10 de março de 2013

Zu: Warriors from Mountain Magic (Zu: Guerreiros da Montanha Mágica/1983)

zu O monge sendo exorcizado pela Condessa.

Baseado na obra de  Lee Sau-Man, Zu: Warriors from Mountain Magic foi produzido por Raymond Chow e dirigido por Tsui Hark. Situado no século V, o oeste da China é assolado por recorrentes guerras civis. Neste mundo fantasioso, guerreiros são capazes de façanhas inacreditáveis. Raymond e Tsui tiveram a proeza de adaptar 50 volumes em frenéticos 110 minutos.

Sem perder tempo, somos apresentados ao personagem principal. Ti Ming Chi (Yuen Biao) é um batedor do exército azul. Porém em meio ao caos da batalha, fugindo de seus perseguidores Ti chega até a Montanha Mágica Zu. Lá ele conhece Ting-Yin (Adam Cheng), um exímio espadachim capaz de controlar sua espada com a força de sua mente. Ti tenta convencer Ting a ser seu mestre e se junta a busca por duas lendárias espadas gêmeas capazes de destruir um demônio sanguinário. Mas antes eles conhecem o monge budista Hsiao Yu (Damian Lau) e seu discípulo Yi Chen (Mang Hoi).

Tudo isso acontece na primeira hora de filme. O desenvolvimento da trama é rápido demais, porém Tsui Hark contrabalanceia com uma história rasa de forma que o desenrolar das cenas em momento algum é confuso. Diversos personagens parecem ter sido jogados a esmo, sem muita lógica dentro da trama. Apesar dos problemas, Tsui Hark consegue contorná-los razoavelmente bem. Mesmo diante da falta de uma boa contextualização do passado dos personagens, Hark consegue fazer com que nos importemos pelo destino de cada um. Porém isso gera mais problemas.

Falta mais carisma ao personagem principal. Ti consegue ser o menos interessante. Para um zero a esquerda, seu personagem pouco evoluí, a não ser no final. Por ser um estranho nesse mundo repleto de guerreiros com superpoderes, sua relação com os outros personagens é de total inferioridade. Os diversos personagens que aparecem pouco interagem com o personagem principal. Se por um lado isso é ruim, por outro lado algumas dessas interações são bem divertidas. O monge Hsiao nutre um sentimento de rivalidade em relação Ting, mesmo que o mais racional fosse juntar forças contra o inimigo em comum. Outra relação interessante é o romance entre Ting e a Condessa (Brigitte Lin). Porém fica faltando o  passado deles para entender melhor as atitudes de cada um.

Zu: Warriors from the Magic Mountain foi um filme que marcou época. Apesar da dificuldade em adaptar uma história tão complexa, Tsui Hark consegue entregar um filme que diverte. Os efeitos especiais são datados, mas muito bem utilizados. A falta de uma boa história é parcialmente compensada pela bela ambientação. Ainda por cima o filme tem no elenco Sammo Hung interpretando mestre ancião Cheng Mei. Uma pena que Sammo ficou de fora de quase todas as cenas de luta do filme.

Hong Kong feelings: 3/5

Título original:蜀山 - 新蜀山劍俠 (Shu Shan - Xin Shu Shan Jian Ke)

Diretor: Tsui Hark

Elenco:Yuen Biao, Adam Cheng Siu-Chow,Brigitte Lin Ching-Hsia, Damian Lau Chung-Yun, Sammo Hung Kam-Bo, Randy Man, Judy Ong, Moon Lee Choi-Fung, Tsui Siu-Keung, Mang Hoi, Dick Wei, Chung Fat, Fung Hak-On.

1 de março de 2013

Election 2 (Eleição 2–A tríade/2006)

election2 Deja vù? Gordon Lam (esq.) e Simon Yam (dir.) em uma tarde de pescaria.

Dois anos se passaram desde os eventos do primeiro filme, é época de nova eleição na tríade Sociedade Wo Sing. A tríade continua em seu processo de renovação, além de expandir seus negócios na China comunista. Novamente as tradições serão questionadas, mas dessa vez sem encenações dos cultos.

Simon Yam volta a interpretar Lok. Dessa vez a ganância lhe sobe a cabeça, e ele teima em largar o osso. Lok fará de tudo para quebrar a tradição e conseguir um segundo mandato. No primeiro filme, o embate entre Lok e Big D era formidável, pois ambos tinham personalidades contrastantes. Dessa vez Jimmy é o grande favorito de Uncle Teng (Wong Ting Lam). O personagem de Louis Koo ganha em importância nessa sequência sendo o principal personagem da história. Porém com dois personagens com características similares, a rivalidade entre Lok e Jimmy não chegue nem perto do antagonismo entre Lok e Big D.

Apesar dessa ser a trama principal, a subtrama envolvendo Jimmy e as autoridades da China continental acaba sendo a mais interessante. Apesar de um primeiro momento não se mostrar interessado no cargo de presidente da tríade, Jimmy muda de ideia depois que o Chefe da Unidade de Segurança Chinesa (You Yong) veta suas operações de venda de filmes pornôs dentro do território comunista. Porém, caso Jimmy se torne presidente da Sociedade Wo Sing, ele poderia negociar um acordo para voltar a operar lá.

Diversos personagens secundários retomam, como Big Head (Lam Suet) e Brother Kun (Gordon Lam). Porém nesta sequência são meros figurantes, sem relevância alguma na história do filme. Jet (Nick Cheung) é outro personagem que nada acrescenta nesse filme. Dentre alguns personagens novos, o mais interessante é ambíguo Chefe da Unidade de Segurança Chinesa. Apesar das breves cenas, sua atuação convence a todos de sua autoridade sendo alguém que detêm um poder maior do que a Sociedade Wo Sing.

Johnny To tenta retratar o papel das tríades na sociedade atual. Em Election 2, fica evidente que seu poder e influência são somente uma sombra pálida se comparado com outrora. A história tinha bastante potencial, porém o desenrolar da trama é num ritmo irritantemente lento com algumas situações que parecem ser forçadas. Para quem curtiu o primeiro filme, ainda é possível apreciar a trama desta sequência. Porém, em vários aspectos o filme decepciona.

Hong Kong feelings: 3/5

Título original: 黑社會2 以和為貴 (Hak Se Wui 2 Yi Wo Wai Kwai)

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Louis Koo Tin-Lok, Simon Yam Tat-Wah, Wong Tin-Lam, You Yong, Lam Suet, Eddie Cheung Siu-Fai, Nick Cheung Ka-Fai, Gordon Lam Ka-Tung, Mark Cheng Ho-Nam,Andy On Chi-Kit, Tam Ping-Man.

28 de fevereiro de 2013

Election (Eleição–Submundo do Poder/2005)

election Habemus Papa: Ritual de iniciação da Sociedade Wo Sing.

As tríades são organizações criminosas instaladas em Hong Kong e Macau com ramificações em outros países onde há grandes colônias de imigrantes chineses. Tal qual a Máfia italiana, a história das tríades são cercadas por uma aura de mistério e fascínio. Existem diversas versões sobre a origem das tríades, sendo a mais antiga datada do século XVII onde cinco monges shaolin juraram restaurar a Dinastia Ming e formaram a Tríade dos Cinco Anciãos. Election documenta os rituais da tríade mais tradicional: a “Sociedade Wo Sing”.

Election é um dos filmes de Johnny To mais celebrados  pelos críticos ocidentais. O diretor recria os rituais de eleição do presidente da tríade “Sociedade Wo Sing” com um realismo documental.Os ritos de iniciação também são recriados o que releva a mística que envolve a organização, cujas tradições receberam influências taoístas e budistas.Tanto que o filme recebeu classificação Cat-III que proíbe menores de 18 anos a assistir por se enquadrar em apologia a organização criminosa.

Além de explorar o fascínio que as tríades exercem sobre a sociedade, sendo um dos gêneros mais populares da indústria cinematográfica local, Johnny To conta uma formidável história sobre luta pelo poder. É tempo de eleição e a Sociedade Wo Sing tem dois candidatos disputando pela presidência da tríade: Lam Lok (Simon Yam) e Big D (Leung Ka-Fai). Lok é o candidato preferido de Uncle Teng, membro mais sênior, para a fúria de Big D que gastou uma fortuna com subornos gerando um impasse na eleição.

Simon Yam retrata bem o sereno Lok. Mas quem rouba a cena mesmo é Leung Ka-Fai com seu impulsivo Big D. Sua sede por poder o faz tomar todo tipo de atitude, onde os meios justificam os fins. O embate entre os dois vai ganhando contornos dramáticos, se transformando numa corrida pelo artefato que simboliza o poder do chefe da tríade, um bastão de madeira em forma de um dragão. A polícia sob o comando do Superintendente-Chefe Hui (David Chiang) entra em ação prendendo os líderes da Sociedade Wo Sing com o objetivo de que a disputa seja resolvida sem sangue.

Porém entra em ação os peixes miúdos da facção. Sem usar nenhuma arma, as sequências de lutas são de um realismo brutal. Como exemplo, temos a cena em que Kun (Gordon Lam) espanca Big Head (Lam Suet) com uma tora de madeira para no final descobrir que estão do mesmo lado. Dentre os personagens secundários, o destaque fica para Louis Koo como Jimmy. Famoso por suas péssimas atuações, mas que não arranham em nada sua popularidade, seu leal personagem é um ponto de inflexão em sua carreira. Novamente, Johhny To mostra seu talento em extrair o melhor de atores medianos.

Se existe algum filme digno de comparação com O Poderso Chefão de Coppola, certamente é Election. Johnny To conduz a trama de forma soberba, mesmo com o resultado da eleição sendo definida na primeira meia hora de filme sem falar que em um terço do filme, os personagens principais passam na prisão. Ademais a cena final é arrebatadora. Se existe alguma falha é o arco final que desenvolve os eventos em um ritmo muito rápido, mesmo não comprometendo a experiência do filme como um todo.

Hong Kong feelings: 4,5/5

Título original: 黑社會 (Hak Se Wui)

Diretor: Johnnie To Kei-Fung

Elenco: Simon Yam Tat-Wah, Tony Leung Ka-Fai, Louis Koo Tin-Lok, Wong Tin-Lam, Lam Suet, Eddie Cheung Siu-Fai, Nick Cheung Ka-Fai, Gordon Lam Ka-Tung, Maggie Siu Mei-Kei, David Chiang, Berg Ng Ting-Yip, You Yong, Tam Ping-Man, Wong Chung, Chan Siu-Pang, Yuen Bun, Raymond Wong Ho-Yin.

21 de fevereiro de 2013

Days of Being Wild (Dias Selvagens/1990)

daysofbeingwild York (Leslie Cheung) seduzindo Su Li-Zhen (Maggie Cheung)

Em seu segundo filme, Wong Kar-Wai apresenta o tema que viria a ser universal em sua filmografia. Apesar de não ser tão elegante quanto In the Mood for Love ou tão envolvente quanto Chungking Express, Days of Being Wild é um filme para ser visto por qualquer fã do diretor. Porém a obra é também uma das mais inacessíveis.

A primeira parte do filme acompanhamos o triângulo amoroso. Leslie Cheung interpreta York, aparentemente um bon vivant que vive em uma Hong Kong da década de 60. Com sua beleza, ele arrebata os corações de Su Li-Zhen (Maggie Cheung) e de Leung Fung-Ying (Carina Lau). Relógios são filmados insistentemente para nos lembrar do quanto aqueles personagens sofrem com a solidão enquanto esperam pelo amor. Porém York é alguém incapaz de amar. Seu sofrimento também é causado pelo amor, no caso pela falta, mas que somente é revelado muito depois.

Certamente, o personagem York definiu a carreira de Leslie Cheung. Seu fascinante retrato da alma tortuosa e perdida de York provavelmente é sua melhor interpretação da carreira.Temos fortes atuações das personagens femininas. Maggie Cheung interpreta a tímida Su Li-Zhen enquanto Carina Lau interpreta a burlesca Leung Fung-Ying. Rebecca Pan interpreta a mãe de York, que depois descobrimos se tratar da madrasta. Andy Lau está soberbo como o policial Tide. Sem seus habituais e irritantes maneirismos, seu policial consegue ser tão fascinante quanto o personagem principal. Fazendo parte dessa salada de personagens ainda temos Jacky Cheung interpretando Zeb, melhor amigo de York.

Uma característica que falta a obra, mas presente em filmes seguintes, é a completa dissecação que Wong Kar-Wai realiza nos personagens. O diretor abusa das sequências contemplativas, mas é econômico no uso de narrações em off cujo o objetivo é de revelar não somente o que se passa na mente de cada personagem mas o estado de espírito deles. Tal distanciamento dos personagens é agravado pela total ausência de uma trama que conduza as cenas, o que é uma marca registrada do diretor, e provoca uma certa alienação exigindo um esforço maior para poder compreender as ações de cada um e suas consequências.

Days of Being Wild carece de vários elementos que fazem Wong Kar-Wai se distinguir de outros diretores artísticos. Porém há diversas sementes do que se transformaria em um estilo de direção sem igual. O filme também representa o início da parceria que duraria décadas com o diretor de fotografia Christopher Doyle. A atmosfera da obra é predominantemente depressiva. A tonalidade sombria das cenas se encaixam perfeitamente com a solidão dos personagens. Essa composição de emoções é banhada por uma trilha sonora impecável.

A cena final contendo uma aparição relâmpago de Tony Leung servia de gancho para uma sequência. Porém esta nunca aconteceu devido ao fracasso de bilheteria.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título original: 阿飛正傳 (Ah Fei Jing Yuhn)

Diretor: Wong Kar-Wai

Elenco: Leslie Cheung Kwok-Wing, Andy Lau Tak-Wah,Maggie Cheung Man-Yuk, Carina Lau Ka-Ling,Jacky Cheung Hok-Yau, Rebecca Pan, Tony Leung Chiu-Wai.

17 de fevereiro de 2013

School on Fire (Escola em Chamas/1988)

SchoolonFire

School on Fire é o terceiro filme da série “on Fire”. Ringo Lam dirige este melodrama ambientado numa escola de ensino médio do subúrbio de Hong Kong. Uma colegial testemunhou um acerto de contas da tríade. Incentivado pelo seu professor e pressionado pela polícia, ela depõe sobre o incidente para a fúria do chefe da tríade.

O diretor constrói uma história intensa e absurdamente depressiva. Depois de testemunhar, Chu Yuen-Fong (Fennie Yuen) passa a ser ameaçada por Brother Smart. Ele a obriga pagar HK$30.000,00 como compensação pelos custos legais para livrar os comparsas presos por conta de seu testemunho. A partir daí ocorre uma série de eventos que desemboca em um final cheio de violência e sangue. As situações são um tanto quanto exageradas porém são contrabalanceadas por uma ambientação  realista.

Além da trama principal, existem outras subtramas, que se entrelaçam com a principal, ajudando a enriquecer o filme. Inspetor Hoi (Ching-Ying Lam) tem consciência da impotência da polícia em combater a tríade, pois esta se instala onde exatamente existe um vácuo das instituições. No entanto, ao invés de se corromper, Hoi tenta executar a lei até onde o seu poder lhe permite. Já Professor Wan (Damian Lau) também sofre com a influência negativa da tríade na escola. Apesar de ser a bússola moral, Wan se sente impotente diante de um sistema quebrado. O pior é seu sentimento de fracasso ao ser incapaz de inspirar seus alunos, incluíndo Chu Yuen-Fong, a serem cidadãos de bem.

Apesar de Ringo Lam escalar um elenco pouco estelar, as atuações são muito boas. Fennie Yuen demostra talento ao encarnar a protagonista do filme, porém em diversos momentos faltou-lhe intensidade para que pudesse transformar Chu Yuen-Fong em uma personagem marcante. Roy Cheung parece ter sido elegido pelo diretor para interpretar antagonistas. Dessa vez ele é um jovem chefe de tríade que é um verdadeiro filho da puta. Mas fica claro que se ele não fosse assim, perderia o respeito de seus subordinados.

O filme tem uma trama muito boa, mas peca pela falta de personagens marcantes. Os vários personagens são interessantes, mas a falta de foco prejudica o desenvolvimento deles. O maior prejudicado é a protagonista Chu Yune-Fong, pela dificuldade de se engajar emocionalmente com a personagem. Ainda sim, Ringo Lam consegue ser envolvente prendendo a atenção do expectador até o violento final.

Hong Kong feelings: 3,5/5

Título Original: 學校風雲 (Hok haau fung wan)

Diretor: Ringo Lam Ling-Tung

Elenco: Fennie Yuen Kit-Ying, Roy Cheung Yiu-Yeung, Damian Lau Chung-Yun, Lam Ching-Ying, Sara Lee Lai-Yui, Tommy Wong Kwong-Leung, Ho Ka-Kui, Ng Chi-Hung, Amanda Lee Wai-Man.