11 de março de 2012

Infernal Affairs III (Conflitos Internos 3/2003)

infernalaffairs3É complicado a vida de espião: Ming (Andy Lau) à direita e Yan (Tony Leun) à esquerda.

Infernal Afffairs III encerra a trilogia iniciada pelo arrasa-quarteirão Infernal Affairs, seguido da sensacional prequela Infernal Affairs II. Com o destino de Yan, Inspetor Wong e o chefe da tríade selados, neste terceiro ato conheceremos o destino de Ming, o tríade infiltrado na polícia. Os diretores Andrew Lau e Alan Mak retornam para dirigir um intrincada trama que traz todo o elenco do filme original.

A citação budista que dá nome ao título original ganha mais relevância na história do terceiro filme. Aliás, o filme todo se desenvolve em torno do conceito do inferno contínuo, o mais baixo nível do inferno budista. Os flashbacks teoricamente reforçam este movimento cíclico e inexorável, mas na prática são confusos e excessivos, soando mais como desculpa para trazer os atores que morreram no primeiro filme.

Andy Lau volta a interpretar o policial Ming. Apesar de ter se safado dos eventos do primeiro filme, o personagem passa ser atormentado pelo seu passado. O descenso ao inferno é óbvio, tendo que lidar com o fim de um casamento assim como a carreira em declínio. Os personagens femininos do primeiro filme ganham mais destaque na história. E elas estão presentes nas melhores cenas do filme. Tony Leung, Anthony Wong e Eric Tsang retornam com sólidas atuações, mas nada que supere os filmes anteriores. O roteiro também prejudica inclusive a atuação do ator principal. Andy Lau consegue interpretar razoavelmente a paranoia que cerceia Ming, principalmente após a aparição de um novo personagem.

Ming suspeita que o inspetor Yeung está por trás da queima de arquivo contra os infiltrados de Sam para se proteger. O jogo de gato e rato se torna desinteressante, principalmente por conta do ator escalado para interpretar Yeung. A variedade de expressões faciais de Leon Lai é tão impressionante quanto ao de Keanu Reeves. E isso prejudica muito a dinâmica entre Ming e Yeung. Outro problema do filme é a subtrama envolvendo Yan e outro personagem novo. Shen é um chefe do crime da China continental que fez negócios com Sam (Eric Tsang). Poucas informações sobre o personagem interpretado por Chen Dao-Ming são disponibilizadas, o que torna a sua relação com Yan bem confusa. No final das contas, é quase incompreensível como que as subtramas se cruzam para determinar o destino de Ming.

O filme possui ideias boas, mas que foram mal executadas. Para os fãs ardorosos, certamente assistirão para saber o fim que Ming terá. Claramente, os diretores não quiseram escolher o caminho mais fácil para contar essa história, tal esforço foi capaz de gerar boas cenas como a que junta Ming e Yan no consultório da psiquiatra Dra. Lee. Os elementos de drama e suspenses estão presentes nesse filme, mas não foi possível repetir a mesma qualidade do filme original. Infelizmente, Infernal Affairs sofreu do mesmo mal que as trilogias de Hollywood com uma última parte fraquíssima.

Hong Kong feelings: 2,5/5

Título original: 無間道 III (Mou Gaan dou III)

Diretor: Andrew Lau Wai-Keung, Alan Mak Siu-Fai

Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Andy Lau Tak-Wah, Leon Lai Ming, Chen Dao-Ming, Anthony Wong Chau-Sang, Eric Tsang Chi-Wai, Sammi Cheng Sau-Man, Kelly Chen, Elva Hsiao, Chapman To Man-Chat,Gordon Lam Ka-Tung, Edison Chen, Shawn Yue, Ng Ting-Yip, Carina Lau Ka-Ling, Waise Lee Chi-Hung

4 de março de 2012

Lifeline (Urgência Máxima/1997)

lifeline Se correr o bicho pega se ficar o bicho come.

Bombeiros protagonizando filmes são raros. Tal temática é pouco utilizado pelos cineastas por diversos motivos. É complicado não conceber personagens unidimensionais, uma vez que a sociedade tratam esses profissionais como heróis. Assim como pouco tem a oferecer em cenas de ações sem cair na repetição. A grande sacada de Johnnie To é retratá-los como humanos, explorando os conflitos pessoais e profissionais.

Lifeline pode ser divido em duas partes. A primeira parte é centrada no desenvolvimento dos personagens. Johnnie To explora bem a personalidade de cada um, assim como suas vidas particulares. Porém nesse ponto, o mérito mesmo cabe aos atores. As atuações são sólidas, mesmo em momentos menos inspirados do roteiro. O grande destaque fica pelo seus dois protagonistas. Lau Ching-Wai e Alex Fong. Cada um tem suas questões pessoais a serem resolvidas, mas há também a rivalidade profissional entre ambos.

O conflito não se limita somente aos dois, devido a divergências no estilo de liderança, mas também ao restante do esquadrão. Por azar, eles são conhecidos como um esquadrão amaldiçoado. Isso traz incerteza e falta de autoconfiança para qualquer um.

A parte final é grandiosa, com uma boa dose de ação e tensão. Com os personagens devidamente estabelecidos, é fácil se importar pela vida de cada um. É aí que Johnnie To se destaca. A sequência do incêndio é uma das mais espetaculares já filmado. Apesar do baixo orçamento, esta é bastante realista nos detalhes.

O filme diverte com suas várias sub-tramas sem apelar para a melodrama. E ainda tem espaço para alguns temas comuns na filmografia de Johnnie To como companheirismo. É cativante assistir como que aquele grupo de bombeiros, através da perseverança e trabalho em equipe, conseguem superar o estigma e aprendem valorizar o companheirismo.

Hong Kong feelings: 4/5

Título original: 十萬火急 (Sap Maan Fok Gap)

Diretor: Johnnie To

Elenco: Lau Ching-Wan, Alex Fong Chung-Sun, Carman Lee Yeuk-Tung, Ruby Wong Cheuk-Ling, Damian Lau Chung-Yun, Raymond Wong Ho-Yin

26 de fevereiro de 2012

Accident (Acidente/2009)

accident Brain (Louis Koo) tenta desvendar a conspiração contra ele.

É possível assassinar uma pessoa de forma que a cena do crime pareça com um acidente? Pode parecer uma teoria conspiratória, mas Brain e seus comparsas tiram seu sustento com este tipo de serviço.

O filme mostra minunciosamente como que Brain constrói e seus comparsas executam os “acidentes”. Sempre buscando não deixar pontas soltas, o personagem principal é meticuloso e as vezes até paranoico. O diretor Soi Cheung consegue fazer essas cenas muito bem, sempre mantendo o expectador na expectativa de como o acidente ocorrerá.

Aparentemente Brain detém o monopólio desse negócio. Porém um incidente o leva a conclusão que existe um possível ríval e concorrente na sua área de atuação. O filme fica cada vez mais interessante a medida que Brain fica mais paranoico. A atuação de Louis Koo é surpreendentemente excelente sendo bastante convincente no papel principal. O elenco de suporte possui nomes como Lam Suet e Michelle Ye.

Estreando na cadeira de diretor de uma produção da Milkyway, Soi Cheang faz o básico e muito bem. Não se arrisca em experimentar efeitos com a câmera que mais distraem do que conferem um estilo. As relações entre os personagens são construídas de forma sutil o que reforça o tom misterioso. A tensão e o suspense não são tão densos, mas o diretor consegue produzir o suficiente para que o filme funcione.

Infelizmente a cena final é desnecessária, criada somente para atender interesses comerciais (leia-se evitar a censura chinesa). Mas ainda sim o filme diverte bastante com a temática conspiratória, boas atuações e bom roteiro. Alistado pela produtora do renomado Johnnie To, Soi Cheang cumpre as expectativas em sua estreia como diretor da Milkyway dirigindo um ótimo suspense.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 意外 (Yi Ngoi)

Diretor: Soi Cheang Pou-Soi

Elenco: Louis Koo Tin-Lok, Richie Ren, Michelle Ye, Stanley Fung Shui-Fan, Lam Suet, Monica Mok

19 de fevereiro de 2012

Fallen Angels (Anjos Caídos/1995)

fallenangels “Eu sabia que aquela estrada não era muito longa, […] mas naquele momento me sentia aconchegada.”

Fallen Angels é uma sequência espiritual de Chungking Express. O cenário que abriga os personagens é o mesmo. Uma Hong Kong noturna e fervilhante. Duas histórias distintas vão se desenvolvendo mas que se intercalam com um ponto em comum.

O filme começa apresentando Michelle Reis que é a agenciadora do assassino de aluguel interpretado por Leon Lai. Apesar de serem colegas de trabalho e nutrirem um mútuo interesse afetivo, não se conhecem pessoalmente. Nesse hesitante relacionamento, a personagem de Karen Mok aparece para reviver o seu relacionamento com o assassino.

A outra história gira em torno de Takeshi Kaneshiro cujo personagem se apresenta como um ex-presidiário. Além disso ele é mudo pois na infância engasgou com um pedaço de abacaxi enlatado e vencido (uma referência direta/piada interna à Chungking Express). No desenrolar do filme, ele conhece a sua primeira paixão interpretada por Charlie Young, porém ela é incapaz de lidar com o fim do relacionamento anterior.

A medida que nos interessamos em conhecer o cotidiano desses personagens também nos tornamos mais íntimos deles. Tal sensação é decorrente do uso extensivo da narração em off pelo diretor. É como se a cada momento os personagens estivessem nos confidenciando seus pensamentos e sentimentos. E o grande ponto em comum é a solidão que aflige a todos. Acompanhamos as ilusões e desilusões de cada um.

Wong Kar-Wai novamente faz usos de efeitos de câmera e trilha sonora marcantes, o que torna a experiência única transmitindo a sensação que estamos assistindo à memórias no inconsciente. Porém não existe uma história, os personagens são ligados pelo acaso. São essas características que fazem o diretor diferente até mesmo daqueles considerados artísticos. Sua habilidade se estende a sua capacidade de extrair boas atuações de atores limitados como Leon Lai.

Os personagens deste filme são um tanto quanto impenetráveis. Porém não é de interesse de Wong Kar-Wai construir personagem fáceis de entender, muito menos filósofos incompreendidos. Apesar de alguns serem bizarros, nos simpatizamos por serem imperfeitos, por serem humanos. Aos que dispuserem à mergulhar na vida dos personagens de Fallen Angels serão recompensado com uma inebriante jornada.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título original: 墮落天使 (Doh Lok Tin Si)

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Michelle Reis, Takeshi Kaneshiro, Leon Lai Ming, Charlie Young Choi-Nei, Karen Mok Man-Wai, Chan Fai-Hung

14 de fevereiro de 2012

Kung Fu Hustle (Kung-Fusão/2004)

kunfuhustle Stephen Chow homenageia Bruce Lee mais uma vez.

O prolífico ator-diretor Stephen Chow entrega o seu filme mais ambicioso. O resultado é mais uma obra com o seu selo de qualidade. Dessa vez a história se passa numa Xangai da década de 30 dominada por gangsteres. Stephen Chow é Sing, um zero a esquerda que tenta se passar como um membro da temida Gangue do Machado.

Mas por incrível que pareça ele não é o centro das atenções. O que assistimos é um desfile de personagens caricatos. Destaque para o casal Yuen Qiu e Yuen Wah que fazem uma hilária aparição como os senhorios do ‘Beco do Chiqueiro’. Lam Ching-Chu, figura carimbada na filmografia de Chow, interpreta o inútil braço direito de Sing. A grande decepção mesmo é a ausência de Ng Man-Tat.

O humor “mo lei tau” (sem sentido em tradução literal) de Chow transborda para o roteiro. A história inexiste, mas ainda sim o filme consegue prender a atenção do expectador desde a cena inicial. Graças ao talento de Chow, como ator e diretor, as cenas, desde romance até as de ação, são bem construídas.

Se em Shaolin Soccer Stephen Chow obteve sucesso ao usar cenas em computação gráfica pela primeira vez, agora ele dá mais um passo adiante. Mostrando total domínio da tecnologia, ele consegue transportar gags que antes eram exclusivas em desenhos animados para cenas com atores de carne e osso. O resultado é simplesmente hilário e surpreendente. Os efeitos especiais são nem um pouco realistas, mas são bem empregadas de forma que não traz aquela sensação negativa de falsidade.

As lutas de kung fu são bem coreografadas e criativas, capaz de agradar até mesmo os fãs do gênero. Algumas são bem engraçadas como a luta final contra o chefão. Mas apesar disso, as cenas de luta são geralmente intercaladas com cenas de humor. Por falar em humor, como este se baseia mais nos efeitos especiais mirabolantes, parte da graça se perde quando se assiste uma segunda vez.

No final das contas, Kung Fu Hustle é um bom filme de comédia com um estilo que remete aos desenhos animados americanos, mas que preserva alguns elementos do humor cantonês. A fórmula mágica do sucesso se mantém intacta, porém com doses homeopáticas de drama e romance.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 功夫 (Kung Fu)

Diretor: Stephen Chow

Elenco: Stephen Chow Sing-Chi, Lam Chin-Sin, Lam Chi-Chung, Chan Kowk-Kwan, Yuen Qiu, Yuen Wah, Eva Huang Sheng-Yi, Tin Kai-Man, Feng Xiao-Gang, Bruce Leung Siu-Lung, Xing Yu, Lam Suet