar é mais do que capaz de despertar um sentimento. A sedução desperta o desejo. Wong Kar-Wai retoma um velho tema para produzir sua obra mais elegante. Em In the Mood for Love, a sua técnica e sua peculiar linguagem cinematográfica atinge o ápice do refinamento.

Na Hong Kong da década de 60 (mas com uma atmosfera de Shanghai), Chow Mo-Wan e sua esposa se mudam para um apartamento no mesmo dia que a senhora Chan e o seu marido mudam para o apartamento ao lado. O primeiro é um escritor de novelas enquanto a senhora Chan trabalha como secretária do dono de uma agência de viagens. Chow é interpretado por Tony Leung, que por sua atuação perfeita recebeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes. Mas quem rouba a cena mesmo é Maggie Cheung com sua magistral Sr.ª Chan. Para a personagem é muito mais difícil aceitar e lidar com o dilema numa sociedade extremamente machista.

Com os respectivos cônjuges cada vez mais ausentes, Chow e Sr.ª Chan começam a suspeitar que ambos estão se envolvendo um relacionamento extra-conjugal. A solidão que aflige a ambos também é o sentimento em comum que os fazem se aproximar. O filme todo parece ser ditado pela balada da trilha sonora que remete ao tango.

Como se fosse uma dança, sempre observamos um dos personagens se aproximando, para que num próximo momento o outro se afaste. Esses momentos de sintonia, de hesitação e até os momentos onde um deles dá um passo errado são exaltados pelo diretor. Nesse jogo de sedução tudo é subjetivo, basta observar o olhar para ver a sintonia entre as almas daqueles dois seres que se desejam. Mas como uma força oposta, nós somos lembrados incessantemente que em seus dedos anelares jaz um objeto que condenam aqueles sentimentos. Assim hesitam em dar mais um passo adiante, pois não pode haver espaço para o sentimento de vingança nessa relação que estão construindo.

Ao mesmo tempo que o filme é um ode à arte da sedução, ele é também uma lamúria aos desejos repreendidos.  Novamente, Wong Kar-Wai nos oferece um retrato ímpar do amor. Um amor incompleto, não realizado, que corrói a alma.

Ele lembra daqueles anos desaparecidos como se estivesse olhando através de um janela empoeirada. O passado é algo que ele podia ver, mas não tocar, e tudo o que ele via era borrado e indistinto.

Hong Kong feelings: 5/5

Título original: 花样年华 (Fa Yeung Nin Wa)

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung Man-Yuk, Rebecca Pan, Kelly Lai Chen, Siu Ping-Lam, Roy Cheung Yiu-Yeung